Tome Sorvete


Diferentemente do final de 2017, o término de 2018 apresenta perspectivas animadoras para o ano vindouro, inclusive, ou melhor, principalmente pensando ações para o campo progressista. A primeira impressão que se tem é que 2019 será o ano da terra arrasada, levando-se em consideração a ascensão da extrema direita ao principal espaço político/público do país, e também pelo domínio da violência institucional/social ocupando o campo simbólico.


É bastante provável que ocorra, com mais intensidade do que em outros tempos, a prática daquilo que Hannah Arendt interpreta como banalidade do mal. No entanto, como defende o jornalista Juca Kfouri, desesperar jamais. É justamente sobre esse ponto que o campo progressista poderá atuar, ou seja, não se desesperar diante do caos anunciado, sendo possivelmente implantado a partir da primeira semana de janeiro de 2019. Sem desespero haverá condições de criar estratégias para sensibilizar às pessoas que apostaram no discurso violento para, supostamente, dirimir os problemas sociais.


Resistir é uma necessidade premente, pensando na sobrevivência, mas além de sobreviver é necessário construir um país onde pessoas possam viver com dignidade. Ter uma vida digna é ter direito à alimentação saudável, moradia reunindo todas as condições, emprego humano, remuneração justa, acesso a saúde e educação, no sentido mais amplo do termo, respeito as garantias individuais e coletivas, assim como inúmeras outras possibilidades. O campo progressista terá que criar condições para sensibilizar uma camada ampla de sujeitos que anda desacreditada de “tudo que está aí”.


Em tempos sombrios, de não incômodo com discursos e práticas violentas, sensibilizar será, talvez, o grande desafio de 2019, porque parte da população não está disposta a amar, mas, infelizmente, traz consigo um ódio enraizado por uma série de motivos, quando pode ser evidenciado pela quantidade de atores sociais odiando.


A parte mais significativa da elite dominante odeia porque não aceita as mínimas conquistas e, consequentemente, ascensão social das camadas mais vulneráveis. A classe média, como apresenta Jessé Souza nos seus mais recentes livros, reproduz o discurso da elite dominante, pensando pertencer ao mesmo grupo social, porém distante do pertencimento. E por último, mas não menos importante, há as camadas mais vulneráveis, que foram diretamente assistidas pelo estado de, mínimo, bem estar social, mas que viram suas conquistas serem despedaças pela crise econômica, quando, diga-se de passagem, a crise não é uma invenção dos últimos três anos.


Então, os grupos mais vulneráveis são os únicos capazes de serem sensibilizados por um discurso, factível, de construção de uma vida digna, coletiva, e humanitária. Diferentemente da elite, que reproduz sua violência física, simbólica e cultural por mais de cinco séculos, e que se vangloria da opressão e de sua opressão. Já a classe média, salvo algumas exceções, idealiza o sonho de ser opressora. Esses últimos, pelo histórico demonstrado, são praticamente inatingíveis pelo discurso sensibilizador.


Diante do contexto de opressão, repressão que se avizinha, os passos devem ser dados de forma calculada, planejada, tendo objetivos específicos. É sobre esse planejamento racional, sem deixar de lado a emoção, porque somente razão não sensibiliza, que o campo progressista poderá avançar. A esperança está justamente no fator de tentar algo, até então, que esteve longe do horizonte de observação daqueles que acreditam que a construção de uma sociedade com vida digna para todos/as seja possível.


No ano de 2018 a estratégia utilizada foi a mesma de anos precedentes, quando tentou se sensibilizar por meio de um passado recente, no qual, de fato, a vida era melhor, mas a estratégia não surtiu efeito, pelo contrário, o ódio à esquerda, sem adentrar no campo teórico dessa complexa discussão, se intensificou. Nesse sentido, sem desmerecer o passado recente, no entanto, será necessário construir um projeto de país que faça as pessoas, hoje desiludidas e que por isso odeiam, acreditarem que somente avançaremos quando todos, indistintamente, avançarem.


O termo avanço, aqui apresentado, não está relacionado com a ideia de evolução, pelo contrário, porque como afirma Rousseau, a sociedade avança e retrocede ao mesmo tempo. A construção de uma vida digna, no mínimo nos próximos quatro anos, passará ao largo do projeto político federal, porque se depender de quem ocupará esse cargo, não teremos dignidade, mas um estado de todos contra nós mesmos. A solução dos problemas sociais somente serão resolvidos pela coletividade, qualquer alternativa que se distancia dessa premissa, não passa de discursos rasos, violentos, e simplórios.


Para concretizar o ideal da sensibilidade, será fundamental aprender com os erros recentes, fazendo uma consciente autocrítica, criando condições para a utopia coletiva. É possível que na autocrítica se encontre o principal equívoco do campo progressista ao longo da última década, a saber, o diálogo entre os pares, quando possibilitou um efeito menor, principalmente pela ausência de discordâncias.


Trazer novos atores para o diálogo comunitário parece ser um objetivo distante nesse momento, mas, observando-se o horizonte de expectativa, não será tão difícil em um futuro próximo. Quando os que mesclam desilusão, esperança, medo e ódio, perceberem que o discurso da violência gera uma prática da violência que os atinge diretamente, será necessário que à esquerda apresente projetos de vida que sejam utópicos, ou seja, que façam as pessoas sonharem, mas também que seja factível com as diferentes realidades socioculturais do país.


Diante do caos é difícil encontrar alternativas, e principalmente ser otimista, porém não há outro caminho, porque o que o fascismo institucional deseja é que o desespero se alastre, que as alternativas se esfacelem e que o sonho tenha o mesmo destino. Porém, manter a serenidade, sorrir, escrever, conversar, tomar sorvete, e outras coisas que serão, de agora em diante, essenciais, primeiro para resistir, depois para construir sonhos, coletivamente? Sim, é possível.


Não se esqueça, sempre que for possível, tome sorvete.

As sutilezas sempre escaparam, e não será dessa vez.

Escaparão, também, os seres sutis.

Eu sei, não é fácil ser sutil diante do contexto bruto.

Mas, embrutecer é o que eles querem.

Eles querem nos embrutecer.

Diante do bruto, ofereça flores, os bravos odeiam flores.

Além de antídoto, as flores, e os sorvetes, é claro, nos manterão serenos.

Manter-se calmo é um tormento para quem deseja o caos.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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