Procurando Entender o Cenário



A partir de hoje início uma série de reflexões sobre a conjuntura política brasileira. Para começar, é evidente que vivemos uma fantasma que assola o país, culminando na derrocada de conquistas sociais e democráticas obtidas nas últimas décadas. No entanto, a reação a este processo parece frágil, porque os movimentos sociais que promoveram ações, ao longo do processo histórico, parecem desarticulados, fragilizados e desmobilizados, muito em decorrência de terem acreditado que, com os governos do PT, poderiam abrir mão de disputar o estado.


Como lembra frei Beto, uma coisa é chegar ao poder, outra é ter o poder para decidir. A estratégia da conciliação, com o tempo, revelou suas fragilidades. O golpe parlamentar, que culminou na retirada de Dilma Rousseff, trouxe à baila a ausência de atuação do campo progressista, principalmente por não ter conseguido reagir ao retrocesso.


Em virtude da inércia, acumulada ao longo dos anos, não houve problematização sobre às alianças, pactos e a natureza do poder, que se concentrou por meio da aproximação das camadas progressistas com a elite retrógada brasileira. Sinto que falta maior reflexão ao período anterior ao golpe.


Portanto, hoje às forças da esquerda e da direita estão concentradas na disputa eleitoral. No caso da esquerda, isto coloca em relevo projetos de curto, e não de longo prazo. A segunda razão da paralisia atual advém da invisibilidade do Brasil profundo. Pobres, negros, indígenas e outros têm sido acolhidos pelos discursos das igrejas neopentecostais, por meio da teoria da prosperidade, e não pelas falas de emancipação.


É evidente que os grupos mencionados têm razões para se revoltarem, como, por exemplo, a instalação dos projetos hidroelétricos, mineiros, do agronegócio e dos megaeventos que os afetam diretamente. O governo que dizia defende-los, em determinado momento, foi negligente com tais minorias.


A terceira razão da perplexidade, é a frágil reação organizada dos setores progressistas frente as ações do império estadunidense. Não é preciso ser muito inteligente para saber que os EUA travaram ações populares na América Latina, para favorecer suas intenções geopolíticas. A ditadura militar no Brasil é um claro exemplo.


Hoje eles, Estados Unidos, se arrogam como defensores da democracia, mas esvaziam as democracias de conteúdo político/popular. O mencionado país é inimigo de estados que interveem na economia com políticas distributivas, porém apoiam democracias que dizem amém ao “deus mercado”.


A Intervenção dos Estados Unidos, hoje, na América Latina, segundo Boaventura de Souza Santos, possui três caminhos; intervenção na opinião pública, por meio de organizações que atuam nas redes sociais, como a rede Atlas que tem no Brasil, como braço político, o MBL, participante ativo da luta pela derrubada da presidenta Dilma. Hoje essa grupo pressiona pela privatização dos Correios, da Eletrobrás e Petrobrás.


Outro front é o financiamento de partidos que beneficiam os interesses, sobretudo, das corporações multinacionais industriais e do capital financeiro, via, inclusive, igrejas evangélicas. O terceiro ponto da ação dos EUA são as manobras judiciárias. Claro, há o traço elitista nesse seguimento, como a origem da maioria dos sujeitos que são juízes, promotores, etc. Além da política de formação que recebem. Mas é fato que hoje é hegemônica a ideia de independência do judiciário.


A defesa do princípio da liberdade, em prejuízo do de igualdade, e da propriedade privada absoluta, é colocada, por esses setores, como única ação legítima. Atrelado a isto, a preponderância do fato, a ligeireza e seletividade em determinados processos que colocam em cena as fragilidades democráticas de determinadas ações.


A democracia respira com aparelhos quando os contrapesos não funcionam. O acordo nacional que mencionou Romero Jucá, implica ditadura do pensamento, que prega combate a corrupção, mas, na prática, atua com seletividade para sua contenção.


Na semana que vem irei trazer discussões sobre os desafios das forças progressistas diante desse cenário.


Abraço a todos e a todas.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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