“Cândido, ou o otimismo”: Breves comentários



O presente texto tem por objetivo tecer breves comentários sobre a sátira filosófica Cândido, ou o Otimismo, publicada em 1759. São comentários avulsos postulados em decorrência de leituras realizadas, não sendo o texto uma crítica especializada de literatura. Dito isso, o texto dividir-se-á em duas partes. A primeira busca ser uma síntese biográfica do autor da sátira objeto dos comentários deste texto. A segunda e última parte serão compostas por impressões e percepções obtidas por meio de leituras da obra e de alguns outros textos a respeito.


A SÍNTESE BIOGRÁFICA DE UM “HOMEM DE LETRAS”


É muito provável, por um lado, que a maioria das pessoas não conheçam François Marriet Arouet tão somente por este nome. De outro, se lançarmos à guisa o pseudônimo “Voltaire”, muita gente conseguiria associar o nome à personalidade, estando este presente entre um dos mais notáveis e atuantes dramaturgos e filósofos do século XVIII. Alguns estudiosos e especialistas afirmam que a adoção do pseudônimo “Voltaire” compreendia duas estratégias especificas. A primeira consistia em uma maneira de desviar de seu verdadeiro nome as críticas que lançava em diferentes flancos, como à intolerância religiosa, à superstição e ao dogmatismo. Sua tática era justificável, uma vez que ainda persistia um sistema político assente na autoridade suprema do monarca, embora o movimento iluminista começava a despontar no auge dos setecentos. Diante disso, qualquer ataque ao establishment poderia lhe causar grandes infortúnios, o que de fato ocorreria mais tarde. A segunda estratégia era estética, com o perdão do uso que aqui fazemos do termo. François escolhia um pseudônimo de forte expressão e impacto, ao que ensejava alcançar o panteão dos maiores escritores e pensadores de seu tempo. E para alcançar tamanha glória de espírito, deveria escolher um pseudônimo como que uma marca, um símbolo, um emblema daquilo que se tornaria em um futuro não distante: um homem, um dramaturgo, um filósofo e uma resiliência.


Voltaire nascera em Paris, a 20 de setembro de 1694. Quase não sobreviveu aos infortúnios do parto. Sua composição física, diziam, era deplorável. Era um raquítico recém-nascido que muitos não acreditavam viver mais do que alguns dias. Desde então, acostumava dizer que “nascera um homem morto”. Voltaire crescera em um ambiente abastado. Seu pai, M. Arouet, era um comerciante de notável reputação e influência. Sua mãe, Mme. Arouet, era filha de um escrivão criminal do Parlamento Francês. Durante toda sua vida, Voltaire fez grande fortuna; era também um homem de negócios. Pertencia aos círculos nobiliárquicos mais influentes da França, Inglaterra, Prússia (onde se tornara mestre e amigo pessoal de Frederico II, simplesmente o rei daquele ducado). Educado por jesuítas, Voltaire logo se viu afeito à dramaturgia, começando logo cedo, jovem, a escrever poemas e peças de teatro. Seus favoritos eram Homero e Virgílio; afeitava-se pelos clássicos. Mais do que de pressa, foi ganhando notoriedade entre os mais restritos e doutos grupos eruditos do teatro, da poesia e da dramaturgia. Antes de completar trinta anos de idade, já estava entre os maiores da França, e sua reputação como grande homem de letras já se espalhava pela Europa.


De personalidade ácida e arredia, Voltaire não media esforços e nem palavras em seus escritos. Mesmo em suas poesias, peças teatrais e contos literários, não se comedia em criticar aquilo que achava necessário e urgente. De imediato começou a desagradar alguns poucos, mas, muitos poderosos de seu tempo. Apesar de amar a França, este país quase sempre lhe causara inconvenientes. A monarquia, desde Luís XIV a Luís XVI – apesar de fazê-lo internamente – não reconhecia o grande espírito e o grande homem que se tornara Voltaire. A admiração que tinha pela Inglaterra como a nação panóptico da liberdade civil e da tolerância especialmente no campo da religião, eram, de certo, sua excitação máxima do que pretendia ser a França em seus melhores dias. Passou por duas vezes cativo na Bastilha. Fora acusado por seus inimigos de ir contra os costumes e as tradições mais conservadoras. Foi perseguido pelo Clero por toda sua existência. Os infortúnios que eram impingidos a Voltaire, como o exílio e o cativeiro, não raro eram tentativas claras de impedir sua ascensão de homem que ultrapassava o simples campo da escrita literária, para homem cuja pena começasse a moldar a opinião pública e a semear distúrbios nas massas.


Embora houvesse um faraônico esforço para impedir o espírito de Voltaire em suas intenções em nada comedidas, sua reputação e reconhecimento em meio ao público erudito e também de parte considerável das massas iletradas, só crescia. Não raro, mesmo estando fora da França durante muito tempo devido ao risco que corria, Voltaire não abandonava a pena e o tinteiro. Cada vez que se sentia acuado, perseguido e censurado, escrevia mais e com maior ousadia. Não media esforços para esnobar, satirizar, ironizar, ridicularizar e depreciar alguém que merecia sua atenção. Rivalizava cotidianamente com Jean-Jacques Rousseau e Gottfried Wilhelm Leibniz, seus maiores e mais influentes opositores.


Passada a mocidade e em sua fase mais experiente, Voltaire se vê diante da Filosofia. Nesta fase, vê-se um Voltaire consolidado como um intelectual de elevada estirpe filosófica, embora o termo “intelectual” tenha surgido – à contragosto de algumas suposições – tão somente a partir do século XIX. Nesse sentido, Voltaire passa a figurar entre as grandes mentes da Europa e do mundo. A sua relação com a Filosofia assume um importante papel dentro e fora dos limites do Iluminismo. Não deixando de lado sua paixão original, a dramaturgia, Voltaire engaja-se nas discussões filosóficas como instrumento de combate à “infâmia” dogmática, ao determinismo, à irracionalidade da censura e do providencialismo. Faz da Filosofia sua arma de ataque e defesa. Advoga em favor de uma sociedade anticlerical e livre dos grilhões da religião. Assume para si o deísmo ao invés do ateísmo, que entendia ser uma paixão e uma fé comparada à dos religiosos mais fanáticos.


A despeito de qualquer forma de fanatismo, Voltaire se vê, já em sua fase menos agitada em grande parte devido à velhice e toda sorte de incômodos que lhe proporcionava, frente a um desafio do tamanho de sua reputação. Na agitada e terrível guerra religiosa travada entre católicos e protestantes que assolava a Europa e ao mesmo tempo a dilacerava, o assassinato de um homem, supostamente um protestante, lhe causaria uma enorme inconformidade. O aparente assassino, conforme o veredicto decorrente do julgamento realizado, era o próprio pai da vítima. A justificativa que corria na boca do povo e de todos os envolvidos no tocante ao filicídio, era a de que o pai descobrira que o filho desejava apressadamente se tornar um católico, ao qual o pai, inconformado, teria então assassinado o filho para “evitar um mau maior”. Este evento sacudiu a França e a Europa por sua gravidade e publicidade. Ficou conhecido como “O Caso Calas”, em razão do nome do acusado de assassinato se chamar Jean Calas. Este, fora condenado ao suplício, o que o levou a “confessar” o crime. Após decorridos alguns meses do julgamento e da condenação que culminou na morte do culpado, Voltaire empreendeu mundos e fundos para provar a inocência do então Jean Calas. Depois de ter ouvido testemunhas, reunido uma miríade de documentos, ter reelaborado todos os acontecimentos anteriores e posteriores ao fato, o filósofo que se embrenhava em um ambiente que lhe parecia a todo momento hostil, chega a uma conclusão certeira: ocorrera um equivoco jurídico e a condenação de um homem inocente. Jean Calas fora condenado ao suplício e à morte pela verve da intolerância religiosa, um inimigo forte e poderoso, cujas forças tomavam de empréstimo todos os esforços e energias de Voltaire.


Após toda sorte de repercussão e desgostos causados pelo Caso Calas no espírito de Voltaire, o judiciário reconheceu o erro e se retratou. Para Voltaire, isso representou uma vitória não apenas sua, embora fosse extremamente orgulhoso e egocêntrico. Representara a vitória da filosofia e da razão ante o abismo da irracionalidade e da intolerância. Decidiu contribuir com um projeto ousado e grande: a Enciclopédia. Juntamente com outros notáveis homens de letras, filósofos e pensadores, tais como Diderot, D’ Alembert, Montesquieu (com quem tinha uma distante amizade), Buffon, barão D'Holdbach e seu inimigo eterno, Rousseau, Voltaire desejava não ficar de fora daquele suntuoso projeto. Era vaidoso.


François Marriet Arouet (Voltaire) falecera a 30 de maio de 1778, após retorno triunfal a Paris. Havia conseguido atingir seu maior objetivo: entrar para a história universal. Tornara-se um dos nomes mais renomados da dramaturgia, embora as injustiças históricas não o tenham lhe dado o devido reconhecimento neste ramo. Ficou mais conhecido como filósofo, o que também não o incomodaria, com toda certeza. Atravessa gerações como sendo um símbolo da luta pela tolerância religiosa e política. É reconhecido também como precursor de uma crítica que regada à ironia, ao escárnio e à acidez dos argumentos, incomodava aos poderosos.


CÂNDIDO...


Certamente que uma síntese biográfica não é minimamente suficiente para se compreender como alguém vivera de fato. Existem informações que são colocadas em segredo, silenciadas ou distorcidas. Em se tratando de uma figura como a de Voltaire, impossível seria a qualquer biografia sua, mesmo a aquelas mais sérias e melhor redigidas, descrever em toda sua essência e riqueza de detalhes, as experiências vivenciadas por ele. De tal modo que muitos que se dedicaram ao empreendimento biográfico ou mesmo ao exame de suas obras mais conhecidas, não o conseguiam definir em linhas concretas, principalmente no que concerne à sua atuação como homem de letras, como intelectual. Existem versões que buscam pinçar um Voltaire majoritariamente dramaturgo. Outras, como filósofo nato. E, até algumas que arriscam delegar-lhe a alcunha de historiador. Mas existem aquelas que o definem, a um só tempo, como dramaturgo, filósofo e historiador.


Essa profusão de essências e ofícios a um só homem, como no caso de Voltaire, é reveladora de seu espírito incansavelmente sedento por conhecimento. Nestes termos, à revelia de algumas visões, Cândido, ou o Otimismo, seja uma obra definida ora como sátira filosófica, ora como romance ou ora como um conto. Diante de tamanha imprecisão – o que demonstra cabalmente a sagacidade de Voltaire –, porque não assumir o risco de afirmar sem receios que Cândido é uma obra prima, envolvente e cativante, que absorve elementos do romance, do conto e da filosofia? Talvez possamos acrescentar ainda a observação de que Cândido seja resultado de um Voltaire maduro, experiente e dotado de múltiplas habilidades e sapiências.


A leitura de Cândido nos envolve de tal maneira que você quer o mais rápido possível chegar ao seu final. As peripécias do personagem central, Cândido, filho de uma fidalga irmã de um rico barão, que possuía um suntuoso castelo, começam quando este se apaixona por Cunegunda (Cunegundes, em algumas versões), a filha do então barão. A jovem baronesa era provida de notável beleza, o que de imediato despertara a atenção e a paixão de Cândido. Certa feita, encontraram-se Cândido e a senhorita Cunegundes frente a frente, ao que rapidamente se cortejaram. O barão, de passagem, os viu, no que de imediato expulsou Cândido do suntuoso Castelo. A partir desse funesto episódio, Cândido mergulha em uma longa e melancólica aventura. Entregue à própria sorte, Cândido vivenciara momentos infernais. Em suas andanças, experimentava a fome, a sede, o frio e o cativeiro. Foi posto a ferros mais de uma vez. Reencontrara o saudoso mestre Pangloss, a quem sempre fazia referências. Da boca de seu mestre, ouve que Cunegunda havia sido violentada e estripada; que o suntuoso castelo onde vivia tinha sido assaltado por búlgaros, tidos como selvagens. Em apostasia, Cândido não acredita estar ouvindo aquilo. Ainda abatido pela triste notícia, Cândido presenciaria muitas e desagradáveis experiências. Enfrentaria uma tempestade, um naufrágio e um terremoto. Não tardaria, logo se tornaria, também, um assassino. As circunstâncias de sua sorte lhe provocariam o bestial instinto de sobrevivência, dando cabo da vida de um clérigo e dois militares. Atravessara o oceano. Aportara e conhecera o Novo Mundo. Se encantara com o que a vista alcançava. Pôde se sociabilizar com os Incas, admirar seus costumes e seus hábitos, sair daquele Eldorado cheio de ouro e um homem rico. No fim, reencontra Cunegunda, que sobrevivera ao visceral ataque dos búlgaros. Ao lado de sua amada, “tudo estava o melhor dos mundos possíveis”.


Em resumo, podemos destacar algumas impressões por meio da leitura de Cândido. Em primeiro lugar, a sátira pode ser considerada antileibniziana, mas, principalmente, antideterminista. Voltaire critica o otimismo filosófico. Crítica também o pensamento providencialista e otimista de Leibniz. Pode-se dizer que a sátira desfere uma crítica à concepção teleológica, do princípio de causalidade (causa e efeito) das coisas. Em segundo, nota-se, com significativa frequência, uma crítica a Rousseau, um dos principais alvos contemporâneos de Voltaire. Quase sempre, as menções feitas ao filósofo genebrino e ao seu pensamento ligeiramente avesso a algumas posições defendidas pelo movimento iluminista, centrava-se no entendimento de que a natureza humana se condicionava à inocência (o homem nasce bom), quando a convivência e a experiência social desviara essa contingência natural (a sociedade o corrompe).


Em Cãndido, Voltaire não deixa em demérito sua atroz resignação ante ao providencialismo divino e à ideia de deus, flagrantemente em cheque no século XVIII. Sua negação, nestes termos, é parte de sua vida dedicada ao deísmo, pois considerava inconcebível um deus poderoso e benevolente a toda sorte de fenômenos e a todo tempo (crítica à ideia judaico-cristã de onisciência, onipresença e onipotência de Deus). Defendia a existência de alguma inteligência ou razão superior (que eventualmente poderia ser uma divindade ou não) que tenha sido a causa última da existência de todas as coisas. Nessa concepção, Voltaire negava a revelação divina e a interveniência de instituições religiosas e de suas autoridades nas ações humanas e nos fenômenos da natureza. E está é uma terceira frente de interpretação possível.


Ademais, Voltaire se apresentava avesso e indignado à prática da escravidão humana, especialmente quando os personagens Cândido e Cacambo se deparam com um escravo negro mutilado no Suriname. Mesmo estarrecido com a cena do negro em ferros, segue seu objetivo de encontrar Conegunda, sem o qual “tudo está bem”.


Voltaire menciona a palavra Otimismo apenas uma vez em todo texto de sua sátira. Nessa menção, Voltaire deixa claro sua crítica à ideia de Otimismo amplamente difundida no século XVIII. Por meio de uma fala de Cândido a Cacambo, quando este último indaga ao primeiro o que seria o Otimismo, o qual Cândido o responde: “[...]é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal”. É realmente interessante perceber que no correr da narrativa satírica, Voltaire invoca sempre um clérigo (um padre) na trajetória aventuresca de Cândido. Talvez essa constatação sirva de exemplo ao que Voltaire levou uma vida a criticar intensamente: os dogmas religiosos e seus propagadores. Acredito que, dentre os filósofos destacados do Iluminismo, não haja nenhum outro que tenha atacado com tamanho empreendimento e energia o dogmatismo religioso, a instituição religiosa e os seus defensores fanáticos.


De modo mais ou menos preciso, a ideia central de Cândido de que “Tudo está bem, tudo vai bem, tudo vai o melhor que é possível”, oferece inúmeras possibilidades interpretativas. Não há como não pensar em algo muito premente na contemporaneidade, o que revela, cabalmente, a atualidade dessa obra de Voltaire e de sua filosofia. Vivemos em um mundo conectado, onde a ação dos sujeitos sociais e o exercício da política estão agora em grande destaque, nos meios virtuais. Não é raro observamos as ações de pessoas deixando claro nas redes que suas vidas “vão bem”, “que tudo está bem” e “tudo está o melhor possível”, quando na verdade não está. Urge-se uma necessidade constante e ao mesmo tempo falaciosa de demonstrarmos que estamos bem, que estamos nos dando bem, enfim, que estamos felizes, quando na verdade tudo anda uma desgraça.


Quem tivera o privilégio de correr às vistas a essa maravilha que é Cândido, não ficará surpreso em perceber que o autor usou de muitas pesquisas e estudos em sua construção. Cada parágrafo, cada personagem e cada diálogo, despontam para reflexões filosóficas, conhecimentos de História, Geografia, Antropologia, entre outros. Há, também, os ataques aos inimigos; ao uso sem restrições da ironia, dos sacarmos e da zombaria. É recorrente em toda estrutura narrativa da sátira o ataque pessoal desferido por Voltaire a alguns de seus inimigos mais severos. Em algumas falas e menções dos personagens, esses ataques, recheados de ironia e escárnio, são uma demonstração da mais extrema e sagaz habilidade de Voltaire em desferir golpes aos seus opositores sem mesmo que estes o percebessem. Por essa razão, Voltaire tenha realizado um profundo e minucioso estudo de culturas de alguns povos europeus, africanos, asiáticos e americanos. Vê-se que grande parte das terminologias, regiões, costumes, dialetos, expressões, ritos, crenças e instrumentos mencionados são de genuína e absoluta materialidade.


Por fim, cabe ressaltar que Voltaire e todo seu arsenal literário e filosófico nos provoca a pensar sobre nós mesmos e sobre tudo que nos cerca. Nos induz à criticidade sem meias palavras e sem o “politicamente correto”. É de fato um autor indispensável a qualquer pessoa que queira entender a sociedade e suas contingências: “esmagai a infâmia”.


FONTES CONSULTADAS

CURY, Fernanda. A vida e o pensamento de Voltaire. Rio de Janeiro: 4d editora, [2005].

NASCIMENTO, Maria das Graças S. do. Voltaire: a razão militante. São Paulo: Moderna, 1993.

VOLTAIRE. Cândido, ou o Otimismo. São Paulo: Scipione, 1985.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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