Carta de reminiscências



Nesse texto, para falar de teoria e método na Geografia decidi não retirar da estante livros empoeirados de método, de teoria da Geografia. Também não vasculhei as velhas apostilas que guardo rabiscadas com anotações ao lado da página sobre minhas apreensões do diálogo silencioso com os autores. Não, dessa vez decidi produzir um relato de reminiscências, vou “cavucar” na memória o que é o meu entendimento da feitura do método e da teoria. Espero não o decepcionar nessa empreitada. Vamos a prosa...


Dia cinco de novembro, sete da manhã, acordo e abro a porta da cozinha, vou até a varanda da área, dou uma reparada no tempo. O sol vem brotando lá das bandas da Bahia, radiante, o dia promete muito sol e pouca chuva. Há um frescor, um clima ameno e gostoso, próprio das áreas elevadas do planalto central. Sento na mesa, tomando meu café começo a matutar na tarefa do dia, é dia de campo. Reviso nas ideias que no dia anterior elaborei um conjunto de perguntas que responde as minhas intenções da prosa com os acampados do acampamento Dom Tomás Balduíno.


Realizei isso no meu caderno azul, aonde anotei as questões que iriam direcionar a conversa, assim como minhas impressões do campo. Pensei nas perguntas elaboradas, me perguntei se alguma era destemperada, pergunta sem jeito, que não se faz a ninguém, daquelas indagações evasivas, chequei se faltava alguma, tentei prever tudo. No final sosseguei, prosa é coisa que não se controla assim tão fácil, o melhor que eu posso fazer é falar pouco, alimpar bem os ouvido para fazer uma boa escuta. Na hora fiquei pensando que um bom perguntador é no fundo um bom escutador, daquele que toma um gole de cachaça, come um pão de queijo, sorri, olha atento para o sujeito que fala.


Fiquei pensando que o ato de ouvir é um dos mais difíceis, envolve atenção, respeito, capacidade para aprender coletivamente. Também ruminei que quem não experimenta, não comunga, não se lambuza com os sujeitos perguntados não entendi seu mundo, suas respostas, sua vida, suas lutas. Mais do que boas perguntas, é preciso criar uma comunicabilidade com o sujeito perguntado. Essa empreitada não é das mais fáceis, você corre o risco de ser evasivo, apelativo, caricato.


Já vi gente que pesquisa determinadas comunidades de destino criando para si personagens próprios, vestem-se como camponeses, indígenas, numa transmutação ridicularizada do seu ser. Ficam preocupados em retomar uma identidade, de fazer uma reafirmação desonesta, porque não vivem no cotidiano as dores e o gemido de SER camponês, indígena, ribeirinho, quilombola. Outros, por não se misturar com os sujeitos, não tecerem, ao menos contatos prévios, os entendem como incapazes de compreender determinada linguagem, de saber pouco ou não saber nada sobre determinado tema, fazem questionamentos frágeis. Alguns exageram na linguagem caricata, do tipo que “força a barra”, usam expressões como aquelas que a gente encontra em propaganda de quadrilha.


Pesquisa de campo é coisa séria, não basta um formulário prévio, uma boa caneta, um bom gravador. Do outro lado tem um sujeito e isso não é pouca coisa, basta dar uma olhada em Lukács que a gente vai entender com que está se metendo.


Por isso todo campo é um aprendizado, uma possibilidade de refinamento para não cometer equívocos primários. O pensamento retorna para a xícara de café vazia, como diz meu pai com jeitão de mineiro dele: “é gente, a prosa tá boa, mais deixa eu agir.” Abro a bolsa, confiro o que vou precisar na visita. Coloco lá meu caderno azul, uma caneta da mesma cor, levo outra para o caso dessa falhar. Sujeito deve ser precavido, como diz um tio meu: “cabra que vai capinar sem botina, sem enxada bem ajeitada, eu já perco a confiança na qualidade do serviço.” Pego máquina, coloco a bateria que por prudência no dia anterior carreguei. O gravador, com as modernidades do mundo atual o celular resolve, há programas de qualidade que produzem boas gravações. Tudo nos conformes, passo e repasso na ideia os materiais que vou utilizar na visita, tudo certo.


Mas falta uma coisa, lembro da prosa com o estudante de graduação. Menino curioso, iniciante nessa labuta, na prosa alongada ele se mostrou interessado, comprometido, resolveu acompanhar a atividade. Fiquei reticente, a pandemia, os riscos do campo, o alertei sobre o cuidado e os riscos envolvidos. Tudo isso não o demoveu de acompanhar a atividade, resolvi iniciá-lo na questão. Pego a bolsa, coloco no carro, entro, sento e com as mãos no volante dou um suspiro. A tarefa não é nova, já foi feita outras vezes, mas nessa oportunidade a notícia que vem do acampamento não é boa. A comunidade sofre ameaças, pode ser que no caminho eu possa ser impedido de chegar ao destino. Neste país bárbaro e violento ninguém está isento, pesquisar é perigoso, como diz o ditado popular: “a verdade as vezes dói. ”


Mas o compromisso exige coragem, saio de casa, passo na casa do estudante, rumamos para o Norte de Formosa. No caminho o menino cheio de sonhos me conta sua vida, seus desejos no curso, seus sonhos. Rapaz sensível aos homens e mulheres que vamos conversar, parece que a materialidade da vida na periferia de Formosa o fez perceber que o gemido deles tem um pouco do gemido da sua comunidade. Estrada vicinal, relevo movimentado, ziguezague e treme treme constante, curva para não acabar mais, a vista alcança belos mares de morros, cobertos por fitofisionomias do Cerrado e pastagens plantadas.


Como migrante, sujeito novo no lugar, os sentidos identificam contrastes na paisagem, em direção a Brasília predomina as monoculturas de grãos, já por essas bandas o agronegócio pecuário fez morada. Lembro de artigos lidos de gente respeitada que diz que há uma produção completa do ambiente, não há determinações naturais para determinadas atividades, coloco em dúvida tal afirmação. A conversa com o pensamento termina e lembro que a informante disse que após a terceira ponte a gente encontraria uma placa caída, nela estaria escrito fazenda Cangalha. Curva vai, curva vem e nada da placa de referência, até que enfim avistamos a entrada.


Tomo a direção à direita e a atenção a estrada se confunde com a concentração na paisagem. Geógrafo atento gosta de ficar botando sentido em tudo. Eles estão atentos, feito cavalo com as orelhas tesouradas. Começou o “papo reto”, a conversa banal substitui os olhos, o olfato, os ouvidos que percorrem, cheiram, escutam a paisagem. Pastagem degrada de braquiária esparsa coberta por uma formação de capoeira, cercas com arames arrebentados dividem os pastos. Aqui e acolá se vê uma rés pastejando, cheiro de fezes bovina, local onde besouros e mosquitos fazem sua festa, a estrada produz solavancos que gera grunhidos no carro, ao longe pássaros cantarolam na estação da primavera.


Num certo descampado, onde a vista alcança mais longe, se vê que a capoeira tomou conta do latifúndio. Trago para a conversa do pensamento o Ariovaldo Umbelino, “isso aqui é para especulação e reserva de valor, não é mesmo Ariovaldo?” Essas vaquinhas aí é instrumento antigo da oligarquia agrária para camuflar a improdutividade da terra. O meu pai diria, “produção aqui só se for de chiboca.” Parece que o olho, o olfato entregou coisa para o pensamento, de repente eu já estou teorizando. Matuto que cabra que se coloca nesse serviço de pesquisador e tem preguiça da palavra escrita é a mesma coisa que colocar médico para avaliar motor de carro. Liga, escuta o barulho, acelera, observa, bota a mão aqui e acolá, sente o cheiro da fumaça, mas não identifica o problema, não o explica.


Acordo do devaneio intelectual com uma indagação: “professor, já não passou do lugar não.” Consulto a memória, conforme indicação recebida a entrada do acampamento ainda não chegou. Vejo de longe o ponto indicado, entramos numa estrada esburacada. Continuamos deslocando vagarosamente por alguns minutos por um topo aplainado, descemos um declive, ao longe um conjunto de barracos se confundem com a terra arada ao fundo de uma serra. O carro vai lento, passamos uma lagoa e chegamos numa porteira. Desço do carro, verifico a fechadura, uma corrente envolve a porteira e o poste esticador unida por um cadeado, do lado se lê: “resistência Dom Tomás Balduíno.” O olho que vê indaga: isso não é sinal de território? Se não fosse, para que esse controle de acesso? Lembro na hora que Marcos Aurélio Saquet, Marcelo José Lopes de Souza, Rogério Haesbaert, etc., falam disso. Mas quem discutiu território como controle de acesso foi Robert Sack.


Repreendo o pensamento, não é hora da dialética realidade concreta/elaboração teórica para teorização da realidade. A questão é que imagens vão desnudando conteúdo de um fenômeno concreto. O desafio posterior será escrevinhar idealmente o movimento concreto da realidade. Olho no horizonte, o devaneio teórico passa, avisto ao longe um grupo reunido num salão aberto coberto de palha. Bato palmas, alguém grita: “O professor chegou, vai lá abrir.” Um jovem de uns vinte anos chegá, fico pensando no relato de uma agente de pastoral. Na oportunidade ele disse que pessoas rondavam o acampamento armadas.


Como diz meu pai: “dá um frio no espinhaço do cabra.” Estou na fronteira, no limite, como diz o Raffestin, eles não são inocentes. A classe se revela com clareza na cêrca, que cerca o direito à terra de trabalho. O jovem abre a porteira, esse ato diz muito sobre domínio, controle, sobre quem domina quem naquele lugar porteira adentro. O tal do território volta na minha cabeça. Convido o jovem para entrar no carro, vamos até o ponto da prosa. Aproximo, homens e mulheres estão sentados. Há mais mulheres, sinais de transformações nas relações de gênero no campo. Chapéus, bonés, botas, alí todo mundo tirou uma hora do seu dia de lida. Olho para o céu, o tempo dá sinais de que é tempo do semeador e da semeadora jogar a semente na terra. Apresento, conversamos um pouco sobre temas avulsos para desnuviar a prosa árida que vem em seguida.


Roda de apresentação, homens e mulheres contam sobre sua vida na cidade, a infância e adolescência no campo, a dureza de estar sob jugo de patrão, os sonhos que os movem, a labuta de plantar, criar, cultivar a terra numa perspectiva alternativa. Também versam sobre ameaças, preconceito, negligencia do Estado, dificuldades de comercialização, projeto de sociedade do seu movimento social. Olho para o estudante brevemente, o sujeito está entesourado, atento. Olhos, ouvidos conectados no gesticular dos braços, na intensidade da voz, nas expressões faciais. Hora ou outra a voz de um ou outro embarga, o tom aumenta, assume um compasso, os olhos ficam mais “esbugalhados”, alguém aqui e acolá se contorce ao falar. Do mesmo modo, discordâncias entre o grupo surgem sobre um ou outro tema, além de concordância e reafirmação de algumas situações.


Uma hora e trinta minutos, a prosa se esgota, uns já estão se mexendo nas tábuas do banco de madeira, conversas paralelas começam a acontecer, outros dizem que tem de ir à cidade, ou cuidar da feitura do almoço. Outra atividade nos espera, é hora de percorrer o acampamento. Guardo o celular, verifico, a gravação foi realizada. Retiro da bolsa o caderno e a máquina fotográfica. O coordenador de produção percorre conosco a área arada, mostra com orgulho a horta comunitária. Nos relata o que, como e porque se planta aquelas culturas agrícolas e olericolas. Também porque se cria apenas determinados animais. Fala da vida dos acampados, do desespero de alguns com a possibilidade de despejo: “professor, tem gente aqui que se for mandado embora vai ter de ir pra debaixo de uma ponte.” Da última vez que falamos nisso teve gente que entrou em desespero, imagina isso nessa pandemia!!!!


Estradas que conectam barracos de lona, terra arada com feijões e milhos crioulos apontando aqui e acolá, noutros pontos o milho e o feijão já estão começando a ganhar tamanho. Estão assim como o diz o camponês goiano: “verdolengos, o milho começando a retorcer a folha, sinal de boa colheita.” São sete alqueires, não há um palmo que não esteja plantado, ou preparado para jogar a semente na terra, exceto a área dos barracos, os quintais e um “cangueiro de pedra.” Latido de cachorros, cantarolar de galinhas, grunhidos de porcos, sinal de casa por perto. Convidados adentramos os barracos, homens e mulheres retraídos, tímidos com nossa presença. O coordenador adianta a prosa.


O olhar para baixo das mulheres, a desconfiança dos homens, a pressa e a labuta de outros. Esses não são os coordenadores do acampamento, nem os dirigentes do movimento social. Se mostram, ao que parecem, envergonhados pela casa, pela situação que vivem, desconfiados com o chegante, seria mais prometedor de promessas? Um certo ar de culpa permeia o ambiente. Estereotipados de vândalos, vagabundos, vemos na nossa frente homens e mulheres de pele queimada, mãos grossas da lida com a terra, olhares cansados e, ao mesmo tempo, esperançosos com a luta, com os sonhos que carregam.


Eita, nessa hora a gente dá um suspiro, encontra um resto de saliva para molhar a garganta e engolir seco a miséria do mundo. A dor do mundo vem tudo dentro da gente, penso na responsabilidade que tenho ao tratar do tema, no risco de promessas infundadas. Tento um “fio de prosa”, a conversa se envereda para o que fazem, como fazem a produção. Corpos se movem em direção a sacas de farinha, de polvilho, garrafas de semente crioula, ao paiol de milho, ao galinheiro, ao chiqueiro, a produtos da indústria artesanal camponesa. Gesticular de braços, passos apressados, cabeça aprumada, olhar entrecruzado ao nosso, a timidez, a desconfiança, a fala segura substitui o comportamento reticente. O camponês e a camponesa que trabalham a terra e garante o sustento da família sentem orgulho do que fazem, ali há um fio de autoestima, de identidade.


Sorrisos, indicações das galinhas, dos porcos criados, das plantações realizadas. Um ou outro faz a gente esticar a hora até um cultivo de mandioca, de abóbora, enxadão na mão, cavucam a terra: “professor, leva para o senhor experimentar. ” Abrem a folhagem, mostram com alegria a abóbora sadia já no ponto de colheita. Alí se reafirmam como sujeitos honrados, trabalhadores, honestos, que só querem uma “terrinha” para morar, viver e criar a família. A tríade terra-família-trabalho tão versada nas pesquisas sobre o campesinato brasileiro se revela. A altura do sol e o ronco da barriga nos faz apertar o passo, descemos um leve declive, ao fundo um camponês com uma enxada prepara a terra para plantar “maniva.”


“Achegamos”, encosto conversa, pergunto porque não plantou, ele diz que está esperando a lua. Interesso na prosa, começo a bulir no conhecimento que move a lógica de plantio daquilo sujeito. Segundo ele, determinada lua não dá produção boa. O sol já não faz sombra, é hora da “boia”, cenoura, alface, rúcula da horta comunitária, arroz e feijão crioulo, banha de porco para temperar, carne de lata suína de mistura. Estômago forrado, realizamos mais um percurso, o sol já descamba na serra, é hora de partir, os registros escritos e fotográficos já foram realizados. Tomamos o rumo da cidade de Formosa, o estudante diz: “éeee..., a vida desse povo não é fácil né professor”, só balanço a cabeça num gesto de aprovação. Chego em casa, o estômago está revirando, anda desacostumado de comida com banha de porco.


No dia seguinte baixo as fotos no computador, crio um arquivo específico, o mesmo faço em relação a gravação efetuada do celular. Organizo minha sala de estudos, conecto o fone de ouvido e começo transcrever as falas dos homens e mulheres acampadas. Falas, expressões, sinto novamente as dores do mundo, as feridas do preconceito, da precariedade, da negação de direitos, do racismo, das violências simbólica, objetiva que atravessam a vida brasileira. Fico atento as reações, as dissidências, aos projetos, a negação do mundo que está aí. Fico pensando que a teoria que produzo parte da realidade concreta, desse mundo “cabrón e fudido” existente.


Tenho medo de narrativas, daquilo que vagueia de um conceito, de uma palavra para a outra como simples exercício da abstração. Sou um escrevinhador incomodado com a verdade, gosto das palavras que representam sujeitos de carne e osso, com suas mãos grossas, sua pele queimada, seu olhar cansado, atento e esperançoso, não sou muito dado a divagações e idealizações. Por isso que fico de “orelha em pé” com os gemidos, as dores, os projetos, as dissidências dos camponeses e camponesas brasileiras. Minha construção como pesquisador, o meu ato de pesquisa de campo não pode ser algo vazio, distante. Eu me misturo, sinto as dores e as esperanças desse mundo em movimento, depois me distancio, consulto um ou outro documento, algumas bases de dados, adiciono ao resultado do campo e escrevo, ouço meus pares, avalio, corrijo as rotas e sigo minha escrevinhação. Essa é a Geografia que tenho feito!!!!!!!!!!!!!!

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