Por onde andou a Geografia?

Atualizado: 18 de Nov de 2019



Conhecer o mundo a sua volta sempre foi uma das necessidades dos grupos humanos ao longo da história. Desde os primeiros grandes impérios estabelecidos pela humanidade como o Egípcio, Mesopotâmico ou Romano, os generais e senhores da guerra articulavam seus exércitos conforme os saberes estratégicos de seus territórios; os reis e imperadores conheciam e delimitavam seus domínios, sabendo onde e quando encontrar e usufruir de seus recursos naturais; os mapas eram elaborados delimitando fronteiras e rotas de comércios ou de navegação. Porém estes saberes geográficos se encontravam desarticulados, em relatos de viagens, escritos literários ou dados estatísticos. O saber geográfico ainda não se configurava como ciência. A geografia moderna reconhecida como um saber sistematizado e científico surgirá apenas no Séc. XIX, segundo (Moreira, 2008) como um projeto da revolução burguesa nas mãos de Immanuel Kant.


A geografia como ciência surge devido uma acumulação de condições históricas construídas após o séc. XV com as grandes navegações proporcionando uma nova percepção da superfície terrestre. Também as mudanças provocadas na relação homem e natureza e homem e sociedade advindas das revoluções burguesas e industriais na Inglaterra e na França durante os séculos XVII, XVIII e XIX. Diante deste cenário de efervescente mudança a Alemanha, ainda sem romper com o feudalismo, observa de fora, trazendo o homem para o primeiro plano do cenário. Na Alemanha o filósofo iluminista Immanuel Kant busca encontrar um ponto comum para pensar a natureza e pensar o homem. Seja no plano empírico da ciência seja no plano abstrato da filosofia, e para isso vai buscar os pontos de apoio na Geografia e na História. Para Moreira (2008), Kant vai buscar na geografia os conhecimentos empíricos referentes à natureza.


A geografia articulada por Kant era um agregado de conhecimentos empíricos de todos os âmbitos, mas apenas conferia à percepção geográfica do mundo físico através da descrição. Para ele o espaço é um dado que existe a priori da percepção. A descrição ganha o sentido geométrico da localização e distribuição que a geografia vai usar para o aperfeiçoamento da representação cartográfica, através da combinação da percepção sensível e a precisão dos mapas. (Moreira, 2008)


É na Alemanha no Séc. XIX que se desenvolve a elaboração da Geografia como ciência, é neste país que surge os primeiros institutos e as primeiras catedrais da disciplina, é de lá que vem as primeiras teorias e as primeiras propostas metodológicas. No início do Séc. XIX a Alemanha ainda se encontrava em um sistema feudal, comandada por uma aristocracia agrária latifundiária distribuída na forma de um amontoado de feudos. A Alemanha carecia de uma unificação territorial e coube aos geógrafos da época elaborarem os conceitos e os métodos necessários para esta tarefa. Para Moraes (1981) temas como domínio e organização do espaço, apropriação do território, variação regional, entre outros, estarão na ordem do dia na prática da sociedade alemã de então. É sem dúvida, deles que se alimentará a sistematização da geografia elaborada por Karl Ritter e Alexander Von Humboldt.


Ritter propõe o conceito de “sistema natural”, isto é, uma área delimitada é dotada de uma individualidade, a geografia devia estudar os arranjos individuais e compará-los. Ritter define o método comparativo centrado no conceito e na explicação (Moreira, 2008). Em termos de método, Ritter irá reforçar a análise empírica.


Humboldt, seu contemporâneo, parte da ordem de classificação das paisagens segundo método de Ritter para inferir uma visão holística da Terra (Moreira, 2008). Em termos de métodos, Humboldt propõe o empirismo raciocinado, isto é, a intuição a partir da observação (Moraes, 1981). Para Humboldt o objeto da geográfico seria a contemplação da universalidade das coisas, de tudo que coexiste no espaço.


Kant, Ritter e Humboldt fecham a primeira fase da geografia moderna, o que poderíamos chamar de geografia dos fundadores.


Na segunda metade do Séc. XIX tem início uma nova fase marcada pelo Positivismo, pela necessidade de se fragmentar e pelos antagonismos. Neste período temos a separação das ciências naturais e as ciências humanas. A partir desta nova definição de entendimento das ciências a virada do Séc. XIX para o XX presencia o surgimento da Geografia Física e da Geografia Humana. (Rui Moreira, 2008)


É também na Alemanha que tem início esta nova fase com Friedrich Ratzel. Que a partir da análise da relação entre a natureza e o homem funda a Geografia Humana. Ratzel define o objeto geográfico como um estudo da influência que as condições naturais exercem sobre a humanidade. Ratzel é o percussor da corrente Determinista, e cria o conceito de Espaço Vital, trazendo para o debate a ideia de que o meio determina o desenvolvimento de uma sociedade e de que para se desenvolver a sociedade necessitaria de uma quantidade cada vez maior de espaço, legitimando o expansionismo do Estado alemão. A geografia de Ratzel expressa diretamente um elogio ao imperialismo ao dizer, por exemplo: “semelhante à luta pela vida, cuja finalidade básica é obter espaço, as lutas dos povos são quase sempre pelo mesmo objetivo. Na história moderna a recompensa da vitória foi sempre um proveito territorial (Ratzel).” A geografia de Ratzel foi um instrumento poderoso de legitimação dos desígnios expansionistas do Estado alemão recém constituído. (Moraes, 1981)


Na França, após a derrota na guerra franco-prussiana em 1870 e a perda de importantes territórios de jazidas de minério para os alemães, começa a ser debatida a formulação de uma outra escola geográfica. A França atribuí a vitória dos alemães aos seus instrutores, e passa a perceber a necessidade de se pensar o espaço e de se fazer uma geografia que deslegitimasse a reflexão geográfica alemã e, ao mesmo tempo, fornecesse fundamentos para o expansionismo francês. É neste período que surge na França os primeiros institutos e catedrais de geografia e a inserção da disciplina em todos os anos do ensino básico.


Coube a Vidal de La Blache a tarefa de formular uma geografia francesa que se confrontasse com a geografia alemã de Ratzel. A proposta de Ratzel exprimia o autoritarismo, que permeava a sociedade alemã; o agente social privilegiado, em sua análise, era o Estado, tal como na realidade que este autor vivenciava. A proposta de Vidal manifestava um tom mais liberal, consoante com a revolução francesa, e sua análise partiu do homem abstrato do liberalismo.


A primeira crítica efetuada por Vidal diz respeito a politização do discurso de Ratzel, fazendo uso do argumento liberal da “necessária neutralidade do discurso científico”, criticou o caráter apologético ao expansionismo alemão. Vidal imprimiu no pensamento geográfico o mito da ciência asséptica, propondo uma despolitização aparente desta disciplina. Porém, as teorias elaboradas por Vidal atendiam aos interesses franceses de forma mais dissimulada, corroborando para o imperialismo francês de forma mais mediatizada e sutil.


O caráter de passividade humana do conceito de Espaço Vital de Ratzel foi duramente criticado por Vidal de La Blache, que definiu o objeto da geografia como a relação homem-natureza, na perspectiva de paisagem, colocou o homem como um ser ativo, que sofre a influência do meio porém que atua sobre ele, transformando-o. Na geografia Vidalina, a natureza passou a ser vista como possibilidades para a ação humana, daí o nome de Possibilismo. O meio pode ser transformado pelo conjunto de técnicas e costumes, construindo e passando socialmente. Vidal chamou de “Gênero de Vida”, a materialização da relação entre a população e os recursos, em uma situação de equilíbrio construída historicamente pelas sociedades. (Moraes, 1981)


A técnica ocupa um lugar privilegiado na leitura da dinâmica de organização do espaço para Vidal (Moreira, 2008). Conforme o maior número de técnicas maiores são as possibilidades de transformações, e maior o progresso desta sociedade, existindo assim povos mais civilizadas e povos menos civilizados. Ao definir o progresso como fruto das relações entre sociedades e gêneros de vida diferentes, num processo enriquecedor, La Blache abriu a possibilidade de falar da missão civilizadora do europeu na África. E, assim legitimar a ação colonialista francesa. (Moraes, 1981)


Em termos de método a geografia vidalina fala da população, de agrupamentos, e de estabelecimentos humanos, não de relações sociais; fala das técnicas e dos instrumentos de trabalho, porém não dos processos de produção. Enfim, discute a relação homem-natureza, não abordando as relações entre os homens.


Outra corrente de pensamento geográfico, a geografia racionalista de Hettner e Hartshorne surge como uma alternativa as correntes deterministas e possibilistas, esta corrente se fundamenta no neokantismo.


O Alemão Alfred Hettner na virada do Séc. XIX para o XX propõe a geografia como ciência que estuda a diferenciação de áreas, isto é, a que visa explicar o “Por quê” e “em quê”, para ele a Geografia seria então o estudo dessas formas de inter-relação dos elementos no espaço terrestre. A geografia seria o estudo da “Variação das áreas”. Porém as ideias de Hettner tiveram pouca notoriedade na época devido ao domínio incontestável do possibilíssimo. Foi somente após sua retomada pelo geografo norte-americano Richard Hartshorne que suas ideias foram amplamente discutidas.


Hartshorne introduziu o pensamento de Hettner a Geografia americana e o aprimorou. Para ele a Geografia seria um estudo das “variações de área”. Os conceitos formulados por Hartshorne foram os de “área” e de “integração”, ambos referidos ao método. Articulou a geografia geral e a regional, diferenciando as pelo nível de profundidade de suas colocações. Assim, Hartshorne possibilitou os estudos das áreas por tópicos distribuindo os estudos por uma análise regional em temas de interesses como a Geografia do Petróleo, Geografia da Monocultura, Geografia da Indústria e etc... analisando a integração destes temas a nível mundial.


Chegamos ao fim do período da Geografia Tradicional, etapa que se fundamentou em máximas como: a idéia de ciência de síntese, de ciência empírica e de ciência de contado, privilegiou os conceitos de paisagem e região, evidenciando, sobretudo, aspectos descritivos e aparentes da dinâmica socioespacial. (Saquet, 2007)


O Séc. XX apresentou diversas transformações: o desenvolvimento do modo de produção capitalista, superando o modo concorrencial e entrando na era monopolista; a evolução tecnológica que exigia uma instrumentalização maior das ciências; o fim do liberalismo com a crise de 1929 colocando uma necessidade de maior intervenção do Estado, modificando o papel dos Estados como agentes do planejamento econômico, além da Globalização dos mercados e do capital financeiro. Tudo isso trouxe uma nova conjuntura socioespacial que escancarou a defasagem da geografia tradicional início a uma crise.


A geografia tradicional começa a entrar em crise na década de 50 se desenvolvendo aceleradamente na década de 60 e em 70 a geografia tradicional estava definitivamente enterrada e superada. Entre os principais problemas dos críticos estava na indefinição de um objeto de estudo que caracterizasse a geografia como ciência.


Presenciamos neste momento o surgimento de duas importantes vertentes do pensamento geográfico: a Geografia Pragmática e a Geografia Crítica.


A Geografia Pragmática surge como um questionamento da superfície da crise, não de seus fundamentos, não toca nos compromissos sociais, seu planejamento é apenas uma nova função, posta para as ciências humanas pelas classes dominantes; é um instrumento de dominação, a serviço do Estado Burguês. Ocorre a passagem do positivismo clássico para o neopositivismo, troca o empirismo da observação direta por um empirismo mais abstrato, dos dados filtrados pelas estatísticas. Uma via de sua objetivação é a Geografia Quantitativa, outra via vem da teoria dos sistemas - daí ser chamada de teoria sistêmica ou modelística. (Moraes, 1981)


O modelo apoia-se na ideia de que os fenômenos, na realidade, se manifestam como sistemas: relações de partes articuladas por fluxos. O modelo tentaria expressar a estrutura do sistema, em Geografia o “geossistema”, ou o “ecossistema”, os “sistemas de cidades”, ou a organização regional como “subsistema do sistema nacional”. Assim, existem tantos modelos quanto fossem necessários na análise geográfica.


A Geografia Pragmática possui um fim utilitário na medida que informa a ação do planejamento, gera um tipo de conhecimento diretamente operacionalizável, que permite a intervenção deliberada sobre a organização do espaço. Instrumentalização essa que fica a serviço do Estado ou das Multinacionais. O “tecnicismo” é uma versão moderna da ideologia da neutralidade cientifica. O planejamento sempre serve para a manutenção da realidade existente, atuando no sentido de neutralizar os conflitos e facilitar a ação do Estado. Nas sociedades capitalistas, auxilia o domínio da burguesia, orientando a alocação de capital no espaço, propondo reformas, atenuando contradições ambientais e gerando informações para a expansão das relações capitalistas de produção. (Moraes, 1981)


A vertente da Geografia Crítica advém de uma postura crítica radical frente à geografia existente seja a Tradicional ou a Pragmática. São os que pensam a análise geográfica como um instrumento de libertação do homem. Neste momento ocorre a inclusão do Materialismo Histórico Dialético no pensamento geográfico. Seus teóricos desmistificam a pseudo-“objetividade” desse processo, demonstrando como o discurso geográfico escamoteou as contradições sociais. Assim, os geógrafos críticos apontam a relação entre a Geografia e a superestrutura da dominação de classe na sociedade capitalista.


Yves Lacoste em seu livro “A Geografia serve, antes de mais nada, para fazer a Guerra”, denuncia os usos do saber geográfico posto como instrumento de dominação, e revela a existência de uma dupla função do saber geográfico: a “Geografia dos Estados Maiores” e a “Geografia dos Professores”. A primeira ligada à prática do poder em relação ao espaço, desde os conquistadores, também os Estados e mais recentemente as empresas monopolistas; a segunda cumpre em primeiro lugar a função de mascarar a existência da Geografia dos “Estados-Maiores”, apresentando o conhecimento geográfico como um saber inútil; assim mascarar o poder estratégico de saber pensar o espaço, e em segundo lugar fornece informações precisas sobre os variados lugares da terra sem gerar suspeitas. Lacoste afirma ser necessário saber pensar o espaço, para saber nele se organizar, para saber nele combater.


A Geografia Crítica assume um conteúdo político explícito, com autores como David Harvey e Milton Santos, vê-se que a renovação geográfica passa a ser pensada em termos de teoria e prática, como uma práxis revolucionária, não basta explicar o mundo, mas também é necessário transformá-lo. Milton Santos anuncia a necessidade de uma definição do objeto da geografia, buscando responder: O que é a geografia, ou melhor, como deve ser a análise do geógrafo? Milton argumenta que é necessário discutir o espaço como o objeto. É preciso perceber que o espaço social ou humano é histórico, obra do trabalho, morada do homem. O geógrafo deve compreender o espaço como um campo de forças, cuja energia é a dinâmica social.


Para Milton Santos toda atividade produtiva dos homens implica numa ação sobre a superfície terrestre, numa criação de novas formas, de tal modo que “produzir é produzir o espaço”. Tal processo define os usos do solo, a apropriação da natureza, as relações entre os lugares, enfim a organização do espaço. Seu traço geral é a desigualdade, pois a história do capital é seletiva, elege áreas, estabelece uma divisão territorial do trabalho, impõe uma hierarquização dos lugares, pela datação diferenciada de equipamentos. É tal processo que deve ser objeto de preocupação dos geógrafos, que o analisarão, em cada manifestação concreta, tendo em vista uma Geografia mais generosa e vendo o espaço como um lugar de luta. A unidade da Geografia Crítica manifesta-se na postura de oposição a uma realidade social e espacial contraditória e injusta fazendo-se do conhecimento geográfico uma arma de combate à situação existente. (Moraes, 1981), Neste período temos o Espaço como o objeto maior da geografia, e categorias como o território, e redes como fundamentais para a análise do geógrafo.


Na década de 70 surge também a Geografia Humanista que se fundamenta na filosofia do significado, especialmente a fenomenologia e o existencialismo, e é uma crítica às correntes de cunho lógico-positivista. Esta vertente está assentada na subjetividade, na intuição, nos sentimentos, na experiência, no simbolismo e na contingência, privilegiando o singular e não o universal. A categoria lugar passa a ser o conceito chave e o espaço passa ser observado como espaço-vivido. (Corrêa, 2000)


Como vimos, a Geografia moderna como ciência passou por diversas transformações conforme as diferentes demandas por uma explicação de mundo em cada período, e que estas explicações estiveram atreladas ao conjunto de pensamentos e conjunturas sociais e históricas vivenciadas pelos seus postuladores. À medida que as relações entre homem e natureza e homem e sociedade se complexificam se faz necessária uma análise atenta do geógrafo sobre estas interações e suas implicações no espaço. E é sobretudo, nos momentos de crises que o saber geográfico se transforma buscando dar conta da maior gama possível de interações presentes no espaço.


Referências:


CASTRO, Iná Elias de; Gomes, Paulo Cesar; Corrêa, Roberto Lobato. Geografia: Conceitos e temas. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

MORAES, Antonio Carlos Robert de. Geografia: Pequena História Crítica. São Paulo: Hucitec, 1981.

MOREIRA, Ruy. O Pensamento Geográfico Brasileiro, Vol. 1: As Matrizes Clássicas Originárias. São Paulo: Editora Contexto, 2008.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço. Técnica e Tempo. Razão e Emoção. São Paulo: Edusp, 2002.

SAQUET, Marcos Aurélio. Abordagens e concepções de território. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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