Há Seres Humanos nas Ruas


Nesse último final de semana acompanhei o filme O Solista. A temática impressiona, por trazer um enredo sensível, a saber, o universo dos moradores de rua. O filme se passa na cidade de Los Angeles, apresentando uma quantidade enorme de seres humanos que têm no espaço da rua o único meio acessível de vivência e sobrevivência. Nesse cenário, se encontra Nathaniel Ayer (Jaime Foxx) personagem central do drama.


O fato de seres humanos morarem na rua, não é uma exclusividade das grandes cidades, como a citada anteriormente, mas um fenômeno generalizado do espaço ocidental. Seja nas gigantescas, grandes, médias e pequenas cidades, é possível encontrar inúmeras pessoas vivendo em condições subumanas. Desde crianças, até pessoas com mais experiências de vida, lá estão eles, sentindo frio, fome, sede, vontade de tomar banho, trocar de roupa e outras questões elementares ao universo cotidiano de quem, neste momento, está lendo o texto.


Os seres humanos residentes da rua, se deparam com uma situação desesperadora, se deslocando além da vulnerabilidade emotiva e econômica. O desespero está relacionado com à ausência de esperança, porque com a consolidação, em alguns lugares e implementação em outros, do denominado neoliberalismo, os agentes do capital, assim como pessoas que vislumbram alcançar esse patamar de concentração de riqueza, encontram mecanismos para representar os seres humanos que vivem nas ruas como sendo pessoas invisíveis/descartáveis para o mundo globalizado. (Um ótimo exemplo de ser humano descartável para o capitalismo pode ser encontrado no livro A Metamorfose de Franz Kafka).


Além do neoliberalismo, outro fator que contribui para o processo de invisibilização está relacionado com o caldo cultural conservador do tempo presente, quando o preconceito/discriminação norteia todas as representações endereçadas aos indivíduos que encontraram nas ruas os seus refúgios. Se houvesse uma sociedade humana, a ampla maioria da população se indignaria com a violência do estado, materializada pela força da Polícia, e na incapacidade de fornecer condições de vida humana para os humanos sobreviventes da rua.


No entanto, o caldo cultural conservador contribui para o ocultamento da humanidade do sujeito. Assim, se não há a compreensão da existência de um ser humano, se apoia todas as truculências possíveis praticadas por quem deveria possibilitar proteção. O apoio a jatos de agua em plena madrugada, o à tática de guerra para se lidar com dependentes químicos, é o reflexo de uma sociedade que faz muitas orações, mas não pratica os exemplos de seu mestre.


Aceitar a ineficiência do estado, é não perceber que as crianças, jovens, adultos e idosos que estão nas praças, debaixo de pontes, na porta de supermercados e outros lugares são seres humanos. No entanto, a não percepção está distante de ser algo natural, mas um mecanismo construído no imaginário das pessoas.


Diante da eficácia, a representação se desloca do sentimento humano para o patamar de desumanização/negação para com o outro, podendo ser sintetizada pelos seguintes termos: “Mendigos, bêbados, drogados, maconheiros, e outros adjetivos pejorativos”. Por meio dessa construção coletiva, a pessoa passa a ser entendida como coisa, número e estatística, e não como Pedro, Marta, Luiz e Ângela.


Em decorrência da conjuntura, caracterizada pelo anseio de acúmulo de capital, pelo momento conservador, pela ineficiência do estado, assim como o seu desmonte, culminando na retirada de conquistas sociais, como vem ocorrendo no Brasil, é provável que os seres humanos que vivem nas ruas ganhem novas companhias no decorrer dos próximos anos.


Não há uma única solução, porém, um dos passos para construir uma série de situações que visem diminuir o sofrimento e a quantidade de seres humanos que residem nas ruas, está relacionado com o fato da sociedade passar a entender que as pessoas que estão em vulnerabilidade social são seres humanos, e não objetos inanimados.


Para entender o outro como ser humano, é necessário recorrer a própria humanização, algo démodé no tempo presente.


Abraço e boa semana para vocês!.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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