Capitã Marvel: Uma heroína verdadeiramente empoderada


Os filmes de heróis caíram no gosto popular após os anos 2000 e se tornaram verdadeiros arrebatadores de bilheterias nos últimos anos. Muito graças à Marvel Estúdios e seu ambicioso projeto de universo compartilhado, que teve inicio em 2008 com o primeiro “Homem de Ferro” e chegando em 2018 com o grandioso “Vingadores Guerra Infinita”, que arrecadou: 2.048 bilhões de dólares se tornando, assim, a quarta maior bilheteria da história do Cinema. Porém, no gênero cinematográfico ainda carecia de uma protagonista feminina de peso e no mês de março de 2019 a Marvel nos trouxe finalmente uma heroína que chega para ser bem mais que apenas uma mulher com poderes especiais, mas também para ser um filme de empoderamento feminino e representatividade.


O cinema historicamente tratou muito mal suas protagonistas femininas, foram pouquíssimos os filmes que trouxeram uma mulher no papel principal, e grande parte dos que se proporam a ter uma como protagonista as trouxeram carregadas de estereótipos fragilizados, dependentes de uma figura masculina ou hipersexualizadas com roupas que não condizem com a situação de combate, ou que usam da sensualidade e da beleza como ferramenta de luta, como “As Panteras” (Charlie's Angels) e “Witchblade" filmes de 2000. Além de outros tantos com protagonismos divididos como as já famosas “Bond-girls” de todos os “007”s. Os exemplos são inúmeros, em suma, personagens femininas para atender a um público masculino. Faltava alguém que fosse uma figura feminina para todos os públicos, em especial uma que fizesse com que as mulheres se sentissem representadas nas telonas e Capitã Marvel vem para cumprir muito bem esse papel.


Capitã Marvel é uma heroína que surgiu pela primeira vez nos quadrinhos da Marvel Comics em 1968 com traços de Roy Thomas e Gene Colan. Mas foi Gerry Conway que deu um dos passos mais importantes em sua origem adicionando o pronome de tratamento “Ms.” usado por grupos feministas na década de 70 como uma forma de afirmação de mulheres independentes da época. Assim, Conway ligou propositalmente a personagem ao feminismo. Para o autor a história de Carol Danvers (Ms. Marvel nos anos iniciais) seria para representar “consciência elevada, autolibertação e identidade”. Porém nos anos 80 e 90 a heroína foi retratada de forma bastante polêmica, com hiperssexualização dos uniformes e até mesmo um arco onde a personagem sofre um estupro. Somente em 2012 a roteirista Kelly Sue DeConnick e o desenhista Jamie McKelvie reinventam a personagem mudando sua origem, visual e importância dentro do universo dos quadrinhos assumindo um papel de protagonismo e mudando o nome de Ms. Marvel para Capitã Marvel.


A adaptação dos quadrinhos para o cinema faz parte da longa jornada do Universo Compartilhado da Marvel Estúdios, um projeto que já conta com mais de 20 filmes, porém, este é o primeiro filme com uma personagem feminina no papel central. Nos últimos dois anos o Estúdio tem se preocupado em expandir os grupos de representação de seus heróis, já tinha feito muito bem seu trabalho em Pantera Negra (2018), levando ao cinema o protagonismo de um herói negro e de uma nação africana forte e avançada tecnologicamente, além de uma forte discussão política conduzida pelo embate entre o Rei de Wakanda e seu antagonista Killmonger. Produção essa que concedeu aos filmes de heróis os primeiros 3 Oscar. Agora cabe à Capitã Marvel, dirigido por diretora Anna Boden e interpretada por Brie Larson vencedora do Oscar de melhor atriz em 2015, assumir esse importante papel de ser uma heroína para inspirar as mulheres de todo o mundo.


O filme teve estreia mundial no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, uma importante e simbólica data para o lançamento. Mas o filme já passou por enfrentamentos pouco antes da estreia. Brie Larson deu declarações para a imprensa se afirmando como feminista, além de exigir que os jornalistas que cobririam a estreia do filme fossem divididos igualmente entre homens e mulheres, o que despertou a ira dos “Haters”, machistas que destilaram ódio nos fóruns de discussão, além de proporem um boicote ao filme. A primeira grande vitória de Capitã Marvel foi vencer a ira dos machistas nas bilheterias. O filme já atingiu 910 milhões de dólares e ainda permanece em cartaz podendo superar e muito as cifras parciais.


Vamos ao filme, a partir de agora pode conter alguns spoilers. O primeiro grande acerto do filme é reinventar mais uma vez a origem da personagem, desta vez seus poderes não se originam do Capitão Marvel, ou seja, seus poderes não vêm de um homem, mas sim de sua mentora na aeronáutica e cientista Kree, além de sua própria coragem ao enfrentar a ameaça até então desconhecida. Dai em diante Carol Danvers é dona de sua própria história, o arco narrativo gira em torno dela, personagens importantes de histórias anteriores como Nick Fury agora aparecem apenas como coadjuvantes que a acompanham assustados ou impressionados com seu poder, algo que não falta a Carol que parece imbatível tanto em poderes quanto psicologicamente do início ao fim.


Muito diferente de Mulher Maravilha interpretada por Gal Gadot, a principal heroína dos estudos da concorrente Warner e DC Comics, que em seu filme de 2017 mesmo sendo aclamado como um filme de empoderamento feminino dividiu grande parte do protagonismo com o soldado americano Steve Trevor, ou melhor, o foco girava em torno da guerra de Trevor; seus poderes tem origem nos poderes divinos e Zeus; além de despertar todo seu potencial apenas após a morte de Trevor, ou seja, seus poderes dependeram diretamente de homens. Com relação às roupas quase sempre curtas e inapropriadas para as situações como trincheiras de guerra, além de ângulos de enquadramento da câmera em suas curvas, expondo apenas uma hipersexualização da heroína. “Mulher Maravilha” acabou sendo apenas um filme de algumas frases de empoderamento e nada mais que isso. “Capitã Marvel” vai muito além de apenas algumas frases de efeito, Carol Danvers não depende da sexualização de sua personagem, seu traje é condizente com o uniforme de batalha do exército Kree, ela não faz caras e bocas para parecer bonitinha ou simpática, aliás, ela não faz a menor força para parecer simpática, não solta frases de efeito gratuitas a toda hora, seu poder e sua força são apresentados em suas atitudes, sua postura e sua jornada pessoal.


As ações de “Capitã Marvel” a coloca na posição de heroína mais poderosa apresentada até o momento no Universo Cinematográfico da Marvel, além de inspirar a formação dos próprios Vingadores. Demorou, entretanto o primeiro filme de heroína chega para ser bem mais que apenas um filme de herói, mas sim, para abrir as portas para uma nova forma de representar o protagonismo feminino no cinema, sem objetificação e outros estereótipos daqui em diante.


Capitã Marvel é a heroína que o cinema e o gênero de heróis precisavam como protagonista, pois apresenta uma heroína verdadeiramente feminista e forte que inspira por sua coragem e postura e não por atributos estéticos, assumindo uma função de representatividade e empoderamento efetiva, sem forçar a barra, uma heroína tão forte que se prova por si só, mesmo sem precisar provar nada a ninguém.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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