Conservadorismo e (é) Violência

Atualmente a sociedade brasileira se depara com grandes dilemas como as crises no sistema político, econômico e assim sucessivamente. Entretanto nessa seara, um em especial se apresenta com mais intensidade que os outros, a saber, o problema da violência. As pessoas no seu cotidiano se encontram em um estado de alerta constante com relação a antítese da harmonia social. Em virtude desse estado de alerta fazem de tudo quanto é possível para terem a sensação de proteção.


Por exemplo, cresce de maneira vertiginosa o número de indivíduos que procuram se proteger em condomínios fechados, enclausurados em um clã, na maioria das vezes segregacionistas. Por se tornar habitual, já não impressiona mais a quantidade de casas adornadas por alarme, câmeras, cerca elétrica e outros itens. As empresas que prometem segurança se aproveitam dessa sensação de insegurança para lucrarem de forma considerável. A profissão de segurança particular se encontra em prestígio, os policiais militares são tidos como semideuses, delegados e juízes são colocados em um panteão de pureza social por parte da sociedade e da grande mídia. Em suma, todo esse conjunto de fatores faz com que a bancada da bala seja uma das mais expressivas numericamente falando no congresso nacional. E a tendência é que se aumente.


O sistema penitenciário sem a mínima infraestrutura e sem condições ideológicas e práticas de respeitabilidade ao ser humano, se encontra extremamente lotado, ou melhor, superlotado e a sensação que as pessoas tem é que o encarceramento em massa não está resolvendo os problemas, acreditando que a melhor alternativa está na construção de mais e mais presídios. Os programas de sensacionalismo em torno da violência aparecem com índices de audiência impressionantes, tendo como público consumidor, desde crianças a pessoas mais experientes. Em tese essas são algumas das mais significativas políticas adotas pela sociedade e pelo estado brasileiro para lidar com a violência prática, como furtos, assassinatos, sequestros e outros.


Essas medidas mencionadas acima, exceto as de cunho tecnológico, não são novas, fazendo parte de uma historicidade dos modus operandi do estado de lidar com a temática em pauta. Em síntese, essa forma de estabelecer relações se dá pela vigília constante, encarceramento, repressão e pelo confronto direto. Como as medidas historicamente adotadas não propiciam o efeito desejado pelo conjunto social, algumas alternativas são apresentadas como soluções para o problema. Entre essas, redução da maioridade penal, aumento dos anos do indivíduo na prisão e, o denominado armamento da população aparecem com maior aceitação perante os sujeitos do cotidiano.


Interessante perceber que as alternativas apresentadas, em tese de cunho conservador, estão diretamente relacionados a ideia da prática da violência para se combater a violência. O Brasil sem nenhuma reflexão crítica apostou na violência como alternativa de solução e os resultados são catastróficos. Porém, mesmo com as evidências irreversíveis dos “equívocos” intencionalmente adotados pelo estado, a ideia do armamento social entre as alternativas acima apresentadas, ganha cada vez mais adeptos(as).


Mencionamos anteriormente, a quantidade expressiva de representantes da bancada da bala que possuem sempre os mesmos discursos, e, mesmo assim, são compreendidos por uma parcela social como “salvadores(as) nacionais”. O conceito de nacionalismo já é um equívoco e, o de salvador transparece como mais infeliz ainda. Nesse sentido, me recordo do dramaturgo alemão, Bertolt Brecht (1898-1956) quando afirma que: “Infeliz a nação que precisa de heróis”. No momento atual, inúmeras pessoas parecem não somente acreditar em heróis e heroínas como, anseiam por esses.


Estaremos agindo de forma equivocada se não fizermos uma relação entre o conservadorismo, a moda brasileira, e a perspectiva do armamento. Acreditar na violência com mecanismo de solução se apresenta como incapacidade de compreensão das realidades sociais existentes nos rincões desse país. Desse modo, o sujeito não consegue compreender que os problemas da violência são de cunho social, relacionados principalmente as inúmeras desigualdades, ausência de espaços de sociabilidade, como espaços de cultura(s), lazer, culminando em preconceitos de toda a estirpe enfrentados desde a tenra idade e por fim, ausência de oportunidades para com a vida.


Desse modo, os dois fenômenos, armamento e conservadorismo estão literalmente imbricados, acarretando em dificuldades para toda a conjuntura social. Por exemplo, os indivíduos envolvidos com transgressões da ordem sofrem como evidenciado pela ausência de condições para a sua sobrevivência e, a outra parcela que acredita não estar envolvida diretamente com a prática transgressiva se depara com a sensação do medo permeando o seu imaginário. Assim, todos perdem, ou melhor, nem todos, porque a bancada da bala se beneficia dessa situação se tornando uma classe social dentro da política. Classe no sentido profissional já que seus representantes parecem ser ad eternum. Outro setor que se beneficia são as empresas “especializadas em segurança” que lucram assustadoramente. Nesse sentido, tem grupos ganhando e muito com a violência nesse país.


Compreender os problemas em torno da violência passa no primeiro momento pela perspectiva das hostes conservadoras, porque são por meio desse núcleo que a violência é produzida principalmente no cotidiano das camadas subalternas, e são eles (conservadores) que apresentam as suas equivocadas e não ingênuas soluções para o problema produzido por eles mesmos. Fica cada vez mais evidente que se as camadas progressistas não começarem a assumir o discurso junto com a sociedade sobre as principais raízes da violência no Brasil, nos encontraremos nessa situação conflituosa, sem perspectiva alguma de transformação.


Quiçá, de forma elementar possamos começar pelo diálogo, propondo o fechamento de presídios e a abertura de escolas de excelência. Em contexto de caldo cultural conservador, dizer o óbvio é indubitavelmente um ato transgressivo.


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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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