A Face Subentendida do Fascismo


No último dia 06 de setembro, o candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro foi esfaqueado durante ato de sua campanha na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais. Felizmente o ataque foi superficial e o candidato em breve estará recuperado para continuar suas atividades mirando o cargo majoritário da política brasileira.


O ataque feito a Bolsonaro tem que ser repudiado por todas as pessoas que acreditam na construção de um país que deseja ter as relações humanas salvaguardadas. Alguns podem até argumentar que o candidato recebe o que dinamiza, pelo fato de defender a violência como valor fundamental diante das relações sociais.


O argumento de quem se satisfaz com o ato de violência em si, por não concordar com os preceitos defendidos por Bolsonaro, somente reforça o discurso de “olho por olho e dente por dente”. Práticas fascistas, discursos de ódio, e atos violentos não serão descontruídos se jogados com a mesma carta, pelo contrário, a desconstrução passa pelo pensamento a contrapelo.


Pensar a contrapelo, me valendo da afirmação do filósofo Walter Benjamin, está ancorado na desnaturalização daquilo que é compreendido como natural. Em tempos sombrios, como o nosso, quando o fascismo se imiscui sorrateiramente, estando mais perto do que nossa vã consciência pode imaginar, é importante procurar compreender as origens do fascismo para começar o processo de desconstrução.


No entanto, o preceito de desconstrução passa pelo campo das ideias, e não do sujeito fascista em si. Nesse sentido, todo ato de violência contra quem defende a violência está muito distante de ser e de servir como antídoto, entretanto, reforça ainda mais os discursos de ódio, porque constrói a ideia de nós contra eles.


A violência é, na realidade, uma ausência de capacidade cognitiva e, também, de sensibilidade social, porque é notório que o sujeito violento demonstra dificuldades para estabelecer relações com àquilo que se distancia de sua “leitura” de mundo. Diante da incapacidade, utiliza práticas violentas como mecanismo de intimidação e tentativa desesperada de colocar as coisas no espaço que compreende como “natural”.


Acreditar na violência como início, meio e fim, nunca foi, não é, e provavelmente não será o caminho mais viável, porque tateia o problema superficialmente. Antes do ser violento há um ser humano, que por diferentes razões perdeu a capacidade de respeitar as diferenças. Procurar fazer com que o indivíduo se reencontre com o seu ser humano perdido é, não somente um desafio, mas um objetivo.


Importante ressaltar, a ideia defendida acima não é uma utopia, mas uma necessidade, que talvez possa ser compreendida por meio da seguinte assertiva, é necessário acreditar no diálogo para que possamos conviver respeitosamente entre as diferenças.


Há tempos, parte da sociedade brasileira tem perdido a capacidade humana de construir relações com quem está fora do nicho, preferindo isolar-se, vendo o outro, diferente, divergente, como inimigo potencialmente a ser destruído. Desumanizar quem pensa distante do que pensamos é uma das principais características do fascismo.


Segundo Roland Barthes: “A característica do fascismo não é impedir você de dizer, mas obrigar você a dizer”. Seguindo o raciocínio do filólogo francês, é provável que mesmo lutando contra a face da violência, exista uma tendência para que fiquemos satisfeitos com atos violentos endereçados aos sujeitos que à apregoam. É provável que essa característica subentendida do fascismo explique a felicidade de algumas pessoas progressistas diante do ataque ao presidenciável. Porém, o regozijo, nesse momento, pode ser entendido como uma prática de potencial fascista, porque há a naturalização do ato e a justificativa para o mesmo.


É bastante provável que Bolsonaro não irá modificar sua leitura depois do ataque que sofreu, porque o resultado da violência é, geralmente, mais violência. Atos violentos não educam, mas somente atiçam a sanha daqueles que veem nesse modelo os modus operandi de uma sociedade.


A desconstrução do fascismo, no campo das ideias, está, impreterivelmente, na capacidade de lê-lo por meio das entrelinhas.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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