O Historiador e as redes sociais



Desde meados do século XVII, quando Descartes escreveu o clássico Discurso do Método, os/as historiadoras/es se deparam com um “rótulo”, a saber, a ideia de terem que demonstrar que também são pesquisadores/as e sujeitos do tempo presente. De acordo com o filósofo francês: “Mas, quando se emprega tempo demais em viajar, acaba-se por virar estrangeiro no próprio país; e, quando se é muito curioso por coisas que se praticavam nos séculos passados, fica, geralmente ignorante das que se praticam neste” (DESCARTES, 2010, p. 42). Diante da citação, é perceptível que há uma crítica endereçada aos pensadores, do contexto, que se debruçavam em acontecimentos do tempo passado e, segundo Descartes, ignoravam os acontecimentos do agora, não tendo condições de contribuir para a construção do conhecimento contemporâneo.


De forma indireta, a atribuição “cartesiana” se faz presente nas mais diferentes manifestações contemporâneas. Por exemplo, quando alguém pergunta qual curso superior você faz, diante da resposta, o “rótulo” aparece quase que instantaneamente; “Hum, História, mas vocês estudam apenas o passado”. É lógico que, sem desmerecer o nosso objeto de reflexão maior, a trajetória para ‘desconstruir’ o imaginário social demanda tempo, não sendo nada fácil, e diante da complexidade, na maioria das vezes, nossas respostas são: “Pois é”. Por ser uma crítica histórica, nem nos lembramos dos historiadores/as pop da contemporaneidade, quando poderíamos nos valer dos seus exemplos para contradizer o argumento.


Talvez uma das respostas mais significativas ao pensamento de Descartes, esteja concentrada na História Nova, autoria de Vico, publicada pela primeira vez em 1795, ou seja, praticamente um século e meio depois do Discurso do Método, datado de 1637. O pensador italiano procura demonstrar o envolvimento do historiador no tempo presente, reiterando o quanto a leitura sobre os acontecimentos do passado ajuda na compreensão do contemporâneo, evidenciando que as relações sociais são feitas de rupturas, mas também de continuidades.


Porém, no imaginário social, Descartes prevalece sobre Vico. No entanto, com a consolidação das redes sociais, os/as historiadores/as podem encontrar um campo de refúgio para demonstrarem para uma parcela da sociedade que também estão atentos, refletindo, analisando e produzindo sobre os desdobramentos que estão inseridos, ou seja, sobre o tempo presente. Na academia, esses debates ganharam mais fôlego na década de 1930 com o Movimento dos Annales, tendo se consolidado com a História Cultural a partir de 1970, quando os olhares da História se ampliaram. Porém, se na academia falar de ofício do historiador/a como campo de reflexão única e exclusiva do passado é algo em desuso, no conjunto social não é, porque, infelizmente, ainda prevalece um nítido distanciamento entre academia e sociedade.


Existem dificuldades inerentes à qualquer profissão, mas para o historiador/a, uma, historicamente, parece ser mais evidente, a saber, a ideia de escrever, analisar e se posicionar sobre o tempo presente, indo, agora, além de Descartes. Na contemporaneidade, sendo que as transformações aparentam ser mais rápidas do que em contextos anteriores, o ofício do historiador, parafraseando Marc Bloch, está relacionado com o fato de olhar atentamente o que move a sua volta.


Porém, diante do imediato, o olhar, em muitas situações, não consegue ser tão atento, fazendo com que a minúcia dos detalhes possa passar desapercebida. Diante da dificuldade enfrentada, alguns/as, de acordo com seus preceitos, optam pelo distanciamento, público, do tempo presente, voltando seu campo de atuação “apenas” para o objeto de estudo de suas atividades acadêmicas. Assim, decidem compartilhar o que pensam sobre o mundo apenas para grupos restritos, e de sua confiança. Obs. Não adianta procurar nas redes sociais, não há nada, a não ser diferentes palestras nos mais longínquos rincões brasileiros, e em outros países.


Outros/as, se valendo do fenômeno do estrelato que as mídias sociais proporcionam, escrevem em ritmo alucinante, transitando por diferentes áreas do conhecimento, se imiscuindo sobre os mais variados assuntos, desde questões filosóficas, até as relações mais corriqueiras. Porém, apesar da presença atuante, a contribuição acaba sendo diminuta, porque falam e escrevem muito, entretanto as ideias propaladas agradam mais do que transformam.


Na outra esteira é possível destacar os historiadores/as que se sentem incomodados diante dos acontecimentos sociais, sentindo a necessidade de se posicionarem perante o contexto em questão, concentrando esforços em debates sobre a garantia de direitos humanos, desigualdade social, relações de violência e tantos outros. Diante das atitudes, majoritariamente encontradas nas redes sociais, é possível acompanhar leituras transitando da direita para à esquerda, podendo ser algumas entendidas como pertencentes ao campo do centro, outras de caráter conservador, e tantas do campo progressista.


As diferentes manifestações são importantes, porque atestam a presença de inúmeros historiadores/as de centro e de direita no espaço da História, desconstruindo a distorcida ideia, distante de ser ingênua, de que há um arquétipo de historiador/a no Brasil.


Por fim, encontramos pesquisadores/as que se dizem neutros, mas distantes de serem, porque estão ativos, criticando quem se posiciona, dizendo que tudo e todos são da mesma estirpe, afirmando que o melhor caminho é se distanciar, se juntando ao grupo dos que zombam de quem acredita. Porém, é perceptível, alguns neutros estão encontrando dificuldades para proporem alternativas viáveis de transformação social. Aliás, nem sempre a ideia de transformação está presente em determinados posicionamentos.


Por meio das redes sociais, de historiadores/as, é possível “monitorar” as diferentes leituras existentes, não somente no campo das discussões historiográficas ou de cunho político, mas sobre variados assuntos, afinal, nas redes é possível conversar além de publicações, orientações, e seminários. (No entanto, esse importante lado utópico merece uma discussão de mais fôlego).


Voltando ao tema central do artigo, às angústias, anseios, desejos e desafios da sociedade se refletem, intensamente, no ofício do historiador contemporâneo, que pesquisa, publica, participa de eventos acadêmicos, ministra aulas, mas também se encontra ativo nas redes, trazendo suas impressões sobre o mundo e sobre si, possíveis de serem acessados e debatidos pelos mais diferentes internautas.


As manifestações de inúmeros pesquisadores são importantes, porque humaniza, perante os olhos da sociedade, uma parcela da academia que, até pouco tempo, parecia inacessível. Encontrar o profissional de História nas redes contribui na construção de uma outra leitura sobre a atuação do historiador/a, e consequentemente da História, sem negar o valor do passado, mas pensando conjuntamente com esse.


Pode parecer ousado, mas os posicionamentos de professores/as universitários nas redes têm contribuindo para a abertura de uma fresta no muro que, historicamente, separou a academia da sociedade. Como reflexo do contexto em questão, os historiadores/as também alargam a fresta, vivenciando e se deparando com os dilemas do agora. É evidente, a análise sobre o tempo presente, via redes sociais, ainda é um desafio para quem, até pouco tempo, “teve o passado” como campo principal de observação.


Os desafios podem levar, no mínimo, para dois caminhos, sendo satisfatório para o ofício, ou na contramão do que poderia ser. Mas, diante do contexto, prefiro ter esperança na relação entre historiadores/as e redes sociais, por acreditar que essa relação possibilita a necessária aproximação com o conjunto social, além de apresentar outra versão da História e do ofício do historiador/a, em contraponto ao “rótulo” de Descartes. Nesse sentido, há uma afirmação não somente como sujeito do presente, mas que pensa, aprende, reflete, e produz conjuntamente com o tempo vivenciado.


Observar, refletir e escrever sobre o agora não é negar o passado, mas valorizá-lo, porque a reflexão sem a presença da construção histórica, se encontra, em muitas situações, centrada na superficialidade.


Abraço, boa semana para vocês.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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