A CAPTURA DO NEGRO FUJÃO


Carlos Alessandro dos Reis*


Hoje, logo de manhã, chegou até mim um vídeo sobre a captura de um “negro fujão”. O vídeo trazia a remoção de um corpo, cravejado de balas, sendo arrastado pelos “capitães-do-mato”, que comemoravam alegremente o fato de terem dado fim ao pobre diabo. Provavelmente, uma vitória, um troféu, ou até mesmo uma medalha de guerra, aquele “objeto” representava para eles.


Logo depois, chega também a imagem de um negro desfigurado, com tantos buracos pelo corpo que era impossível salvar dali qualquer dignidade dispensada a qualquer animal, era o malfadado negro fugitivo. Como a imagem era pouco impactante, por se tratar de algo tão banal (um negro, pobre e fugitivo sendo brutalmente assassinado), a imagem trazia uma frase com um trecho cada vez mais comum na boca do “cidadão de bem” ávido por sacrifício. A frase dizia: “foi pouco tiro mais o cpf foi cancelado” (escrita original). Provavelmente escrita por outro cativo, porém “dócil”, entendendo que a exposição do castigo precisasse de um pouco mais de violência para realçar a vitória da casa grande.


Embora não tenha me causado estranheza o fato de a “senzala” estar comemorando a captura de um “negro fugitivo”, e de o “capitão-do-mato” festejar a execução brutal de um mulato, considerado por ele – e, pelo jeito, para muitos da sociedade - como um ser sem alma, estranhou-me que tanta violência fosse tratada como vitória por ambos os lados.


Não há vencedores, apenas vencidos. Não há motivos para se comemorar, não se tem o que festejar, escravos e senhores. Todos deveríamos lamentar. A derrota é dele e a nossa também. Todos fomos derrotados. Fomos derrotados quando perdemos o respeito pela dignidade humana. Fomos derrotados quando aceitamos como remédio para a violência mais e mais violência. Pois, como já dizia Sartre: "A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.".


A banalização da barbárie se torna evidente quando o total desprezo pelo ser humano se torna corriqueiro e insensível ao ponto de ter que adicionar frases de efeito a imagens que por si só deveriam causar revolta. A nossa derrota enquanto sociedade se escancara quando a casa grande e a senzala, escravos e senhores, unem-se para festejar a brutalidade com que se desfaz de um negro.



Texto:

Carlos Alessandro dos Reis

*Licenciado em Geografia pela Universidade Federal de Mato Grosso.

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