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A DIVISÃO DO TRABALHO E A MANUFATURA EM KARL MARX: NOTAS GERAIS


O texto tem por objetivo descrever as principais características da divisão do trabalho no interior da manufatura como resultado do modo de produção capitalista. Importa dizer que se trata apenas de apresentar genericamente as ideias principais de Marx a respeito da composição e da origem da manufatura, sua dualidade em um “organismo” heterogêneo e orgânico, decorrente da divisão do trabalho manufatureiro e deste como fruto da divisão do trabalho na sociedade, bem como da estrutura marcadamente capitalista da manufatura que desemboca na maquinaria e, por conseguinte, na indústria.


A partir da discussão que envolve a cooperação no interior do processo de produção, seja ela de caráter simples ou complexa, Marx diz que a manufatura surge ou adquire forma coerente a partir e particularmente no contexto da divisão do trabalho que, dito de outro modo, se compõe de duas principais fases, a primeira, em que concentrados sob o poderio de um mesmo capitalista, num determinado local de trabalho (oficina), diversos trabalhadores de ofícios ou especialidades diferenciadas e independentes se juntam e produzem um determinado produto final. A segunda fase pretende ser, como Marx denomina, uma “decomposição” de um determinado segmento da produção em sua especialização, ou seja, em diferentes modos de operações particulares e determinadas que se encontra sob o jugo de um único capitalista. Esta última se distingue da primeira na razão própria de sua capacidade de reunir trabalhadores ou atividades de um mesmo ramo ou espécie (p. 391-392).


Sobre este aspecto, define Marx que a manufatura decore da “[...] combinação de ofícios independentes diversos que perdem sua independência e se tornam tão especializados que passam a construir apenas operações parciais do processo de produção de uma única mercadoria. De outro, tem sua origem na cooperação de artífices de determinado oficio, decompondo o oficio em suas diferentes operações particulares, isolando-as, individualizando-as para tornar cada uma delas função exclusiva de um trabalhador especial. A manufatura, portanto, ora introduz a divisão do trabalho num processo de produção ou a aperfeiçoa, ora combina ofícios anteriormente distintos. Qualquer que seja, entretanto, seu ponto de partida, seu resultado final é o mesmo: um mecanismo de produção cujos órgãos são seres humanos” (MARX, 2016, p. 393).


Ocorre que a divisão do trabalho na manufatura pressupõe uma dada cooperação simples no processo produtivo. Isto é, o produto final para se constituir como resultado inteiramente concluído da produção, passa necessariamente por diversas etapas de fabricação, que por sua vez corresponde a uma forma particular que é a aglutinação ou de variados ofícios e trabalhadores parciais, ou de vários outros trabalhadores, cada qual especialista de um determinado processo ou ofício, que responde à produção. Marx ainda diz que a especialização de cada trabalhador provoca sua mutilação. Desse modo, “...um trabalhador que, durante sua vida inteira, executa uma única operação transforma todo o seu corpo em um órgão automático especializado dessa operação” (p. 394). Exemplo claro dessa mutilação, é a própria especificação das ferramentas de trabalho que, amiúde, acompanha o processo evolutivo da segmentação da manufatura.


No percurso das divisões e subdivisões do processo de trabalhado na manufatura, Marx discorre sobre duas formas fundamentais no interior de seu mecanismo de funcionamento[1]. Acresce sobre a manufatura heterogênea e manufatura orgânica. Evidentemente que ambas não estão desconexas e até mesmo se complementam. No entanto, Marx defende que cada uma apresenta especificidades de funcionamento no conjunto do modo de produção capitalista. A manufatura heterogênea apresenta uma característica primordial que são as subdivisões de diversos ofícios e trabalhadores parciais que correspondem, cada um, à fabricação de um determinado produto. Quer dizer que um determinado produto exige, no conjunto de sua produção, emprego de diversas outras atividades para que o resultado final seja satisfatório[2] (p. 397-398).


A respeito da manufatura orgânica, Marx acredita que esta, diferentemente da anterior, que apresenta uma diversificação no conjunto da produção, não sendo necessária para isto uma correlação de processos ou estágios de fabricação de um determinado produto, que sua principal característica corresponde, desse modo, a uma “sincronia” ou mesmo fases de produção de modo conexas que são essenciais para a obtenção do produto final. Neste caso, a matéria-prima percorre todas as fases da produção, passando pelas mãos de diferentes trabalhadores manuais. É também uma especificidade da manufatura orgânica a ocupação de um trabalhador ser a do outro[3]. Finalmente, o caráter “orgânico” da manufatura, segundo Marx, se define a partir do conjunto de atividades que, conectadas entre si, formam um “organismo” dentro da produção, ou seja, no interior de um “mecanismo global (p. 401).


Nesse ínterim, a essência da produção manufatureira, assevera Marx, “...é o trabalhador coletivo, constituído de muitos outros trabalhadores parciais. As diferentes operações executadas sucessivamente pelo produtor de uma mercadoria e que se entrelaçam no conjunto de seu processo de trabalho apresentam-lhe exigências diversas” (p. 403). Ocorre que como efeito deste processo, há uma intensa e voraz classificação de trabalhadores em “hábeis” e não hábeis”. O efeito é ainda maior, no sentido da divisão dos ofícios e do trabalho, que os considerados aptos a determinada função ou atividade, são inseridos no processo de produção, que por sua vez são “adestrados” à execução de uma só tarefa. Àqueles que não se adequam, ou devem se inteirar de uma unívoca atividade ou são relegados a ocupar as “periferias” sociais.


No curso desse raciocínio, Marx adentra noutra discussão que não encerra a anterior. Desenvolve uma análise sobre a divisão do trabalho na manufatura e na sociedade. Sobre esta última, Marx aponta para o fato de que toda divisão social do trabalho ocorre a partir de uma divisão natural do trabalho[4]. Esta, por sua vez, se desenvolve ou se altera conforme os diferentes tipos ou estágios de evolução das sociedades ao longo da história. De acordo com Marx, a divisão entre campo e cidade contribuiu sobremaneira para engendrar a divisão social do trabalho. É claro que Marx deixa explícito o fato de que a antítese entre campo e cidade na esfera da divisão social do trabalho só pode ser compreendida através da troca de mercadorias, que nas comunidades antigas nada mais era do que o excedente de produção. Outro fator de importância significativa para a divisão do trabalho na sociedade é a magnitude ou densidade da população, em que a distribuição de tal aglomerado demográfico se efetiva numa determinada oficina (p. 406-407).


A respeito da divisão do trabalho na manufatura, Marx procura dizer que esta decorre da diversificação da produção que possibilita, no conjunto da sociedade, uma divisão do trabalho que se limita a fatores de “ajustamentos mecânicos de produtos parciais” (p. 408). Uma característica deste modelo de divisão do trabalho, diferentemente da anterior, é que na manufatura a concentração dos meios de produção é fundamental para seu funcionamento pleno. Por outro lado, na divisão social do trabalho, tal agrupamento dos meios de produção é dispersa entre os produtores de mercadorias, que por sua vez, são independentes entre si (p. 410). Na manufatura, a divisão do trabalho pressupõe um domínio do capitalista em relação aos trabalhadores. Na sociedade, tal domínio não é dado de forma tão direta e explícita. Por fim, a divisão do trabalho na manufatura é uma derivação específica, diz Marx, do modo de produção capitalista, fazendo-nos supor que, por outro lado, a divisão social do trabalho sempre existiu, a partir de outra divisão, a natural (p. 414).


Na esteira desses argumentos, Marx procura desenvolver uma discussão sobre o “caráter capitalista da manufatura”. Concorre que “um grande número de trabalhadores sob o comando de um mesmo capital é o ponto de partida natural tanto da cooperação em geral quanto da manufatura” (p. 414). Marx ainda diz que a manufatura exige um incremento de capital necessário para manter determinado número de trabalhadores no processo de produção. É, desse modo, “...uma lei que decorre do caráter técnico da manufatura”. Sobre a produtividade que resulta do emprego de capital acerca da produção manufatureira, aparece sobretudo sua condição básica no agrupamento, como dito anteriormente, de um quantitativo de trabalhadores parciais sob o jugo do capitalista. Entretanto, ressalta Marx, tal produtividade implica na combinação destes trabalhos parciais, que logo implica produtividade do próprio capital (p. 415).


Na lógica da produção manufatureira, corrobora Marx, o trabalhador é deformado na medida em que é levado a desenvolver e aprimorar-se em uma atividade única. Não obstante, o trabalhador se deteriora quando suas capacidades e habilidades são canalizadas para uma parcial e exclusiva especialidade no processo de trabalho. Como diz Max, “...o próprio indivíduo é mutilado e transformado no aparelho automático de um trabalho parcial” (p. 415). Assim, para concluir sua proposição sobre a divisão do trabalho na manufatura e a consequente mutilação do trabalhador, Marx analisa que “a divisão manufatureira do trabalho, nas bases históricas dadas, só poderia surgir sob forma especificamente capitalista. Como forma capitalista do processo social de produção, é apenas um método especial de produzir mais-valia relativa ou de expandir o valor do capital, o que se chama de riqueza social, wealth of nations etc., à custa do trabalhador (MARX, 2016, p. 420).


Em resumo, a manufatura compreende-se num curso de evolução do modo de produção capitalista. Ela é o estágio evolutivo que cedeu à abertura para o progresso da maquinaria e, consequentemente, para a indústria. Sua divisão do trabalho se constitui de ampla capacidade de aglutinação de capital, partindo de duas características distintas que, porém, se complementam. Sendo ela de caráter heterogêneo ou orgânico, seu principal campo de atuação é na complexa rede de emprego de trabalhadores parciais num determinado processo de produção ou, de outro lado, uma cooperação simples de trabalhadores parciais numa sequência conexa de produção de determinado produto.


O trabalho exaustivo de Marx a respeito da divisão do trabalho no interior da manufatura, foi crucial para compreender as raízes e as engrenagens do modo de produção capitalista. Hoje, na sociedade em que vivemos, fazer uso dessas noções e categorias é instrumento essencial para apreendermos o modo pelo qual o sistema capitalista ainda se sustenta, apesar de suas nuances e particularidades. Marx é sempre atual.


Texto base


MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro 1. Volume 1. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. 34ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.


Notas:

[1] É notadamente perceptível no texto que Marx quase sempre utiliza termos como “organismo”, “mecanismo”, “dispositivo”, “órgãos”, no processo de explicação das características da manufatura. Uma das razões, acredito, é que quando ele se reporta a estes termos, quer dizer que a manufatura se constitui de um todo conectado com partes que estão interligadas e possui, cada uma, sua função específica. [2] Para ilustrar o processo de composição da manufatura heterogênea, Marx se reporta ao processo de produção do relógio. Segundo ele o relógio se compõe de peças diferentes que exigem, por si mesmas, o emprego de trabalho e conhecimento de outras áreas ou ofícios. Isto é, o relógio para se tornar relógio no estágio final de sua produção, necessita da atividade de trabalho de outros trabalhadores que não estão necessariamente sobre o mesmo local de trabalho. Nesse sentido, o relógio se configura como “...um produto social de numerosos outros trabalhadores parciais” (p. 397). [3] Como exemplo de manufatura orgânica, Marx faz uso da fabricação de agulhas e de garrafas de vidro (p. 402). [4] Aqui Marx recorre às comunidades tribais para ilustrar o que pretende expor sobre a divisão natural do trabalho. Tal premissa corresponde a afirmação por ele defendida de que, havendo uma sequência no estágio de desenvolvimento das sociedades, há também uma “evolução” nas divisões e tarefas executadas (p. 406).

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