Um governo honesto




É inegável que o atual governo foi eleito democraticamente, constatando nas urnas o real desejo da maioria da população brasileira e seus anseios (corretos ou não). Fato é que, os constantes escândalos e a incessante perseguição midiática, política e jurídica ao partido dos trabalhadores estigmatizaram toda a esquerda brasileira sob a imagem de corruptos, e aos que acreditaram no discurso da corrupção unipartidária, a solução era simples: Uma retomada a direita. O discurso de honestidade foi vinculado à estrema direita como a salvadora da pátria, discurso este que se enraizou através das instituições midiáticas, militares e religiosas e que facilmente foi comprado por uma população que pouco conhece ou pratica a democracia, a civilidade e a honestidade.

Para os seguidores do novo presidente, que foi eleito como o “candidato honesto”, esta alcunha se sobrepunha a qualquer outro desvio de caráter, ou a qualquer outra incompetência denunciada por seus opositores. Frases como: “O chamam de machista, homofóbico por que não podem chamá-lo de corrupto” se tornaram chavões durante a eleição. A crença cega na sua honestidade o alavancou ao status de “mito” para seus fiéis defensores. Irônico, porque “mitos” são seres imaginários e fantasiosos. Talvez, isso sim seja a real essência da honestidade de Bolsonaro, algo utópico que só existe no imaginário daqueles que o seguem.


Há sim uma honestidade nas ações de Bolsonaro, entretanto ela não está no campo da sua atuação na vida pública, mas sim na sua forma direta e sem tato ou meios termos de manifestar seus preconceitos e sua truculência, a ponto de prometer metralhar seus opositores em cima de palanques de campanha, ou exaltar um torturador como Ustra em uma votação, e entre outras barbaridades. Está em expor publicamente sem medo preconceitos e ignorâncias que fazem parte do íntimo de grande parte da população deste país. Está também em fazer alianças descaradamente com poderosas corporações internacionais (Indústria militar e indústria dos Agrotóxicos) e latifundiários. Se podemos atribuir alguma honestidade a pessoa de Bolsonaro é a de que ele é honestamente um representante da elite brasileira e não faz a menor questão de mascarar isso.

Seu discurso de acabar com a “mamata” sempre se referiu aos pobres e as minorias, ao bolsa família, as políticas de reparação histórica, ou aos direitos duramente conquistados pelas mulheres. Em momento algum cogitou cortes nos salários de senadores e deputados, ou cortes de privilégios como auxílio moradia, auxilio paletó, auxilio gabinete e tantos outros de seus deputados ou ministros, nem propôs taxação de imposto sobre grandes heranças ou igrejas, não há projeto de reforma agrária ou de moradia para sem tetos.

Na prática, o que podemos constatar é que a “mamata” dos poderosos continua e tende a ser mais gorda nos próximos anos, porém agora nas mãos dos seus “homens de confiança” como o senhor Antônio Rossell Mourão, filho do vice-presidente General Mourão, que poucos dias após a posse de seu pai recebeu uma generosa promoção no Banco do Brasil cujo salário gira em torno de 37 mil reais, ou das constantes indicações de amigos e familiares para importantes pastas do governo. Como é o caso da amiga particular de Michelle Bolsonaro: Priscila Gaspar indicada a Secretaria Nacional da Pessoa com deficiência. Ou do amigo pessoal de Bolsonaro: Carlos Victor Guerra Nagem indicado ao cargo de uma das gerências da Petrobrás sem ter qualificação para a função.

A sua famosa frase “bandido bom é bandido morto” entrou em desuso diante das acusações de lavagem de dinheiro realizadas pelo motorista de seu filho Flávio Bolsonaro. Segundo investigações Queiroz realizava movimentações financeiras suspeitas no valor de 1,2 milhões de reais, todavia não houve nenhuma movimentação efetiva por parte dos órgãos investigativos para entender realmente como surgira este valor que não condiz com a função do referido.

Outra inusitada nomeação foi a de seu Ministro da Justiça: Sergio Moro, que ganhou notoriedade nacional por ser o principal nome na acusação e prisão de seu principal opositor político - Lula. Situação que causou estranheza até mesmo nos grandes jornais internacionais como o “Financial Times” do Reino Unido, “The Times” e “Le Mond”, todos destacando as ambiguidades da conduta do julgamento e a relação estreita entre o juiz e a direita brasileira.


Escorado em frases de efeito, Bolsonaro manifesta também uma desonestidade intelectual ao conduzir seus discursos contra inimigos imaginários como a “Ameaça do Comunismo” nas escolas, Lei Rouanet que compra a opinião de artistas, ou a tal da “Ideologia de Gênero” que segundo ele ameaça as famílias brasileiras, tais falas promovem o ódio entre seus seguidores, que vociferam agressividade contra todos os que se opõem as opiniões de seu “mito”, desacreditando os como pertencentes a uma ou outra destas ameaças invisíveis.

São poucos dias de governo, mas os indícios de que a tal “Luta contra a corrupção” não passava realmente de um mito já são muitos. Os privilégios para os poderosos continuam e continuarão. Já o arrocho, esse os pobres sentirão a cada execução do modelo de governo neoliberal de seu guru Paulo Guedes. Bem como sofrerá cada minoria que desde a campanha já tiveram seus poucos direitos ameaçados.

A cada novo acontecimento suspeito os discursos de honestidade, vazios de conteúdo e prática, são aos poucos desmascarados, ao ponto de até seus seguidores mais fervorosos se silenciarem e se envergonharem diante de suas contradições. Não é de hoje que políticos de caráter duvidoso assumem o poder utilizando a luta contra a corrupção como plataforma política, muito me lembra um antigo presidente que chegou ao poder com o discurso de “caçador de marajás” quem não tiver memória curta também irá lembrar, para quem não conhece a própria história ela tende a se repetir.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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