"Rejeitados"


De repente, ouve-se ao longe um barulho estranho. Algo se mexe, se move, vem descendo, correndo, não se sabe se traz notícia boa ou ruim. Parece tempestade, mas concentrado desse modo não é chuva de relâmpago, de trovoada, daquelas que risca o céu, retorce as árvores, fazem as folhas cantar o canto do desespero, as crianças correrem para os braços da mãe. Sr. João matuta e diz: é coisa de homem, não é coisa de Deus isso não!!!


Logo se chega a notícia, o rio rejeitado decidiu seguir seu curso, o cercamento da vida se rompeu. Sr. João sai em disparada, resta-lhe as pernas, não tem carro, avião, helicóptero que lhe possa salvar nessa situação. Na corrida, pensa na D. Maria, a senhora que mora ao lado de sua casa, na cachorra Bela, no gato Frederico, na vaca Mascarada, no compadre Zé Inocêncio. Torce para que a notícia tenha se aligeirado, de modo que esses entes vivos possam escapar.


No final da ladeira, Sr. João, com o fôlego já encurtado, atropelado pelos anos, pela lida custosa da vida no campo, pensa na comunidade de nascimento. Todo mundo ali se conhece, todo mundo é parente, todo mundo se ajuda, mas agora num tem jeito, num tem prazo. A rapidez daquilo é maior do que a vontade que lhe atravessa o peito de salvar o gado, os animais de criação, de estimação, as crianças, os anciãos, a comunidade...


Sr. João senta-se no alto da ladeira, dá uma, duas, três, quatro puxadas no ar pra vê se melhora um pouco o sufocamento. Observa a poeira vindo lá, uma massa grossa, vermelha, barrenta, lamacenta. Correndo em disparada, a água rejeitada carrega consigo os rejeitados do mundo, as árvores que atrapalham o progresso, os animais de pouca raça, os velhos, a agricultura de pobre, os sujeitos de mãos calejadas.


Sr. João matuta desolado, na água rejeitada não está descendo o Estado, essa coisa que não é gente registrada em cartório. Como diz os sujeitos letrados, não é pessoa física, mas foi inventada por gente pra mandar em outras gentes. Sr. João mistura a coçação na cabeça e os olhos marejados, pensa na dificuldade de furar um pocinho de criação de peixe, de aproveitar a lenha e a madeira da reserva de mata que deixou no seu sítio. Por outro lado, como pode essa tal mineradora ser dona do rio, da água, dos minérios, da vida de toda essa gente que desce pelo rio?


Logo chega à conclusão: os rejeitados do mundo são pouca coisa que valha para serem considerados. Hoje, os rejeitados estarão nas capas dos jornais, nessa tal de internet. Os mandantes do Estado aqui vão encostar, fazer paragem, dizer palavras bonitas. Os donos do rio, da água, do minério vão dizer que lamenta o acontecido. Ao fim e ao cabo, Sr. João sabe que para o seu povo é preciso morrer para talvez ser visto. O correr dos dias desnuvia a comoção, o povo esquece logo.


Os que ficam, vão ter de carregar novos gemidos de dor. Para gente mal vista, não vista perder o pouco que se tem significa morrer um pouco a cada dia, aligeirar a existência bastarda e fudida. Agora, o Sr. João está sem as vacas, sem a cachorra que o recebia com presteza, sem a casa de morada, sem o cavalo da lida, sem a D. Maria e o compadre Zé Inocêncio, sem a comunidade. Sobrou dor, saudade, tristeza, revolta, raiva, desesperança. Roubaram-lhe tudo, menos os braços, as pernas, as mãos, a cabeça. Nessa condição, resta-lhe juntar os cacos, colar mais ou menos o pouco que sobrou e levantar-se de novo.


O Sr. João descobre que é preciso lutar contra os roubadores de sonhos. Esses sujeitos da morte que andam por aí, cercando rios, lameando as águas, derrubando árvores, pilhando minérios, produzindo rejeitados: o rio, as árvores, as matas, os animais, o proletário, o negro, a mulher, o camponês. O Sr. João não entende; é para isso que se vive? Para acumular objetos, vaidade, arrogância, poder, dor, sofrimento, exploração, miséria, opulência? Como não há respostas para todas perguntas, o Sr. João ainda está tentando entender o sentido da vida para os roubadores de sonhos. No fundo, ele sabe que são um mal para o mundo, seria muito bom se eles não existissem.



*Publicado originalmente no Caderno Territorial, vol. 9, n.11, 28 jan. 2019.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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