A Escravidão da beleza



Emanuela Macedo Arantes*


Ao longo do tempo pudemos perceber, estarrecidos, o quanto a “beleza” tornou-se um mecanismo do capitalismo que fortalece paulatinamente a indústria do consumo, promovendo, assim, a produção de roupas, maquiagem, acessórios, cirurgias plásticas, seguidores em redes sociais, academias e produtos de emagrecimento, ou os chamados fitness.


Bem, esta realidade no impulsiona rumo a algumas problematizações: Qual é o impacto disso para as mulheres? Por que isso alimenta o machismo estrutural? Como afeta as relações entre as mulheres? E qual é o impacto das redes sociais na vida das mulheres? Para que essas questões sejam respondidas é preciso analisar aspectos inerentes à “beleza feminina”.


A mulher sempre foi um símbolo de algo bonito e delicado que deve ser preservado, para que, assim, possa servir, seja como uma mulher do lar, como sexy symbol na arte, ou como objeto de consumo. No passado era lhe cobrado a capacidade de realizar várias atividades para ser enquadrar aos padrões de “boa mulher”. Dessa forma, era necessário como tocar piano, desenhar, costurar, saber se portar e falar quando necessário. Mas será que isso ficou no passado?


A construção desses conceitos de perfeição feminina sempre foi alimentanda pelo patriarcado, que sempre manteve os homens no poder, predominantemente em funções de liderança imprimindo-lhes privilégios sociais, seja na política, dentro de casa ou nas empresas. Esses privilégios iam desde andar livremente, poder escolher sua profissão, ter menos funções dentro de um lar, muitas vezes apenas a função de provedor à liberdade de expressão e de comportamento.


Ao passo que as mulheres, por muitos anos a fio, precisavam de autorização do do pai ou do marido, para andar pelas ruas, sendo-lhe vedado até o direito à herança. Aquelas que se tornavam mães nem direito sobre seus próprios filhos possuíam, competindo as mesmas apenas a obrigação de se portarem como uma mulher que exalasse “decência”, o que percebia-se pelo próprio vestuário, que as separavam por categorias. Assim, havia aquelas que “se davam ao respeito”, as que “eram pra casar”, e as “meretrizes”. Todas essas definições foram criadas pelos homens, pois eram eles os detentores do poder, os únicos legitimados pela sociedade para dizer o que as mulheres representavam e como elas deviam demonstrar esses valores com seus trejeitos, sua sensibilidade, seu amor incondicional, bem como sua subserviência.


Ao ingressar no mercado de trabalho, mesmo que elas já trabalhassem muito dentro de casa, ainda era necessário enfrentar o machismo estrutural fundamentado pelo patriarcado, que explorava sua força de trabalho com a mesma intensidade que cobravam elegância, educação e beleza. Ora, isso possuía um preço muito alto a ser pago por tantas mulheres que sofriam com casamentos arranjados, prisões em lares abusivos e dedicação incondicional a família.


Depois de tantas décadas de luta pode-se dizer que conquistamos a independência financeira, direitos de voto, de ir e vir, sobre os filhos, acesso ao mercado de trabalho e a educação. No entanto continuamos presas às amarras do ideal de corpo perfeito, cabelo bem alinhado, unhas sempre feitas, maquiagem para as ocasiões precisas, roupa da moda, pelos sempre aparados, bem como a casa impecável. O que nos remete ao fato de estudos apontarem que as mulheres trabalham em média 7,5 horas a mais que os homens, devido a jornada dupla (Agência Brasil, 2017). Ora, não é novidade o fato de que esta jornada, na verdade, é a tripla, pois é necessário desdobrar-se entre as funções do lar, do trabalho e da manutenção da “beleza”.


Quando uma moda é lançada todas precisam se adequar a fim de seguir um certo padrão pré-estabelecido pelas empresas de marketing que ditam o uso de roupas, acessórios e makes. Isso nos reporta a outra realidade latente: o Brasil é um dos países que mais realizam procedimentos estéticos, seja numa clínica de estética ou clandestinamente, pois temos uma das populações que mais se preocupam com a aparência. Tal comportamento contribui com a lotação de academias e lojas de produtos fitness, uma vez que compete ao corpo, teoricamente, se enquadrar no que as blogueiras dizem e publicam, mesmo se tratando de um padrão improvável para a maioria das mulheres. As redes sociais, por sua vez, cumprem o papel que o machismo, muito bem estruturado implantou, se alimentando da insegurança e da competição feminina, causando distúrbios alimentares, depressão, ansiedade e infelicidade. Pois a moda do século XXI gira em torno das Influencers que transitam entre Youtube, Instagram, ou Facebook, mostrando o que fizeram para emagrecer, em como rotinas de academia e dietas milagrosas que lhes renderam corpos padronizado como ideal de beleza. O que elas não contam é que recebem muito dinheiro para manter aqueles corpos com o intuito de fomentar o consumismo desenfreado dos mais variados produtos.


Esta realidade impede que grande parte da sociedade não reflita sobre o fato de que a beleza ela vai muito além da aparência, e as mulheres são o maior exemplo disso. Trabalham, são maioria nas Universidades, são mães, filhas, fortes e incrivelmente interessantes na sua individualidade.


Por isso é tão urgente e necessário fazermos uma análise crítico reflexiva sobre o fato de que não podemos mais permitir que nos escravizem de forma tão cruel e leviana. Pois compete a cada uma de nós “nos pertencer” e tornarmos senhoras de nossas próprias vidas. Assim, poderemos fazer da Sororidade a palavra de ordem para estabelecer nossas relações umas com as outras, nos emancipando como mulheres livres.

Referência

VERDÉLIO, A. Mulheres trabalham 7,5 horas a mais que os homens devido a dupla jornada. Agência Brasil. Brasília, 2017. https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-03/mulheres-trabalham-75-horas-mais-que-homens-devido-dupla-jornada. Acesso em: 01 de setembro. 2020.



Texto: Emanuela Macedo Arantes

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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