Acorda(n)do


Nunca será, ou é demais reiterar, mas o Brasil contemporâneo se tornou embrião do mundo, pelo fato de ter inaugurado, tanto no campo político, quanto social, a construção de uma sociedade que se distancia do mundo real, preferindo tatear um caminho em específico que, pelo menos para eles/as, parece ser mais desejável. Nesse sentido, diferentes realidades não importam, o que passa a ser válido é somente uma noção de realidade, entendida, nesse espaço, como noção fantasiosa.


O conceito fantasioso, aqui mencionado, está relacionado com o sentido do não amadurecimento, alicerçado em um mundo de ilusões pueris, desconectas do e sobre o mundo real, mas que adquirem uma, sem ser contraditório, realidade dentro de um espaço específico, a saber, o espectro das redes sociais, porque nas bolhas online às ilusões pueris encontraram sujeitos iludidos, que têm dificuldades para largarem o mundo virtual, ou melhor, possuem medo de encarar as realidades mais concretas e complexas.


Nesse sentido, se há algo que os “poderosos” de plantão não admitem é que possuem medo da realidade, como não admitem, criam sua própria realidade. Como o medo é algo que assombra, em especial os sujeitos que inverteram a lógica do mundo, fazendo do espaço da rede o mundo real e o mundo concreto um lugar de fantasia, escondem-se do mundo, criando narrativas próprias, reconfortantes, mas que estão muito distantes de apontarem alternativas para solucionarem os problemas práticos.


O fenômeno da inversão da realidade não é exclusivo do Brasil, mas talvez o país, diante dos últimos acontecimentos, alcançou o ápice de diversionismo, que parece até ser divertido, mas não para nós, sujeitos de carne e osso. Indubitavelmente serão aqueles/as que possuem noção da realidade os primeiros afetados com o fantasioso aplicado na prática, porque percebem o desastre que a inversão da realidade proporcionará, ou melhor, já proporciona.


No contexto brasileiro, quando o fantasioso está no apogeu, os horizontes de expectativa não são nenhum pouco animadores, não somente no tocante aos resultados, previsível para quem pensa antes de falar, mas também sobre a durabilidade. A gestação do mundo fantasioso foi efêmera, mas sua continuidade será representada pela longa duração, ou será passageira como o seu surgimento?


Diante do contexto caracterizado pelo hibridismo da longa e curta duração, é difícil apontar para um horizonte que indique quais caminhos o mundo fantasioso irá trilhar, mas se é possível, e as ciências humanas possibilitam trabalhar com o campo das hipóteses, é prudente dizer que o fantasioso terá um fôlego curto no embrião Brasil, porque a práxis da realidade, em breve, baterá as portas, e quem se beneficiou de fenômenos como fake news, pós-verdade, e auto verdade, não terá condições de vender o mundo fantasioso para pessoas que diante da “brabeza” da vida terão sido acordadas para um mundo construído de sujeitos de carne e osso.


Sou sabedor que é muito mais reconfortante continuar no mundo do faz de conta, acreditar em discursos salvacionistas e, preferencialmente, em salvadores da “pátria”, ou mesmo isolar-se em bolhas, ouvir os mesmos e as mesmas coisas, atribuir os problemas reais aos inimigos imaginários, acreditando que tudo ficará bem, ou está bem quando o representante mor do dito “cidadão de bem” está no poder.


No entanto, diante do fantasioso se apesenta como necessário viver na realidade, lidar com problemas reais, dialogar com pessoas reais, construir alternativas reais. Acreditar no mundo do sol e da chuva não é somente sensato, mas talvez seja o único caminho viável para continuar existindo enquanto ser humano, porque há, visivelmente, uma tentativa nítida de tentar construir um país, não da fantasia, mas do não existente, ou melhor, existente na cabeça de poucos e inculcado na mente de muitos/as.


Diante da tentativa do sonambulismo coletivo, não há outro caminho a não ser nos mantermos acordados, vigilantes, propositivos e, consequentemente, unidos.

Eu sei, é difícil, amadurecer dói, mas, mais do que nunca, se tornou necessário.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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