Consciência popular e a condição do Brasil



Ronilton Rodrigues[1]


A ideia conservadora disseminada no Brasil, hoje, não é recente, ela vem desde muito tempo sendo imposta pela elite dominante, e estava caminhando para o fim até pouco tempo atrás. Foi preciso poucos acenos por parte dos interessados na estrutura opressora para que essa ideia voltasse com força para subterfugiar-se da mudança e retomar o lugar que tinha perdido na sociedade. As manifestações recorrentes pedindo o fim de Bolsonaro no poder, falam muito para aqueles que querem ouvir, e já para aqueles que olham os assuntos políticos superficialmente, ela é uma movimentação exclusivamente para pedir o fim dessa chacina arquitetada usando, como arma, a Covid-19.


É importante entender as motivações que levam os políticos a votarem pautas importantes para a manutenção do Estado, e é importante, também, entender como essas pautas se tornam ideias de políticas públicas a partir de projetos friamente calculados por aqueles detentores do poder econômico. É necessário ponderar os acontecimentos para que fique claro este processo político caótico que o brasileiro tem vivido nos últimos anos e que foi agravado pela Covid-19.


À consciência de parte da sociedade atualmente é limitada pela cultura da opressão, implantada pelo projeto explorador português desde o encobrimento dos povos originários. Ou seja, desde 1500 o Brasil é impossibilitado de pensar em liberdade de consciência. Não há um sentimento de renovação política pairando sobre a sociedade, pois não foi apresentado ao brasileiro a ideia de lutar por melhoria de vida ou mesmo de reivindicar por seu direito como agente permanente da sociedade. Este sentimento de indignação e descontentamento foi afogado pela elite dominante desde o início através da exploração irrestrita da mão-de-obra humana, como também, no tornar inacessível o espaço escolar as classes subalternas da sociedade. Este projeto é a única reminiscência que a elite está disposta a perpetuar na consciência do brasileiro, o de trabalhar para um dia ascender e sair da situação de subalternidade.


É inaceitável perpetuar na consciência da massa, o pressuposto de que trabalhando, ganhando um salário irrisório mensal, se chegará a mais alta das classes econômicas. O efeito paliativo de usar a exceção como forma de engajar o discurso meritocrático no Brasil é ilusório, principalmente por se tratar de um país de desigualdades sociais tão evidentes. A opressão está intimamente ligada ao projeto de subalternização, visto que é extremamente necessário reprimir qualquer tipo de pensamento revolucionário para que o sistema elitista não entre em colapso. Sabendo da necessidade da opressão para a manutenção do sistema, é importante saber como as políticas públicas são criadas e de onde partem, a modo de continuar o lucro dos grandes centralizadores do poder econômico.


Sabe-se que pessoas jurídicas não podem doar para financiar campanhas eleitorais desde 2015, quando o Supremo Tribunal Federal julgou inconstitucional tais doações, mas as doações financeiras de grandes empresários para campanhas eleitorais dizem muito, mas para aquele com olhar desatento e pouca leitura política supõe-se ser normal. Mas, está deveras enganado, não há nenhum sentido em doar para uma campanha eleitoral simplesmente por filantropia. Não generalizando, mas a doação nada mais é que uma forma de manter o político vencedor como fio condutor para implementar os projetos que partem da iniciativa privada, que visa unicamente os lucros.


Vale lembrar ainda que nem sempre os interesses da iniciativa privada vão ao encontro dos interesses da população em geral, população essa que deveria ser a única visão da classe política. O modelo de protagonismo do poder mudou bastante com o passar dos anos. Quando o Brasil vislumbrou à democracia republicana, a elite latifundiária fez valer seu poder econômico para dominar as casas legislativas, representadas por grandes latifundiários, que usavam de seu poder para pôr o povo no cabresto e forçá-los a votar nos poderosos ou em seus candidatos usando o poder da opressão. Isso ficou conhecido como a era do coronelismo[2].


Hoje quem está no cabresto são a maioria dos políticos, pois atuam de forma que as vontades da elite dominante sejam cumpridas e o projeto econômico neoliberal da autarquia econômica do Brasil continue com seus lucros estratosféricos. São raros os políticos e os partidos que não atuam em seus mandatos de forma que não tenham esse fio condutor com a iniciativa privada. Todo o partido que defende veementemente as causas sociais e trabalhistas deveriam ser elogiados, pois importam tanto com o desenvolvimento econômico, quanto com o desenvolvimento das camadas trabalhadoras.


É possível citar, com clareza, a vontade que o Partido dos Trabalhadores teve de construir uma sociedade forte, investindo no desenvolvimento das camadas subalternizadas. Partindo do entendimento de que o interesse do Partido dos Trabalhadores era o de desenvolver a sociedade começando pelas classes mais baixas, é possível entender, e também explicar, o motivo pelo qual a elite manifesta seu ódio para com tais políticas. Com o Partido dos Trabalhadores no poder foi possível ter os olhos cheios d’água, mas de alegria, pois em muito tempo a sociedade não prosperava de forma tão rápida como no governo petista, e aqui se fala de um país que por 500 anos foi explorado com tanto fervor pela elite. No período do governo petista, o trabalhador tinha seu salário justo e humano, conseguia moradia digna, e as vezes com o mínimo, conseguia financiar um carro novo.


Não é difícil explicar as motivações que levaram os grandes detentores do poder econômico a implantarem, com tanta pressa, o projeto de recuo dos direitos trabalhistas, do direito ao acesso universitário, dos direitos a cultura e lazer, pois para essa elite, o trabalhador tem apenas um objetivo de vida, a saber, o trabalho. Para ser honesto, é possível crer que para essa mesma elite, o objetivo mesmo era o de que, o trabalhador da base da sociedade vivesse um trabalho análogo ao serviço escravo, pois quanto menos direitos, melhor! Por isso aqui é apresentada a tese de que este pensamento não é recente, é um projeto de continuidade do sistema, antigo, e a polarização se dá pelo fato de que hoje não é tão fácil esconder da sociedade a face nefasta do neoliberalismo.


O Brasil desenvolveu bastante, mas ainda há muito o que caminhar para que o brasileiro tenha seus direitos não somente respeitados, mas também entenda seu poder de cidadão e seu real papel na sociedade. Os movimentos e as lutas que nascem após a emancipação universitária do povo é um exemplo nítido desse desenvolvimento político, o de entender o que está bom e o que está errado e contestar quando este está errado. É muito prazeroso para qualquer historiador ver tais movimentações acontecendo, pois pode ser que surja uma quebra de paradigma que já deveria ter sido feita a muito tempo. É prazeroso pelo fato de que se discute tanto questões como o fim do sistema colonial, que ainda permeia a consciência do povo brasileiro, porém, pis permanece infiltrado no capitalismo atual. História do imaginário fazendo morada, incitada pelas possibilidades, meus caros!


Nesse sentido, é necessário repensar como a história do Brasil é contada e quem são os heróis e vilões, quais contextos são analisados e pelo lado de quem a história é contada. Em suma, a história é sempre contada pelo lado vencedor, e é dever do historiador, partindo da ideia de Marc Bloch[3], dissecar as fontes até encontrar os fatos. É necessário (re)analisar a história para que não seja tido como herói nenhum personagem que contrarie a consciência de pertencimento de classe.


Até neste ponto, é importante lembrar quem são os vencedores, e está mais que claro neste texto quem são eles. Toda a história tem sido contada pela elite, seja ela membro da burguesia ou da aristocracia, e não há surpresa nenhuma nisso, visto que o acesso a cultura e ao conhecimento é negado ao povo de forma tão descarada. Um povo que se ocupa com o trabalho não tem tempo para questionar o que lhe é imposto como norma. É muito fácil entender diante de tudo o que foi escrito até aqui, as motivações que levam os grandes possuidores de capital a agir como surripiadores da vida humana e da liberdade de consciência. Para estes, a vida humana é apenas um ponto no gráfico, e é indispensável que se tenha isso em mente. A ideia da elite sempre foi e sempre será a de oprimir o trabalhador e afastá-lo do conhecimento. É importante, também, que isso seja lembrado por todos e a todo momento, pois é exatamente para continuar este projeto que os grandes têm tanto interesse no sequestro das políticas públicas no Brasil.


O elitismo brasileiro foi perdendo espaço, perdendo o protagonismo e a exclusividade dentro da sociedade nas últimas décadas. Mas, é nítido que mesmo diante de tantas políticas de inserção social, o abismo econômico continua entre as classes mais pobres e as classes mais abastadas, principalmente quando se observa o padrão de vida de cada uma delas. O rico continuou andando em seus carros luxuosos e vivendo em suas casas seguras de condomínio, mas a população que compõe a base da pirâmide social teve a oportunidade de experimentar, depois de tanto tempo, a dignidade de ter casa e carro próprio, educação de qualidade e poder de compra com os governos do Partido dos Trabalhadores.


No entanto, com a política conduzida pelo governo Bolsonaro toda essa conquista tem sido retirada aos poucos do brasileiro, com a inflação aumentando dia após dia, o dólar atingindo valores cada dia mais altos, e o poder de compra tem diminuído cada dia mais. É cada vez mais frequente ser noticiado, lugares onde as famílias não têm o que comer, e para um país que já foi a 6ª maior potência econômica mundial, situações de miséria e fome são inadmissíveis.


A crise sanitária que assolou o mundo, a Covid-19, tem papel importante neste recuo econômico do país, mas não tem o protagonismo. Este papel de protagonista está nas mãos do Governo Federal, que com sua péssima gestão, deixou com que a doença se tornasse o motor da crise econômica. Ao ter a chance de evitar a crise, preferiu negar o perigo e ainda tentou minimizar os efeitos colaterais da covid-19 para o país. Até o dia 27 de julho 2021, já passavam de 550 mil vitimados por uma doença que já tem vacina desde o final de 2020. Há, também, um vácuo na educação e milhões de desempregados. Deve-se atribuir responsabilidade para quem? Pois é sabido que o Governo Federal nega que tenha sido responsável, e que tomou as medidas necessárias. Além de um péssimo gestor, o presidente é um péssimo mentiroso! O objetivo aqui não é expor as obscuridades envolvendo o Governo Federal tão somente no combate ao vírus, mas também expor o nefasto lado pelo qual o Presidente Bolsonaro decidiu mostrar para a população, a saber, o de deixar o executivo federal nas mãos do centro político, o qual sabemos que é composto justamente pela elite do atraso tão falada aqui neste texto.


Diante das conquistas populares e das políticas públicas promovidas dentro dos governos do Partido dos Trabalhadores, foi produzido um golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff. A partir do golpe, a direita tradicional tem articulado e implementado suas propostas sem medo de ser contrariada ou enfrentada. Hoje, o desejo pelo impeachment de Bolsonaro é tão desejado e esperado pelo povo que, sabendo disso, o presidente tem articulado com seu governo ideias para fugir do processo. A forma como ele encontrou para fugir disso e manter-se no poder foi entregar as principais pastas do executivo federal para a direita fisiológica tradicional.


A ida de Ciro Nogueira para a Casa Civil é um marco definitivo do medo e disposição de Bolsonaro a entregar o que quer que seja para se manter no poder, e quem tem sido favorecido por esse medo de Bolsonaro, é justamente os partidos da elite do atraso. Conforme dito, no início desse ensaio, é necessário saber do projeto da elite para entender como as pautas vêm sendo votadas no legislativo. O fundo eleitoral está como proposta para ser um valor incrivelmente estratosférico, e o que deve ser analisado por aqui é, para acabar com a miséria que está em ascensão no país, o governo não tem caixa, mas para bancar um fundo eleitoral bilionário, tem! Algumas incoerências devem ser sanadas pela classe política, mas tais incoerências só serão sanadas através da pressão popular. Então, para aqueles que observam com olhos atentos os caminhos da política, as manifestações representam talvez não somente a queda do sistema elitista, mas também a possibilidade de queda dos surripiadores do centro ou direita fisiológica que compõe a câmara legislativa federal, aqueles que representam os interesses do neoliberalismo.


Portanto, é necessário que haja um aprofundamento analítico dos problemas que geraram as manifestações até o dia 25 de julho de 2021. Aprofundamento necessário para que as obscuridades e os projetos nefastos da elite sejam expostos para o povo, principalmente para aqueles que ainda se posicionam de forma contraria ao impeachment de Bolsonaro. É necessário levantar um questionamento sobre se é somente Bolsonaro que deve ser retirado do poder? É extremamente necessário haver um movimento de renovação na política, não somente no executivo federal, mas também no legislativo. O conservadorismo e o neoliberalismo devem ser extintos dos poderes executivos e legislativos, pois tais ideologias não podem ter lugar de fala em uma país tão diversificado como o Brasil.


Para que esses anseios sejam possíveis, é necessário vislumbrar, novamente, uma sociedade justa para o povo que carrega essa nação nas costas e nos braços a tanto tempo. Não é possível permitir a desconstrução das conquistas do trabalhador por essa elite maquiavélica, que infesta a política e preconizam o lucro a qualquer custo.




Notas:

[1] Discente do curso de História da Universidade Estadual de Goiás – Unidade Universitária de Goianésia. [2]Coronelismo - prática de cunho político-social, própria do meio rural e das pequenas cidades do interior, que floresceu durante a Primeira República 1889-1930. O coronelismo configurou como uma forma de mandonismo em que uma elite, encarnada emblematicamente pelo proprietário rural, controlava os meios de produção, detendo o poder econômico, social e político local. [3] Marc Léopold Benjamim Bloch (Lyon, 6 de julho de 1886 — Saint-Didier-de-Formans, 16 de junho de 1944) foi um historiador francês e um dos fundadores da Escola dos Annales.

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