Resistimos, mas agora é o momento da utopia


O ano de 2019 finalmente chegou ao fim. Se fossemos fazer uma retrospectiva, indubitavelmente essa retrospectiva estaria representada pelo sentimento da derrota. Foi um ano extremamente difícil para o campo progressista. A constatação não deve surpreender principalmente se levada em consideração à ascensão da extrema direita no Brasil e em várias partes do mundo. O mais preocupante, de tudo isso, é o fato de a extrema direita ter conseguido pautar o assunto e os acontecimentos do dia, restando aos grupos minoritários, aos movimentos sociais, a intelectualidade e outros seguimentos afetados pela política de destruição lutar pela utopia da manutenção. Foi o que fizemos, lutamos para perder menos.


Por exemplo, teve luta para a manutenção do investimento do estado em áreas fundamentais para um país tão desigual como é o Brasil. Teve luta para manter as conquistas da classe trabalhadora. A luta não foi menos árdua para defender o direito de a população envelhecer com o mínimo de dignidade. Do mesmo modo houve resistência aos ataques contra a educação pública. Não faltou denúncia aos constantes discursos do governo federal autorizando a destruição do meio ambiente. Os exemplos, assim como inúmeros outros, demonstram a capacidade de resiliência de parte da população brasileira, porém, evidenciam que somente a resistência não foi suficiente para amenizar a barbárie.


Quando Bolsonaro venceu as eleições o campo progressista começou a construir o discurso do “ninguém solta a mão de ninguém”. Depois de um ano é possível perceber que o discurso teve efeito na prática, porque as redes de solidariedade aumentaram consideravelmente, trazendo um mínimo de solidariedade e de esperança para quem está desesperadamente desesperançado. Os coletivos se tornaram frequentes, os movimentos sociais voltaram-se com mais atenção para as bases sociais, os sindicatos começaram a ser exigidos para se manifestarem e defenderem, de fato, as categorias que representam. Quem não tem sindicato percebeu a importância de tê-lo. A urgência de romper os muros em direção às camadas sociais, ou fazer com que as camadas sociais se apropriem do espaço tornou-se uma discussão frequente dentro das universidades. Enfim, se houve algo significativo no Brasil de 2019 foi o entendimento de que seria necessário deixar a letargia para sobreviver.


Algumas igrejas e lideranças religiosas continuam sofrendo com a dor dos pobres e dos oprimidos. Diante disso, têm buscado produzir um discurso totalmente oposto daquele produzido e reproduzido pela grande maioria dos segmentos neopentecostais e por uma parcela considerável de católicos que negligenciam o fato de Jesus ter sido torturado e morto em virtude do caminho trilhado ao lado dos pobres, das minorias, quando sofreu perseguição pelas denúncias que fez à miséria de seu contexto, se posicionou contra a ganância dos ricos e a insensatez dos poderosos, principalmente do estado. Não há dúvida, Jesus foi subversivo e revolucionário, porém a maioria do cristianismo, no Brasil, insiste na representação de Jesus como defensor dos ricos e perseguidor implacável dos miseráveis.


Perante as atrocidades que nos assola é provável que muitos já disseram, pelo menos uma vez nesse ano, a seguinte frase: “Nós vamos resistir”. Não é verdade? Existe resistência para manter as conquistas, ou caso venha a perdê-las, como tem acontecido nos últimos anos, para denunciar a perda de direitos. A resistência se faz necessária para manter-se vivo, resiste-se na esperança de que os tempos sombrios passem. Há resistência porque é necessário resistir, simples assim. Não resistir, nesse contexto, não é somente covardia, ou mesmo ignorância, mas cumplicidade com a violência institucional.


Mesmo tendo presenciado ou participado de vários atos de resistência terminamos o ano com o sentimento de derrota, infelizmente. É doloroso reconhecer, mas a depressão coletiva tornou-se realidade. O fato de estarmos adoecendo, e o sintoma é cada vez mais nítido, estamos doentes de Brasil, evidencia que somente a resistência não foi suficiente para derrotar o embrutecimento social. Teremos que construir alternativas não mais para sobreviver, mas para viver. Nesse sentido, minha proposta é a seguinte; não abondemos a utopia da manutenção, porém vamos nos mover por meio da utopia da transformação.


Nossa utopia não será mais para a construção de um país menos desigual, não aceitaremos desigualdade nesse país. Lutaremos para que o estado democrático de direito não esteja presente somente no cotidiano da classe média e da elite, mas em todos os lugares, quando o estado possa respeitar todos e todas como cidadãos e cidadãs. A utopia deverá reinar não somente para a preservação ambiental, mas para a recuperação de tudo que já foi destruído. Não lutaremos para a ampliação da reforma agrária, mas para que todos que sonham com a terra possam tê-la.


A utopia, parafraseando Eduardo Galeano, é que nos fará caminhar. Caminharemos para que as ruas sejam espaços de lazer e diversão, mas não aceitaremos que sirvam de abrigo porque não vamos admitir que nenhum ser humano venha a sobreviver sem casa nesse país. Não lutaremos para a redução do trabalho infantil, tendo em vista que não admitiremos nunca mais trabalho infantil, tampouco descansaremos enquanto não erradicarmos o trabalho análogo à escravidão. A nossa luta não será para ampliar a quantidade de refeições, mas que não faltem refeições na mesa. Denunciaremos todo o tipo de opressão e de preconceito, não descansaremos enquanto houver alguém sofrendo violência pelo seu credo, não credo, orientação sexual, pela sua cor, enfim, não descansaremos enquanto todas e todos não tiverem seus direitos assegurados.


Não seremos mais pautados pela extrema direita, vamos assumir a pauta, e a nossa pauta é a da transformação. Chega de migalhas, chega de atenuar as perdas, não queremos mais perder. Vida digna para todas e todos, sem exceção. Resistir é preciso, indubitavelmente, mas não podemos nos contentar somente com a resistência, lutaremos para conseguir tudo que é nosso de direito. No ano de 2020 nos moveremos por meio da utopia.


Que ninguém deixe o sonho de ninguém.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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