Que ninguém deixe o sonho de ninguém



Recentemente tive a oportunidade de ler o texto Doente de Brasil, autoria de Eliane Brum, colunista do El País, quando terminei a leitura fiquei parado na frente da tela do Notebook por um bocado de tempo, era como se o texto fosse um cobertor que me cobriu, mas em vez de esconder me fez entender os sentimentos que me acometem. Tive a certeza que estou doente, porém não estou só, porque Brum aponta para a quantidade de pessoas que também estão adoecendo. Eliane Brum chega à conclusão que a causa da patologia é o próprio país. As pessoas estão doentes de Brasil, estão doentes do contexto, da opressão, da falta de perspectiva, do horror que assola as relações sociais e tantas outras mazelas originárias de outros tempos e que atuam ativamente no contexto atual. Porém, o grande responsável pelo doente de Brasil, para a colunista, tem nome e sobrenome, Jair Bolsonaro.

Nos últimos dias, diante das inúmeras declarações preconceituosas, violentas e inadmissíveis de Bolsonaro, não é raro deparar-se com pessoas que se dizem surpresas com as falas do presidente. Vejo os posicionamentos com profunda preocupação, porque as falas soam desonestas intelectualmente, principalmente quando partem de agentes da grande mídia. A desfaçatez dos grandes meios de comunicação é algo que merece consideração, porque é inegável que a mídia conhecia os riscos que Bolsonaro representa para a democracia.


Quando ainda era parlamentar, durante quase trinta anos, o atual presidente sempre fez questão de demonstrar que o seu modelo político não é o dos valores democráticos, mas aquele que possa ser o mais autoritário possível. Quantas vezes que Bolsonaro comemorou o golpe parlamentar na frente do Congresso Nacional? No entanto, mesmo diante da certeza do perigo que a frágil democracia enfrentava com a eleição do autoritarismo, interlocutores do mercado e dos meios tradicionais de comunicação procuraram relativizar e decidiram abraçar a fera, acreditando ser possível domar o neofascismo.


Bolsonaro, assim como todos os seres humanos é dotado de racionalidade, porém é notório que abandonou o uso da razão há algumas décadas. A irracionalidade do presidente é representada por sua desumanidade. A impressão que tenho é que a condição humana, empatia, esteve no horizonte do presidente somente no momento que ainda era criança, depois desse estágio inicial de vida passou a atuar como indivíduo irracional, perdendo gradativamente sua condição humana.


Fico imaginando, quem são as pessoas responsáveis por desumanizar Bolsonaro? O que fizeram para introduzir tanto ódio em uma única pessoa? A responsabilidade é familiar, ou social? Que dia que o jovem Jair deitou na cama e deixou de pensar em construir relações e passou a alimentar o ódio dentro de si e destiná-lo a outras pessoas? Quem desumanizou Bolsonaro? E por quê?


Enfim, considerando impossível chegar à conclusão sobre os motivos concretos que levam alguém a construir tanto ódio, o que nos resta é trabalhar com hipóteses. Levando em consideração a hipótese de que o sentimento humano abandonou Bolsonaro quando ainda era, possivelmente, conhecido como menino Jair, é desonesto ou mesmo hipócrita dizer-se surpreso com as declarações do atual presidente. Surpresa, no sentido etimológico do termo relaciona-se com questão inesperada, com a sensação de ser surpreendido por algo inimaginável, mas quando se sabe da existência do fato não há surpresa, há meramente constatação e cumplicidade.


Aceitar o argumento de surpresa que permeia vários editoriais e falas de analistas políticos que pertencem a grande imprensa é aceitar a ignorância e o desconhecimento do passado, porque historicamente a atuação de Bolsonaro sempre foi essa, ganhou notoriedade em decorrência dos seus discursos de ódio contra as populações mais vulneráveis, pelas defesas enfáticas da Ditadura Militar, elogiando constantemente o torturador Brilhante Ustra, defendendo a redução da maioridade penal, fazendo alusão ao estupro, defensor atroz da morte dos negros pobres e tantas outras atrocidades que sempre contaram com a complacência dos mecanismos institucionais, assim como dos grandes meios de comunicação, tratando preconceito e violência como se fossem falas polêmicas. É necessário dar nome as coisas como elas são, Bolsonaro nunca foi polêmico, exceto no estágio inicial de sua vida, sempre foi violento e nunca fez questão de esconder a violência que carrega.


Hoje aqui estamos, tendo que lidar com o ódio que bate na porta, escancarado sem nenhum receio, orgulhoso de ocupar o poder e de contar com uma parcela da sociedade que aplaude irracionalmente a sua própria destruição, movidos, também, pelo combustível do ódio. Os vários fatores que fizeram com que o pequeno Jair, depois da infância, fosse alimentando pelo ódio não sabemos, mas o que fica nítido é que o ódio que carrega é enorme, cegando-o literalmente, desumanizando o indivíduo que um dia, indubitavelmente, já foi humano.


A desumanização é de tamanha proporção que o desejo de ver pessoas mortas é sem fim. No contexto da campanha eleitoral o principal símbolo que notabilizou Bolsonaro foi fazer o gesto do revólver. Parte do eleitorado quando foi interpelado sobre as contradições de defender alguém violento para acabar com a violência recorria ao gesto simbólico de Jair, fazendo o gesto da “arminha”.


Qual o sentido do revólver? O revólver é a representação máxima da morte, desde as primeiras pólvoras introduzidas sua função é essa, somente essa, matar pessoas. No Brasil, o revólver cumpre a risca sua função, interrompendo vidas, aniquilando sonhos, principalmente dos grupos mais vulneráveis como a população negra, jovem, da periferia, a vida das mulheres, dos camponeses, dos ambientalistas, dos representantes dos movimentos sociais, da população indígena, da comunidade LGBTQ e outros grupos que não recebem a atenção devida do estado.


Quando Bolsonaro se vale do símbolo do revólver, além de fazer o devido lobby para as empresas de armamento, o que deseja mesmo é que as pessoas pertencentes às minorias pereçam, satisfazendo o seu desejo desumano. Porém, não é somente o gesto do revolver que simboliza a ganância para ver as pessoas sem vida e sem sonho que acompanha Jair. Durante os poucos meses do seu governo quase todas as propostas são para retirar a vida e não para protegê-las.


O Brasil é um dos países do mundo que tem mais mortes cometidas pelos agentes de estado. Segundo levantamento do G1, em parceria com o Núcleo de Estudos da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança pública, somente no ano de 2018 foi registrada a morte de 6.160 pessoas por ações policiais. Pessoas não são números, estamos falando de gente que ri, mas que também engole choro, estamos falando de seres humanos que tinham inúmeros sonhos, desejos, frustrações, contradições, mas que tiveram suas vidas abruptamente interrompidas por agentes do estado. A maioria desses seres humanos “cometeram o terrível crime” de terem nascido negros e pobres.


No início do mês de junho, Bolsonaro entregou na Câmara dos Deputados proposta para flexibilizar as regras de trânsito. A proposta, como não poderia ser diferente, não tem o propósito de assegurar e proteger vidas, mas de retirá-las. Da proposta de alteração, aquela que mais chamou a atenção da sociedade, mesmo a de seus eleitores, foi a de retirar a multa dos motoristas que transportam crianças de até sete anos sem cadeirinha e substituí-la por advertência escrita.


O projeto de lei que altera parte da legislação de trânsito não tem nenhum suporte científico que poderia assegurar que as medidas deixarão o violento trânsito brasileiro mais seguro, pelo contrário, os dados demonstram que as medidas caso sejam aprovadas terão como único resultado o aumento no número de mortes. De acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), o uso da cadeirinha no transporte reduz em até 60% o risco de morte das crianças. O trânsito brasileiro é terrível, as cidades, mesmo as pequenas, não se preparam para o aumento exponencial de automóveis que passaram a ocupar todos os espaços imagináveis, modificando a rotina e vitimando cada vez mais vidas. Porém, em vez de criar políticas públicas para amenizar os impactos da violência no trânsito, Jair Bolsonaro propõe medidas para intensifica-las. Como é perceptível, nem mesmo as crianças estão livres de sua sanha incontrolável e desumana.


A desumanização de Bolsonaro fez com que odiasse a vida, principalmente se essas vidas forem negras, pobres, femininas, não cristãs e de orientação sexual que não seja heterossexual. Historicamente esses grupos são os que mais sofrem diante da ausência de políticas públicas do estado, e mesmo assim o presidente não se satisfaz com o sofrimento alheio, seu desejo, suas falas, gestos e políticas são para intensificar a negligência do estado. Mas porque tanto ódio, tanto rancor, tanta violência acumulada, tanto desejo de ver sangue escorrendo, por quê?


O ódio como característica cultural pode ser explicado pela falta de sonhos. Há muito tempo a expectativa de ver a felicidade no rosto das pessoas não pertence ao cotidiano de Jair Bolsonaro, a palavra empatia fora lhe retirada quando provavelmente era muito jovem. O indivíduo Jair deixou de sonhar porque o ódio suplantou seus sentimentos humanos, e como não consegue mais sonhar utiliza o estado para impedir que as pessoas sonhem, seu grande objetivo é destruir os sonhos.


Ao incentivar a destruição do meio ambiente, Bolsonaro deseja que a geração atual e as gerações vindouras não tenham minimante condições de viver em ambiente sustentável, ao autorizar a quantidade colossal de agrotóxicos deseja que as pessoas cresçam contaminadas pelas doenças, ao retirar investimento da educação deseja que os pobres não tenham direito de ter o lápis e a borracha como companhia, ao defender a homofobia faz de tudo para impedir o amor, ao negar a laicidade do estado autoriza a “morte” de inúmeros deuses, ao defender o trabalho infantil destrói o mundo das brincadeiras, ao criticar o cinema deseja destruir a cultura e o pensamento crítico, ao legitimar o genocídio da população indígena se assemelha aos colonizadores Hernán Cortéz e Pizarro. Bolsonaro não sonha, deseja, e o seu desejo é não ver ninguém sonhando.


Nessa semana, diante da notícia que o CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) não tem mais orçamento para honrar os compromissos das bolsas de pesquisa a partir de setembro, recebi muitas mensagens de estudantes movidos pelo sonho do mestrado e do doutorado que estão interrompendo seus sonhos porque não têm condições financeiras para suster as despesas caso consigam a aprovação. Uma ex-aluna me disse: “Professor, porque Bolsonaro não nos deixa sonhar?”. A pergunta foi tão comovente que o silêncio foi minha resposta. Passado algumas horas, e não conseguindo tirar a pergunta da cabeça, enviei uma mensagem para a egressa e disse que deveria sonhar como nunca.


Diante do destruidor de sonhos não há alternativa, a sociedade terá que se rebelar, começando pelo princípio elementar que é fazer da utopia um valor fundamental, acreditar no valor simbólico de dar as mãos e caminhar juntos, acreditar que é possível construir uma sociedade mais humana mesmo tendo o desumano como representante maior, sonhar que é possível vencer a força dos canhões, sonhar que o amor vencerá, sonhar com a casa própria, com os livros, com o mestrado e doutorado, sonhar com o meio ambiente preservado, com o tomate sem veneno, sonhar com a velhice e com a aposentadoria, sonhar com o emprego digno, sonhar com o domingo, sonhar com as políticas públicas voltadas para a preservação da vida, sonhar com os deuses e pelos deuses.


O que nos resta é sonhar, somente sonhando haverá a possibilidade de derrotar a morte, de vencer as políticas destrutivas e derrotar o destruidor de sonhos, quando sonhamos e o sonho é bom não aceitamos que alguém venha e nos acorde, levantamos indignado com quem nos acordou. Sonhar é resistir, o sonho é o princípio fundamental da vida humana. O caminho para a desumanização e para o cultivo do ódio começa quando deixamos de sonhar, quando a empatia é substituída pelo individualismo. Que os sonhos possam ser construídos coletivamente, que ninguém deixe o sonho de ninguém.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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