Meme do Caixão



Em texto de minha autoria intitulado Uma Breve História dos Memes, também publicado neste espaço, procuro, mesmo que genericamente, delimitar uma historicidade dos memes, bem como despontar para uma possível determinação conceitual. Dentre outras abordagens, identifiquei, previamente, mediante trabalho de revisão e leitura de referencial bibliográfico específico, que os memes apresentam-se, à revelia de variações semânticas, como modalidades da linguagem provenientes do ciberespaço, mas que constituem-se de representações do cotidiano vivenciadas e expostas constantemente na Web. Para ser mais preciso e afim de ganharmos tempo e espaço nas linhas que seguem, sugiro o leitor acessar o referido texto, no intuito de se colocar a par de questões históricas e conceituais do tema em questão.


Feitas as considerações acima, pretendo desenvolver uma pequena análise de um meme em específico: o “meme do caixão”. Trata-se de um meme que tem se disseminado com enorme velocidade pela internet, principalmente pelas redes sociais, com enfática propagação pelo Facebook e Instagram. Há também a vulgarização do referido meme por meio de aplicativos de troca de mensagens, como o WhatSapp, por exemplo. A sua atomização pelo ambiente virtual tem revelado ao mesmo tempo a capacidade reprodutora dos memes, a sua difusão por meio de uma intensa hibridização de elementos jocosos e pejorativos (derivados das redes sociais) com aspectos do cotidiano, da linguagem e da cultura.


Para compreendermos o objeto alvo de nossa abordagem, devemos situá-lo a partir de sua própria essência. O assim denominado “meme do caixão” consiste em um acontecimento atípico, onde alguém ou alguma coisa encontra-se prestes a se envolver (ou a se submeter) a uma situação de desgraça, de infortúnio. Pode ser uma queda, um susto, um acidente, uma discussão entre vizinhos que termina em socos e pontapés, uma situação em que a namorada ‘pega’ o namorado visualizando o perfil de outra mulher, ou mesmo quando o evento se demonstre pernicioso, como quando um fio desencapado se aproxima do chão molhado. As circunstâncias e as situações a que se presta o meme do caixão são diversas, sendo praticamente impossível descrevê-las em sua totalidade, cabendo apenas a menção a alguns exemplos mais emblemáticos.


Embora haja uma diversidade de situações quanto à sua representação de eventos do cotidiano, em grande medida, de acontecimentos fatalistas e/ou anedóticos, o meme do caixão é determinado por duas perspectivas que estão intimamente conectadas: a) o desenrolar momentâneo de uma fatalidade e b) a interrupção (total ou parcial) dessa mesma fatalidade, o que causa instantaneamente no observador uma sensação de aflição e até certo ponto, a depender do grau dos eventos ali representados, de angústia. É importante dizer que os vídeos (na grande maioria vídeos caseiros editados) determinam tipologia do meme do caixão, havendo pouquíssimas ilustrações ou imagens que promovam no observador sensações como as obtidas pelos eles.


Tamanha é a difusão desse meme, que já não existe imposições narrativas ou discursivas que por ele não sejam assimiladas. Até mesmo assuntos do crivo político, econômico, ideológico e religioso são, vez ou outra, alvo de suas cômicas representações. Já é possível verificar campanhas publicitárias que utilizam do meme para tentar transmitir alguma informação ou mensagem às pessoas, como aconteceu em Caldas Novas – GO. Neste município, conhecido nacionalmente por seu parque de águas termais e ser um dos principais pontos turísticos do estado de Goiás, a prefeitura afixou dois outdoors com a imagem do meme do caixão. O fato ganhou tamanha repercussão que mereceu reportagem do Jornal Anhanguera, que foi ao ar no dia 13/05 (quarta-feira). Na reportagem, revelou-se que os outdoors com a imagem do meme do caixão foram custeados por empresários locais, e alocados estrategicamente na cidade com a intenção de conscientizar as pessoas a ficarem em casa e a se protegerem do novo coronavírus (nos outdoors, além da imagem dos “coveiros dançarinos”, havia a seguinte mensagem: “fique em casa ou dance com a gente”) (TÚLIO; FERREIRA, 2020).


Como se observa, um meme pode muito bem extrapolar os limites do ciberespaço e atingir a materialidade cotidiana. Assim como uma ideia, como defende Richard Dawkins (2015), cientista pioneiro na abordagem dos memes (não necessariamente os memes que ocupam o ciberespaço), que se reproduz, se replica e se dissemina, um meme também pode atingir essa capilaridade, esse poder de se propagar velozmente, chegando a diferentes lugares, povos e culturas. Ele pode, inclusive, de acordo com Dawkins (2015), a depender de seu grau de difusão e de sua capacidade de aceitação, influenciar decisões, mitigar ações e moldar estratégias.


Até aqui nos ocupamos de expor algumas das características mais notáveis e também a rápida propagação e disseminação do meme do caixão. Falta ainda e talvez o mais importante deste texto: discorrer sobre sua origem e suas significações. Para tanto, convém assinalar que o referido meme consite imageticamente em uma representação de homens negros carregando um caixão, ao passo que executam, concomitantemente, um tipo específico de dança. Segundo Rodriguéz (2020), a cena foi gravada em Gana, país do oeste africano. De acordo com o que constatou o autor, trata-se de um costume local de prestar uma última homenagem ao morto, por ter levado uma vida minimamente boa, saudável e de ter vivido muitos anos. Grande parte desse costume difundido no imaginário social de algumas comunidades africanas, acabou sendo absorvido pelas funerárias locais, que oferecem esse tipo de “serviço” a quem deseja prestar uma última homenagem a um ente querido que faleceu.


Os homens que aparecem dançando e segurando os caixões são os pallbeares (“carregadores funerários”), funcionários das funerárias que executam esse “serviço-ritual”. Conforme Rodriguéz (2020), o ato de dançarem e de se vestirem para realizar esse tipo de serviço nos funerais foi se intensificando com o passar do tempo, não havendo um data-limite precisa de quando essa prática verdadeiramente começou. Esse tipo de serviço funerário pode ser oferecido aos clientes de diferentes formas, a depender dos valores e preços de cada um. Um serviço básico de “carregadores funerários”, como os que aparecem nos vídeos e no referido meme, pode chegar a 900 cedis (cerca de 800 reais). O grau e o nível de intensidade e pomposidade de cada um dos serviços prestados varia conforme o poder aquisitivo do cliente. Àqueles que conseguem pagar por um serviço mais sofisticado, é possível determinar até mesmo a indumentária dos pallbeares. Pode-se escolher com que se vistam igualmente ao defunto, sendo as cores mais utilizadas o preto, considerado básico e usados frequentemente em cerimônias mais solenes, o branco ou o vermelho quando se deseja fazer uma grande festa. Há a possibilidade ainda de contratar figurantes, quando os parentes do morto consideram haver poucas pessoas no velório. Estes, aliás, são os que mais dançam, choram e pulam.


A cena dos “carregadores funerários” dançantes tem uma origem. Ela remonta de duas reportagens realizadas em 2017, uma pela agência de notícias Associated Press e a outra pela BBC. Ao que tudo indica, o objetivo das citadas reportagens consistia em mostrar o costume local de rituais fúnebres baseados em celebrações alegres, descontraídas, como um momento de comemoração pela longevidade do falecido (SANFILIPPO; WITZEL, 2020). A propósito da longevidade do morto que se comemora nos rituais fúnebres, vale ressaltar que a expectativa de vida em países como Gana geralmente não chega aos 60 anos, motivo pelo qual se celebra aos mais velhos que se aproximaram ou atingiram essa idade, quando venham a falecer.


Pelo que se chegou a verificar, das duas reportagens de onde se retirou as cenas dos “carregadores funerários”, de acordo com o site Know Your Meme, especializado em rastrear a origem e a evolução dos memes, as primeiras brincadeiras que logo depois deram origem o exótico meme do caixão, apareceram inicialmente na rede social Tik Tok, no final de fevereiro. Nesta, já se utilizava como trilha sonora ao fundo do vídeo a música Astronomia, do artista de música eletrônica Tony Igy. Embora tenha sido a essa música que se vincula a identidade do meme do caixão, em nada ele representa as músicas realmente tocadas e cantadas nas cerimonias fúnebres em Gana e ou em outros países onde se pratica esses rituais (RODRIGUÉZ, 2020). Ela é apenas fruto de uma edição feita com o objetivo de ironizar o fato, torná-lo engraçado, jocoso. Logo após chegar ao Twitter e aos grupos de WhatsApp, o meme passou a ser viral, ou seja, a se espalhar rapidamente, com uma velocidade de compartilhamento muito grande, recebendo edições e versões das mais variadas. Já no Facebook e no Instagram, antes do que se pensava, já existiam páginas dedicadas exclusivamente à edição, produção e reprodução do meme.


Há que se considerar também que o meme do caixão desponta para duas vertentes a respeito da África. Primeiro reproduz, negativamente, estereótipos e paradigmas (miséria, pobreza, penúria, doenças, determinismo geográfico e climático, seca etc.). Em segundo, possibilita entendermos a diversidade cultural, étnica, religiosa, geográfica e social. De qualquer forma, o que o meme do caixão revela é uma capilaridade de interpretações e representações variadas, comportando elementos das novas metodologias de comunicação e linguagem.





Referências

DAWKINS, Richard. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

RODRÍGUEZ, José Ignácio Martínez. Carregador de caixão, uma profissão comum em Gana que virou meme internacional. El País, abr. 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/verne/2020-04-14/carregador-de-caixao-uma-profissao-omum-em-gana-que-virou-meme-internacional.html. Acesso em: 17 maio 2020.

SANFILIPPO, Giovanni; WITZEL, Nicollas. Entenda o 'meme do caixão', o viral que tomou a internet durante a quarentena. O Globo, abr. 2020. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/entenda-meme-do-caixao-viral-que-tomou-internet-durante-quarentena-24364792. Acesso em: 16 maio 2020.

TÚLIO, Sílvio; FERREIRA, Emerson. Prefeitura instala outdoors com dançarinos do meme do caixão para alertar sobre Covid-19: 'fique em casa ou dance com a gente'. G1 Goiás. abr. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2020/05/13/prefeitura-instala-outdoors-com-dancarinos-do-meme-do-caixao-para-alertar-sobre-covid-19-fique-em-casa-ou-dance-com-a-gente.ghtml. Acesso em: 17 maio 2020.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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