Mangas: ruas e estradas

Se você se identifica com as camadas progressistas da sociedade, haverá de convir que vivenciamos tempos difíceis. Nos encontramos em um contexto, no qual se torna cada vez mais evidente a reintrodução de retrocessos. Poderia utilizar o termo ressureição, mas, convenhamos, o caráter de ressureição, em tese, designa um sentido de morte, e o nosso caráter conservador, infelizmente, por ser uma identidade cultural nunca nos abandonou. Hoje, se manifesta livremente, permeando por diferentes camadas sociais, tanto no quesito econômico, como nos inúmeros valores culturais.



Diante do caldo cultural preconceituoso, para utilizar o termo da filósofa Marilena Chauí, que se desabrochou abertamente a partir de 2014, as camadas progressistas parecem ainda não terem condições de intervir socialmente para diminuir os impactos práticos desse fenômeno social. A dificuldade para se compreender o fenômeno é mais do que natural, porque a reintrodução do preconceito enquanto caráter cultural reapareceu de forma abrupta. Importante ressaltar que ele sempre estivera presente, no entanto, se manifestava de forma mais silenciosa, com receios de se afirmar livremente.


Nos dias atuais, receio, ou mesmo vergonha de ser caracterizado como alguém preconceituoso(a) está distante de pertencer ao dicionário cotidiano de uma parcela significativa e crescente de brasileiros. Assim, se caracteriza como algo comum em diferentes níveis de conversa, a afirmação de questões óbvias, que evidentemente deveriam ter sido superadas, mas se encontram distantes dessa premissa. Por exemplo, a defesa em torno da pluralidade religiosa, o diálogo tecendo críticas ao racismo, a misoginia, culminando no feminícidio, passando pela LGBTQfobia, assim como a procura da valorização dos direitos humanos, as críticas a ditadura civil/militar e aos grupos fascistas e neonazistas, entre outras vertentes, levantadas pelos grupos progressistas, estão distantes de serem questões óbvias, mas diante do contexto, são políticas de enfrentamento.


O termo enfrentar, não está relacionado ao embate físico, pelo contrário, o conceito está na ideia de assumir um contra discurso, ou como salienta o filósofo alemão Walter Benjamin, pensar a sociedade à contrapelo. Esse pode ser um dos caminhos a serem utilizados, começar a defender em todos os espaços questões essências de direitos humanos e de sociabilidade. É evidente que vivenciar um contexto de caldo cultural conservador, e por característica contextual, permeado de todos os tipos de preconceito, não poderia agradar as camadas do contrapelo. No entanto, por mais que pareça contraditório, a insuflação dessa conduta social, pode provocar algo positivo nas camadas progressistas da sociedade brasileira, a saber, a necessidade de estabelecer um diálogo contínuo com o país.


O Brasil, historicamente não possui tradição democrática, e uma das suas características culturais é a construção de raízes por meio do autoritarismo, como bem salienta os historiadores, Raymundo Faoro, Sérgio Buarque, José Murilo de Carvalho e outros(a) que procuram compreender a nossa formação sociocultural. Em virtude, desse fator de construção de identidade, não há espaço para o esmorecimento, o diálogo tem que ser uma constante com as bases, possibilitando o que Paulo Freire defende, o reconhecimento do sujeito enquanto pertencente a um conjunto social.


Indubitavelmente, nos últimos anos, as camadas progressistas deixaram esse protagonismo diante das bases em terceiro plano, possibilitando que, grupos que se distanciam dos ideias de humanidade ocupasse o espaço que era ocupado principalmente pela esquerda nacional, que candidamente imaginou que os problemas sociais, principalmente aqueles vinculados ao campo educacional/cultural/humano, seriam resolvidos pelo grupo progressista que conquistara o poder político do país há uma década atrás. Porém, diante da conciliação política, nossos problemas de caráter cultural momentaneamente se silenciaram, mas nunca deixaram de existir.


A manifestação do preconceito, entremeando livremente, traz uma alerta importante para uma conjuntura específica da sociedade. Assim, ou começamos a nos manifestar e atuar mais ativamente, ou possivelmente teremos a intensificação do conservadorismo, a moda brasileira, se consolidando como um projeto de longa duração. A tendência da longa durabilidade em um país que parece sempre estar em transição rumo a democracia, e não consegue consolidá-la definitivamente, não pode ser considerada um bom presságio. Porém, o momento não requer pessimismo, mas, arregaçar as mangas e colocar os blocos nas ruas e estradas.


Abraço e boa semana para vocês!

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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