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Não sacia a fome quem lambe pão pintado

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Poucos assuntos nos causam tanto desgosto quanto a nossa política nacional, nas rodas de conversa a insatisfação talvez seja a única unanimidade, seja você de direita ou de esquerda, apesar de todas as divergências, talvez cheguemos a um consenso de que a política que temos e as opções que temos não agrada a nenhum de nós, há sempre a sensação de que poderíamos ter mais que isso, ter debates mais consistentes, ter nomes mais idôneos e ter mais segurança e confiança nas projetos e promessas. Mas não, salvo os ingênuos que endeusam figuras completamente ridículas, não existe mais ninguém em sã consciência que se sinta plenamente satisfeito, muito pelo contrário, convivemos com a repulsa e a descrença, e a completa sensação de impotência diante de um show de horrores que parece não ter volta. E apesar de supostamente estarmos em uma democracia, nenhum de nós a sente verdadeiramente.

 

 

Há quem diga que a politica em nosso país não funciona, e que nossos políticos são incompetentes mas isso é um grande engano, ela funciona muito bem, dentro daquilo que ela se propõe realmente a fazer, como uma engrenagem perfeita que se move com naturalidade, dai a nossa dificuldade em imaginar uma mudança, pois as estruturas estão consolidadas de tal forma que se apresentam a nós como imutáveis. Mas então qual a função da política em nosso país? para entendermos sua real função precisamos ter como ponto de partida a sua exclusividade, pois diferente do que dizem os velhos demagogos “o poder é do povo” professando a ilusão de uma democracia, na realidade a expressão seria “o poder é de poucos”, e quando começamos a identifica-los percebemos o quanto essa política funciona bem.

 

Para começar a identificá-los precisamos olhar para o passado, durante o período colonial, a coroa portuguesa instituiu nas câmaras municipais das novas vilas e cidades, alguns pré-requisitos para que fosse possível ascender a uma função política, era preciso ser um “homem bom”. Para alcançar a condição de “homem bom”, era necessário que o indivíduo fosse homem, maior de 25 anos de idade, casado ou emancipado, praticante da fé católica e não possuísse nenhum tipo de “impureza racial”. Além disso, estes mesmos homens deveriam ter a posse de terras que legitimavam sua condição social distinta. Sendo assim, apenas uma pequena parte da população poderia ter acesso a vida política. Estes que assumiam o poder governavam e legislavam em benefício próprio e ao mesmo tempo em benéfico da coroa portuguesa que lhe garantia tal privilegio. Ao longo das décadas e séculos seguintes estes padrões foram se naturalizando e se consolidando, garantindo a detentores de posses e status privilegiados a facilidade de acesso à funções públicas da esfera política, não à toa nunca tivemos uma reforma agraria decente neste país, afinal nossos governantes sempre foram os donos de terras, seus filhos, netos e bisnetos.

 

A história política de nosso país foi construída nos moldes da exclusão, condicionando o acesso a vida política ao poder financeiro, excluindo do processo democrática a grande maioria dos brasileiros. Ao povo foi dado desde cedo a ilusão da participação, a instrução necessária apenas para o exercício do voto, e a opção de em qual filho de qual patrão votar.

 

A alfabetização para o voto, e o voto de cabresto foram por muito tempo comuns na vida política dos brasileiros, e até hoje sofremos com os vestígios destas práticas, nas cidades interioranas ainda é comum que os detentores de posses, e influências ameacem seus funcionários e outras camadas da sociedade com o objetivo de ganharem seus votos, prática essa que também é alternada com a compra do voto em troca de pequenas esmolas (um saco de cimento, um caminhão de areia, ou uma consulta ao médico, entre tantos outros exemplos). Em resumo o voto perde seu potencial transformação social e de manifestação de poder popular, e se converte em um exercício de subordinação do eleitor (desprovido de poder e posses) em relação ao candidato (portador de bens e provedor de benefícios).

 

Afastado da possibilidade de acesso ao poder político de fato e de uma representação que o atenda, o eleitor comum enxerga a política e o processo democrático apenas como um evento esporádico que acontece a cada intervalo de 4 anos onde ele poderá conseguir algum benefício que lhe trará um pequeno conforto a mais, uma pequena reforma para seu barraco, uma cirurgia que a muito tempo aguarda na fila, ou um tão sonhado emprego temporário de salário mínimo. Benefícios sociais que melhoram momentaneamente a vida dos indivíduos, mas que em momento algum irá empoderá-los. Ao povo é negado a possibilidade de romper este teto e atingir uma verdadeira democracia, não possuem poder para decidir sobre suas próprias vidas e sobre a coletividade.

 

Talvez nesse momento você pode estar se perguntando e me questionando: “... mas, não temos o direito ao voto? Temos o poder de escolher.” Sim temos o direito ao voto, mas esse direito é irrisório quando todo o processo está em uma grande relação promíscua com o poder financeiro. Tente se candidatar e concorrer a uma eleição sem dinheiro, apenas com bons projetos e um histórico de honestidade e compromisso, enquanto o concorrente usa todo seu poder aquisitivo com um alto investimento em marketing e em compra de votos e de aliados políticos. Sedo assim, o processo de uma eleição fica restrito a quem tem recursos para se candidatar e só assim terá chances de ganhar. Mas a relação de promiscuidade vai ainda além dos poderes aquisitivos individuais dos candidatos, pois a exigência de capital é tamanha que é necessário que haja financiadores (empresas, ou grupos interessados na eleição de determinado candidato), esses financiadores não injetam dinheiro em campanhas por bondade, mas sim esperando um retorno futuro, são investidores, quando seus candidatos assumem o poder, naturalmente seus projetos e politicas atenderão prioritariamente a aqueles que o financiaram.  

 

O eleitor comum pode até ter as suas escolhas na hora do voto, mas suas opções não os representarão, pois foram pagos apenas para convencer e iludir o povo, carente de cidadania e discernimento político, enquanto o verdadeiros donos do poder são fielmente representados nas decisões mais importantes de nosso país, dando nome aos bois, os nosso sistema político funciona muito bem para: Os latifundiários, os banqueiros, os grandes empresários (Multinacionais), investidores internacionais, donos dos conglomerados religiosos (neste caso não há representação da comunidade religiosa, mas sim dos poderosos donos das instituições portadores de grandes fortunas).

 

Por esse motivo não temos serviços públicos de qualidade, pois a quem governa e a quem paga para que determinado candidato assuma ao governo, convém que a escola pública seja sucateada para alavancar os rendimentos das escolas particulares e cursinhos, convém que os hospitais planos de saúde públicos sejam ineficientes e precários para que hospitais e planos de saúde particulares tenham uma maior procura. Convém que as estradas sejam esburacadas para convencer ao povo dos benéficos de um pedágio privado. Todos os serviços são ineficazes para justificar uma futura privatização, pois nosso Estado atende a apenas um senhor: O capital privado. E o mal atendimento e os serviços mal prestados não passam de um descaso e uma precarização proposital, ou seja, o Estado não é ineficiente, ele é eficiente a quem ele se propõe a atender.

 

Se quisermos ter uma verdadeira mudança de cenário em nossa política nacional precisamos repensar todo o sistema político e propor uma verdadeira reforma, pois a forma como ele se estrutura representa a menos de 10% da nossa população, e exclui sistematicamente a grande maioria, fazendo de nossa democracia uma democracia de aparências, pois como afirma o filosofo Mario Sergio Cortela: “...a política como atividade e vida pública, não necessariamente partidária, exige participação... O campo dessa participação, lembra um pouco o que dizia o teólogo Agostinho: “Não sacia a fome quem lambe pão pintado”. A aparência de democracia não sacia nosso desejo por uma democracia real, em que cada brasileiro de qualquer classe social seja verdadeiramente representado. E como em tantos outros momentos da história, é hora de lutar por nossa democracia, uma verdadeira democracia.

 

Boa semana meus amigos!

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

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