O Grande Teatro


Suponhamos, têm momentos que é bom brincar de supor, que o Brasil seja um grande palco, e que no ano de 2019 tenha estreado uma peça de teatro, do qual os produtores afirmaram e reafirmaram que seria inédita, distante de tudo que a população brasileira tenha visto, ou se quer imaginado. Mas, antes da estreia, a peça foi anunciada nos diferentes rincões, impulsionada por meios rápidos de comunicação, se tornando, rapidamente, popular, impressionando muitos, simpatizando alguns, alarmando tantos outros.


Os alarmados, diziam, desde o tempo que a peça começou a ser gestada, a partir de 2015, que o conteúdo era deprimente, o figurino era deplorável, e os atores e atrizes que protagonizariam o enredo teatral eram péssimos, com sérias e preocupantes dificuldades para compreenderem o roteiro.


As críticas dos especialistas não ficaram somente nas estrelas principais, estendendo-se aos roteiristas, quando alardeavam o improviso, a falta de leitura para compreenderem as peças teatrais escritas por William Shakspeare, e tampouco conheciam o grande diretor Zé Celso. No entanto, sem referenciais, os diretores afirmavam, naquele momento, que as críticas eram oriundas de uma imprensa com viés ideológico, ou pertencente aos professores/as leitores de filósofos europeus. Sobre as críticas oriundas de artistas, as mesmas eram contraditas por roteiristas da peça nova como se fossem feitas porque os artistas estavam com medo de acabar com a determinada lei “Rouanete, Runê”, ou que diabo seja?


Afinal, diziam que o importante não era o nome da lei, mas as possíveis falcatruas dentro da lei. No diálogo contemporâneo inventado pelos envolvidos com a peça nova, imagináveis falcatruas recebia o nome de “mamata”. Lembro-me como se fosse ontem de uma jovem entusiasmada com a peça gritando: “Vai acabar a mamata”. O grito era como se fosse um marketing propagandístico. Mas deixemos a “mamata” para um momento mais específico e concentremos esforços no público.


Naquele contexto, parte do público brasileiro, infelizmente, não tinha o hábito de frequentar o teatro. No entanto, de uns tempos para cá, parte da população, em especial os entusiasmados, se especializou nos mais diferentes e complexos assuntos do teatro, transitando por roteiros relacionados ao meio ambiente, economia nacional, internacional, até mesmo na formação de atores e atrizes pela UBT (Universidade Brasileiríssima de Teatro).


É importante salientar que os entusiasmados, por diferentes razões, não tiveram oportunidade de frequentar os espaços que criticam no tocante à formação. Uma das críticas mais incisivas estava relacionada, de acordo com suas percepções, pelo fato de que os novos atores e atrizes, formados pela UBT, estavam sendo totalmente dominados pelos professores/as, não tinham autonomia.


Um senhor, parecendo estar com raiva, dizia que no tempo dele que era bom, mais ou menos uns 50 anos atrás, porque os professores/as não inventavam, ensinavam cantar o hino nacional, enfatizando as entonações agudas, deslizando as cordas vocais para momentos de ênfase, como no brado retumbante, e pronto. Segundo ele não tinha isso de estudante de teatro questionar o diretor da peça não, era obediência pura e simples. Peço desculpas, o termo utilizado por ele não se refere à obediência, mas a disciplina. Isso mesmo, o senhor falou muito em disciplina. Depois confessou que seus professores se sentiam desconfortáveis diante daquela situação.


Diante de sua fala, alguém, não se sabe de onde apareceu, ousou questioná-lo se não era contraditório falar em renovação teatral e ficar preso dentro de um passado que os especialistas, do teatro, questionavam como sendo de péssima qualidade e com um caráter violento por parte dos diretores. O senhor, mais irritado do que no início da conversa, disse: “Os ditos especialistas não sabem de nada, eu vivi e sei o que era bom”. Seu neto, de mais ou menos uns 25 anos, concordava enfaticamente com o avô.


Quando se distanciaram, o ser misterioso, questionador, ouviu o neto dizendo que o avô havia lacrado. Mais sorridente, o senhor disse: “Esses críticos, comunitáristas, é melhor ficarem espertos porque quando a peça nova fizer sua estreia eles terão que trabalhar, bando de vagabundos”. Para ser sincero, como se afastaram, o ser misterioso não ouviu dizer as últimas frases, mas como imaginando, e lembrando o teor da conversa, relatou que as palavras que chegavam sussurradas aos seus ouvidos eram essas, se não fossem, disse, são parecidas.


As falas, culminando com o desespero arrebatador que tomava conta dos críticos da peça, o crescimento de popularidade junto ao público, o anseio para vê-la, fizeram dos últimos meses que antecederam a estreia momentos de angústia, tensão e desespero. Muitos críticos disseram que, sem ser contraditório, não iriam mais criticar, porque palavras e leituras sensatas eram difíceis de penetrar nos momentos brutos. Alguns deixaram, mas tantos continuaram escrevendo, falando dos erros na direção e na falta de experiência de atores e atrizes para atuar em um palco tão plural como aquele.


Engraçado, porque o ator principal, a estrela do espetáculo, já atua tem um bocado de tempo, e mesmo assim, para os críticos, é dotado de falta de experiência. Mas, enfim, diante do esmorecimento das peças concorrentes, a peça adquiriu favoritismo na elaboração e desenrolar do edital e se saiu vitoriosa. A expectativa para vê-la era tão grande que o público colocou adesivo, em seus veículos automotivos, com o nome do ator principal.


Por falar no ator principal, sua notoriedade foi aumentando, aumentando, aumentando, com tamanha proporção, que o público se sentia tão íntimo, mas tão íntimo, que não era raro ver alguém afirmando que o ator era gente da gente. Sinceramente, tenho dificuldades para entender o que é gente da gente, mas isso não importa nesse momento. O importante é ressaltar os dizeres circulantes. O ator principal, antes mesmo da apresentação, se sentia nos braços do povo, embora esse sentimento tenha ocasionado um grave incidente, mas, no final, não atrapalhou seus planos de brilhar no palco.


Por falar em brilhar no palco, sem mais delongas, vamos para a apresentação. No dia da peça, dada à expectativa, a imprensa madrugou para noticiar os bastidores, entrevistar diretores, atrizes, atores, o ator principal, conversar com importantes nomes do teatro internacional, embora, sabe-se lá porque, muitos nomes de peso não compareceram no dia do grande espetáculo.


Na cobertura, a imprensa teve um tratamento de cão, porém sempre é importante ressaltar que os cães, assim como outros animais, merecem respeito e cuidado dos seres humanos. Voltemos à imprensa, no qual fora impedida de realizar seu trabalho, algo anormal se comparado com as grandes apresentações que acontecem de quatro em quatro anos.


A peça, levando-se em consideração o desejo de ser um sucesso, começou de forma equivocada, desmerecendo o trabalho dos meios de comunicação. Mas o público ali presente adorou o tratamento dado à imprensa, e teve até um coro da plateia, ansiosa para ver o espetáculo, gritando whatsaap e Facebook para os profissionais que passavam cabisbaixos e cansados perante uma, menor que a expectativa inicial, plateia encantada com o momento, acreditando que aquele marco seria o verdadeiro marco, salvando, a partir dali, os rumos do teatro nacional.


Finalmente, ou melhor, depois de algumas ações protocolares, as cortinas se abriram, o público gritou de emoção, faixas nas cores verde e amarela saíram das cabeças e foram para os pulsos do público em frenesi. Porém, a euforia foi rareando, não somente porque era necessário acompanhar atentamente o desenrolar do enredo, mas também pelo fato da plateia estar sentindo um pouco de cansaço por estar a algumas horas esperando aquele momento, que momento, diziam.


Se me permitem, só um adendo, antes de começar o espetáculo, o locutor que comandava as apresentações menores falou algo que deixou, quem tinha, de cabelo em pé, porque o espetáculo teria uma duração maior se comparado com aquela que a plateia imaginava. “Como assim, não é só um dia?” Ouviu-se essa pergunta de uma jovem com uma criança ao seu lado. “Parece que não”, respondeu um rapaz. A jovem, menos entusiasmada continuou: “Já estamos aqui, e vamos ficar até o fim”.


Ao entrarem no palco, atores e atrizes pareciam demasiadamente nervosos. Suas ações desconexas, versos eram ditos e desditos ao mesmo tempo. Diante da expectativa gerada seria normal o nervosismo, mas aquele nervosismo não era normal. O ator principal parecia não ter ensaiado suficientemente, ou não conseguiu compreender o seu papel, suas falas eram entrecortadas, parecendo buscar na memória os versos que faltavam, seu personagem, real, que em outros espaços parecia ser de um grande bufão, demonstrava um ar de seriedade e revanchismo endereçado aos críticos. Definitivamente, o palco não deixava-o confortável, isso era visível.


O desconforto era tamanho que a plateia, ansiosa, entusiasmada, começou a ficar inquieta, descontente com os rumos que o espetáculo tomava. Alguns pensavam, mas com receio de admitir, que não podia chamar aquilo de espetáculo. Rapidamente burburinhos começaram a soar com uma intensidade, até certo ponto, perturbadora. O espetáculo, ruim, diferentemente da leitura inicial, não tinha hora para acabar, e os presentes, a cada mudança, aplaudiam com menos intensidade, até porque o cansaço era evidente, e o improviso cansava-os visivelmente.


Percebendo que o espetáculo não agradava, atores, atrizes e diretores ficaram mais inquietos. Quanto mais nervosos ficavam, mais o espetáculo se deteriorava, aumentando o descontentamento do público. Os aplausos rarearam, os burburinhos se tornaram mais perceptíveis, quem estava presente disse ter ouvido uma vaia. Alguns diziam que se soubessem que seria assim não teria comprado ingresso, outro disse que poderia ter dado atenção ao amigo, ou melhor, antigo amigo, se tivesse não estaria ali. Porém, outro disse algo que todos pareceram concordar, afirmando que pelo menos tinham retirado de cartaz o diretor da peça “comunitárista”. Disseram: “É, pelo menos isso”.


Lá no fundo alguém gritou: “Eu já vi esse filmeeeeeee”. Silêncio. Que horror! Não fechem as cortinas, o “espetáculo” continua.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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