Carta de Despedida do Diário da Comunidade



Queridas e queridos ouvintes alternativos, espero encontrar vocês bem. Lembro da primeira vez que participei do Diário da Comunidade[1]. Na época fui convidado pelo Professor Valtuir Moreira para falar da XII Semana de História da UEG de Itapuranga, lá no início de 2013. O Brasil, nesse contexto, era totalmente diferente do que é hoje, tínhamos perspectiva de país e de sociedade. Porém, ao contrário dos meus comentários na Rádio[2], nesse texto não farei digressões e tentarei ser mais direto. Na noite que antecedeu a entrevista praticamente não consegui dormir, estava ansioso para falar pela primeira vez na rádio.


Participei do Diário muito nervoso, mas acredito que consegui dar o recado, isso é, fazer o convite para toda comunidade participar do evento acadêmico. O Diário não era, naquele momento, uma novidade para mim, pelo contrário, já algum tempo o programa fazia parte do meu cotidiano matinal, ou seja, eu era um ouvinte alternativo. Não sei por qual motivo, mas a partir daquela primeira entrevista meus laços com o programa, e com a Rádio, ficaram mais estreitos. De vez em quando acabava sendo convidado para participar de programas que tinham pautas específicas.


De participação esporádica passei a ser o substituto do Prof. Valtuir Moreira quando ele tinha compromissos pessoais ou profissionais. Nessas condições, o companheiro de bancada, no primeiro momento, sempre era o Tecilo Moreira, no qual acabei compartilhando, também, à bancada do Alternativa Esportiva[3] por mais de três anos. Depois, com a saída do Tecilo, na ausência do Prof. Valtuir, meu companheiro de bancada passou a ser o Vilmar Ferreira[4]. Na ausência do âncora, minha responsabilidade aumentava um pouquinho mais, isso porque ficava na incumbência de levar as matérias para serem apresentadas e discutidas no programa. Lembro que nessas situações ficava horas e horas para decidir qual material levar, e no final acabava levando tudo o que havia reunido.


De participação esporádica, na ausência do Prof. Valtuir Moreira, passei a dividir a bancada do Diário com meu grande mestre, amigo e companheiro aos sábados, tentando suprir a ausência do mestre de todos nós, Nelo Bononi[5]. Nelo me ensinou que a indignação provavelmente seja uma das grandes virtudes humanas. Talvez, ao longo desses oito anos, essa tenha sido a minha característica mais marcante; entre falas entrecortadas, raciocínios desconexos, longas digressões, sempre fui alguém indignado diante do microfone.


Alguns podem estar se perguntando, mas indignado com quê, com quem? A resposta não é tão difícil. Indignado com a fome, com a miséria, com a violência de gênero, com a opressão, com o racismo estrutural, com a homofobia, com a intolerância religiosa e, principalmente, indignado com o sistema que produz tudo isso, a saber, indignado com o capitalismo. Isso mesmo, queridas e queridos ouvintes alternativos, sempre fui respeitoso com vocês, nunca escondi que sou de esquerda, simpatizante do Partido dos Trabalhadores e Socialista. Aliás, nem teria por que esconder, afinal, ser de esquerda e ser socialista me orgulha muito.


Nesses oito anos sempre procurei evidenciar que o nosso grande problema é de caráter estrutural, ocasionado por um sistema violento e segregacionista, isso é, o nosso grande problema é o capitalismo. Enquanto não superarmos esse sistema de construção de miséria, podemos mitigar os problemas, mas nunca superá-los. Meu objetivo sempre foi e provavelmente sempre será a superação do Capitalismo. A cada fala, a cada matéria comentada, a cada diálogo com os ouvintes alternativos nunca deixei de acreditar na transformação social, nunca deixei de acreditar na possibilidade da consolidação do Socialismo.


Quando voltava para casa e sentia que minha participação não havia sido boa, que a mensagem de esperança de construção de outro modelo de sociedade não havia sido repassada, voltava para casa contrariado, entendendo que mais uma oportunidade havia sido desperdiçada. Porém, rapidamente me confortava sabendo que na outra semana estaria novamente no programa. De vez em quando o encontro acaba sendo encurtado, isso porque recebia um telefonema do Prof. Valtuir Moreira me informando de algum compromisso e me pedindo para substituí-lo. Grande Valtuir, nunca o substitui, afinal, ele é insubstituível e o Diário tem sua identidade.


Foram oito anos, e como diz o ditado popular, oito anos não são oito dias. Por exemplo, o longo tempo me fez me acostumar com a voz dos ouvintes. Isso mesmo, quantas vezes atendia o telefone para registrar uma participação ou mesmo uma reclamação e de cara, pelo primeiro bom dia, já sabia quem era. Ah, isso me fazia muito bem, me aproximava das pessoas e fazia o Diário ter sentido, afinal, estamos falando do Diário da Comunidade. Esses momentos sempre foram de muita felicidade.


Porém, tenho que ser sincero com vocês, também tive tristezas relacionadas ao programa. Possivelmente a principal delas está relacionada a ameaça de processo que recebi de um companheiro de programa por simplesmente ter feito uma análise política[6]. Confesso para vocês, ser ameaçado publicamente me deixou sem eira e nem beira, a ponto de ter tomado a decisão de não mais participar do programa. Porém, fui demovido da ideia pelo Prof. Valtuir e, também, pelo Prof. Sebastião Rafael Gontijo[7]. Diante das conversas e do entendimento do que possivelmente havia motivado aquelas ameaças resolvi continuar no programa.


Na próxima semana estava lá novamente, indignado, não mais com a ameaça feita em público, mas com o capitalismo e com os gestores do capital. Acabei vivenciando muitas coisas no Diário, travei muitas lutas sociais, entretanto, fui derrotado em todas elas. Por exemplo, gritei contra o golpe parlamentar de 2016, porém não adiantou, fiz de tudo para Bolsonaro não ser eleito, de participação em programas de rádio, de muitos textos escritos[8], passando por entregador de panfletos do Fernando Haddad no período eleitoral, entretanto, o gestor da morte foi eleito. Me levantei contra a Operação Lavato enquanto essa operação era endeusada como modelo de combate à corrupção. Gritei com todas as forças que Lula era inocente e que sua prisão era, então, injusta, pouco adiantou. Minhas derrotas continuaram. Diante da pandemia, implorei por Lockdown desde o primeiro momento e o resultado, infelizmente, estamos presenciando todos os dias, mortes e mais mortes. Como é possível verificar, fracassei em todas as batalhas que travei, mas parafraseando o grande Darcy Ribeiro: “meus fracassos são minhas grandes vitórias, e eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.


Dentro desses oito anos, tenho que ser sincero com vocês. Apesar de me orgulhar das minhas derrotas, ser derrotado não é fácil. Você fica pensando; o que fizemos de errado? Onde falhamos? Poderia ter sido diferente se a nossa estratégia tivesse sido essa? Enfim, perder dói, e mais do que isso, perder nos deixa doente. Apesar da insônia, do princípio de depressão, minha doença tem nome e sobrenome, a saber, eu estou Doente de Brasil. Estou doente, e o primeiro passo para a recuperação é reconhecer nossas fragilidades humanas e procurar tratá-las. Doentes de Brasil é um sintoma estranho, aparece quando suas forças de luta e resistência parecem se esvair, restando a certeza de que o caos está longe do fim.


Nesse momento, queridas e queridos ouvintes alternativos, não estou tendo mais forças para lutar. Continuo indignado, mas minhas forças para verbalizar toda indignação não são mais as mesmas. Tenho a impressão de que a barbárie, o culto à morte, a pulsão de morte, prevaleceu. Minha grande última batalha foi em defesa do Lockdown no município de Itapuranga e, aparentemente, parece ter sido em vão[9]. Não me conformo com o fato de termos perdido mais de quarenta pessoas só no município de Itapuranga. Para mim, essas pessoas são pessoas, não são números. Perdemos a dona Maria, o senhor José, Pedro, João, Guilherme, Marta e tantos outros. Pessoas, amigos, amigas, familiares, vizinhos, enfim, pessoas. Talvez se eu tivesse sido mais enfático, se não fizesse tanta digressão, essas vidas não seriam perdidas. Enquanto ser social, eu falhei, se não tivesse falhado, essas pessoas estariam no nosso meio.


Não tenho mais forças para travar a luta em defesa da vida coletiva. Peço desculpas pela fra(n)queza, mas o momento talvez seja o de cuidar da minha vida individual, ou melhor, da minha saúde. Não me julguem como se fosse um ser covarde. Não sou um Super-Homem, aquele herói de Hollywood, ou mesmo o super-homem presente nos escritos de Nietzsche. Sou apenas um professor universitário, de esquerda, Socialista, derrotado momentaneamente pelas forças do Capital.


Gostaria que entendessem minha decisão de me afastar do Diário da Comunidade para cuidar da minha saúde física e mental. Peço que não me julguem, afinal, mesmo longe nunca abandonei a luta. Vocês se lembram de quando fiquei três anos em Porangatu[10]? Então, não fiquei uma semana sequer sem participar do programa. Mesmo longe, e muito longe, eu sempre estive por perto. E, nesse momento que tomei a decisão de afastar, sendo compreendido pelo meu grande amigo e companheiro Prof. Valtuir Moreira, também estarei por perto, isso porque todos os dias, de segunda à sexta, das 7 às 8 horas da manhã, estarei ouvindo as reflexões de meus amigos e companheiros no Diário da Comunidade. Serei, como sempre fui, um ouvinte alternativo.


Aos embrutecidos, não pensem que isso seja uma despedida definitiva, minha decisão representa um até breve. Às queridas e queridos ouvintes alternativos, meu muito obrigado. Ao mestre, amigo e companheiro Valtuir Moreira, minha gratidão eterna.




Notas:

[1] O Diário da Comunidade é um programa radiofônico da Rádio Alternativa Fm de Itapuranga. Por praticamente duas décadas o Diário tem possibilitado todo um espaço de interação e reflexão com os/as ouvintes, contribuindo na formação política e na construção de uma sociedade mais justa e humana. Durante todo esse período, até os dias atuais, o programa sempre foi coordenado e apresentado pelo Prof. Valtuir Moreira da Silva. Além de âncora, o Prof. Valtuir é professora da UEG, Unidade Universitária de Itapuranga. [2] A Rádio Alternativa de Itapuranga é uma emissora de rádio comunitária. Sonhada por muito tempo, a autorização para o funcionamento da rádio finalmente aconteceu no ano de 2005, mais precisamente a partir do mês de fevereiro. Como toda rádio comunitária, a Alternativa não tem fins lucrativos, e sua manutenção, no quesito financeiro, se constitui por meio das associações locais, religiosas, de trabalhadores e trabalhadoras, e do Sindicato de Trabalhadores Rurais. [3] O Programa Alternativa Esportiva fez parte da programação da Rádio Alternativa por mais de uma década, sendo coordenado e apresentado por Tecilo Moreira. Entre 2013 e final de 2015 participei assiduamente do programa, tecendo comentários sobre o futebol brasileiro e internacional. Atualmente, o Alternativa Esportiva não faz mais parte da rede de programação da Rádio, muito em decorrência da saída do Tecilo Moreira que aceitou o convite para trabalhar em outra emissora radiofônica da cidade de Itapuranga. [4] Vilmar Ferreira foi por muito tempo apresentador do programa Raízes do Brasil. Programa voltado para a reprodução de músicas caipiras, veiculado de segunda à sábado, das 5 horas da manhã até as 7 horas. Com a saída do Tecilo Moreira, além de apresentar o Raízes do Brasil, Vilmar Ferreira colaborou diariamente com o Diário da Comunidade por muitos anos. [5] Nelo Bononi teve participação ativa no Diário da Comunidade por muitos anos. Nelo foi um padre italiano que veio para o Brasil em meados do século passado e que chegou no município de Itapuranga pouco tempo depois da sua chegada ao Brasil. Tendo deixado a batina, Nelo se notabilizou por entrelaçar a Teologia com a Filosofia de cunho anarquista. A partir de uma leitura crítica do Capital, e nunca deixando de acreditar na transformação social, o filósofo se notabilizou no Diário por defender os seus ideais de construção de um outro modelo de sociedade pautada na justiça e na equidade. Infelizmente, no ano de 2016 Nelo Bononi veio a falecer. Porém, suas ideias e ideais permanecem muito presentes na sociedade itapuranguense. [6] O ocorrido tem pouco tempo, mais precisamente em meados do mês de novembro do ano passado. [7] O Professor Sebastião Rafael Gontijo é conhecido popularmente como Tião Lobó. Um dos mais importantes professores da região de Itapuranga, tendo exercido a profissão por mais de 50 anos, contribuindo com a rede estadual de educação e com a Universidade Estadual de Goiás. Além do trabalho escolar, Tião Lobó nunca deixou o trabalho de base, tendo sido muito importante na formação do Partido dos Trabalhadores na região de Itapuranga e na formação de sindicatos e associações. Além disso, participa semanalmente do Diário da Comunidade. [8] Esses textos podem ser encontrados no blog do Além dos Muros. [9] Ao longo dos últimos meses tenho defendido constantemente a necessidade do Lockdown, tanto no município de Itapuranga quanto no Brasil como um todo. No programa radiofônico inúmeras vezes levantei a necessidade do isolamento social, assim como escrevi manifestos nas redes sociais e mesmo ensaios que foram publicados neste espaço, com destaque para O estado da barbárie, Aos meus futuros assassinos, e Mortos de Brasil. [10] Entre meados de 2016 até meados de 2019 fiquei trabalhando e residindo na cidade de Porangatu, norte do estado de Goiás. Nesse período trabalhei no Câmpus Universitário da UEG, mais precisamente no curso de História.

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