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MOVIMENTOS SOCIAIS E EDUCAÇÃO

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Certamente o leitor está imaginando algumas possibilidades de abordagens sobre o tema a que este texto se dedicará. Pelo título, a priori, é possível supor e/ou mesmo constatar que o texto irá desembocar numa interpretação dos movimentos sociais no bojo da educação formal, ou mesmo no conjunto das relações ensino-aprendizagem institucionalizadas. Outra questão que poderia facilmente ser pontuada a respeito das pretensões do texto é a de que educação se está pensando ou, em que sentido os movimentos sociais poderiam contribuir no aspecto educacional? Indubitavelmente são questões propositivas-hipotéticas que são compreensíveis, especialmente àqueles que não possuem, ou possuem muito pouco, uma leitura e interpretação profunda sobre a temática dos movimentos sociais e da educação.

 

 

Outro elemento que importa considerar e diz respeito a uma lacuna existente na sociedade em geral, se restringe ao fato da desinformação sobre o que é e o que são os movimentos sociais, quais seus objetivos, demandas, projetos, etc. Em grande parte, as incompreensões sobre a atuação dos movimentos sociais na prática social obnubilam e escamoteiam o sentido, as orientações e os caminhos a que tais movimentos se circunscrevem. E é claro que a grande mídia tem e possui influência considerável nesse sentido, ou seja, na marginalização dos movimentos sociais, proveniente de disseminação dúbia e torpes das reais intenções dos agentes e ou entidades de apoio que compõem tais mobilizações.

 

Para compreender qual o sentido de educação a que os movimentos sociais promovem, é preciso refletir, em primeiro lugar, a respeito de movimentos sociais. Isto é, entender como se determinou o conceito e suas especificidades. De todo modo, os movimentos sociais como prática social, ou seja, como ações de sujeitos sociais, quer sejam coletivas e/ou individuais, sempre existiram historicamente. Significa dizer que, do ponto de vista histórico, os movimentos sociais são parte de uma construção social que envolveu (e envolve) conflitos, desigualdades, sectarismos, etc. Desde a Roma Antiga até os dias presentes, os movimentos sociais se definem a partir da ação cotidiana de grupos e sujeitos historicamente marginalizados, tais como, camponeses, indígenas, negros, mulheres, homossexuais, entre outros. De outro lado, a teorização dos movimentos sociais como prática social, iniciou-se a partir do século XIX, no contexto do movimento operário europeu, especialmente na Inglaterra. De lá para cá é que se pensou nos movimentos sociais como possibilidade de transformação social almejável.

 

Outra dimensão que se pode reproduzir sobre os movimentos sociais, além da perspectiva de prática social e teórica-conceitual, é a da análise sobre como os movimentos sociais foram (e continuam sendo) tratados dentro da historiografia. De fato, grande parte dos movimentos sociais historicamente consolidados não tiveram (ou não receberam) a alcunha de “movimentos sociais”. A título de exemplo podemos mencionar, para não estendermos demais a reflexão, os movimentos sociais do período regencial da história brasileira. Estudamos que durante a Regência (1831-1840) algumas revoltas e revoluções trouxeram para o âmbito da vida política e social do Brasil “conturbações” variadas. Desde a Cabanagem (Pará), Sabinada (Bahia), Balaiada (Maranhão); até a Rusga (Mato Grosso), Malês (Bahia), Farroupilha (Rio Grande do Sul), que tais movimentos sociais são abordados como “revoltas”, “rebeliões”, e até mesmo revoluções, no sentido pejorativo. Isso demonstra o claro objetivo de denegrir e desmerecer a importância de tais movimentos diante a história nacional. Trata-se destes e de outros movimentos sociais de nossa história como ações de sujeitos perturbadores da ordem, intransigentes da lei e da estrutura autoritária vigente. O que esquecem é que tais movimentos sociais buscavam a melhoria nas condições de vida e uma sociedade republicana e democrática. Evidentemente que na construção da historiografia imperam interesses de grupos específicos, cuja intenção visa acentuar suas qualidades e ideologias, em detrimento da marginalização de grupos minoritários historicamente subalternizados.

 

A constatação de que os movimentos sociais nem sempre foram reconhecidos como tal dentro e ao longo da História nos municia quanto à crítica que deve ser considerada em relação à construção das identidades nacionais. É preciso constantemente nos posicionarmos quanto ao segmento social a que pertencemos e, não obstante, lutar pela equidade e igualdade sociais. Em outros termos, considerar a luta e a mobilização de homens e mulheres marginalizados historicamente é reconhecer que vivemos em uma sociedade desigual e sectarista. No que se refere ao aspecto da educação, está pode ser de diferentes formas. É comum designarmos para o processo de construção da educação elementos apenas inseridos no campo da formalidade, da institucionalidade e do Estado. Educação é um processo que envolve sujeitos sociais de diferentes classes, grupos e segmentos sociais. Ela não está apenas instituída no aparato escolar-burocrático-institucional-estatal. Ao contrário, a educação se constrói cotidianamente em múltiplos espaços e saberes. A educação é um processo de troca, permuta, escambo, em que eu dou e recebo, recebo e dou (Paulo Freire).

 

O aspecto educacional dos movimentos sociais que apresentamos neste texto não é (e neste ponto estamos ratificando o que afirmamos no início) mais um tema transversal presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Defendemos que os movimentos sociais educam no sentido da educação cidadã, da luta por direitos, da mobilização política e prática social. Sim, podemos aprender e apreender com os movimentos sociais. São eles que nos mostram o que está de errado em nossa sociedade, pois revelam as fraturas, as brechas, os interstícios do problema social que se vivencia. Os movimentos sociais educam porque questionam o sistema e o pressiona para mudança, transformação, alteração daquele estado de coisas. Os movimentos sociais nos ensinam que a liberdade, a igualdade, a dignidade, o respeito e a tolerância são bases essenciais para o exercício da convivência humana. Independentemente do caráter da mobilização, quer seja de classes, étnico, gênero, racial, o aprendizado se define como luta pela cidadania e preservação dos direitos básicos da vida humana.

 

Uma das grandes pensadoras que trabalha a perspectiva dos movimentos sociais como premissa de uma educação cidadã é a socióloga e professora Maria da Glória Gohn. Em grande parte de seus textos a professora não deixa escapar o sentido da educação que se pode absorver acerca da ação pragmática e legítima dos movimentos sociais. De acordo com Gohn, os movimentos sociais educam, pois contestam o Estado e seus aparelhos repressivos e ideológicos. Mesmo aqueles movimentos sociais que se institucionalizam ou se tornam ONGs, deixam o ensinamento da obstinação em face de um dessaranjo social, a um desequilíbrio da estrutura estatal. Quando o Estado não cumpre com suas obrigações, entram em cena os movimentos sociais para reivindicar, pressionar, exigir, influenciar e transformar. Se hoje temos uma sociedade que preserva alguns direitos sociais, políticos e civis, o que está ainda muito longe do ideal, é claro, é porque houve (e há) movimentos sociais, porque houve (e há) quem lutasse, é porque houve (e há) quem morresse por uma sociedade melhor.

 

É nesse sentido que os movimentos sociais educam, pois educam a partir de como nossa sociedade se organiza, se estrutura, se determina. A educação formal é imprescindível para a construção do sujeito. Porém, ao valorizarmos excessivamente a educação formal esquecemos que existem outros modos e meios de se apreender, de ter consciência de que o conhecimento e o saber circulam por diferentes espaços, como bem defende meu amigo Lucas Pires. Nesse sentido, os movimentos sociais são uma aula de cidadania, de construção do sujeito social, da luta e reivindicação de direitos e igualdade social. Por essas e outras razões entendemos que os movimentos sociais promovem a educação social e política necessária a todos nós, e que, em muitos casos, não adquirimos sentados anos e anos no banco de uma escola e/ou universidade. 

   

Boa semana para todos nós!

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

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