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Derrota, aprendizado e erro: o que o governo ainda não entendeu


Texto de:


João Aparecido Gonçalves Pereira

Professor de Filosofia do Instituto Federal do Pará (IFPA). Mestre em Filosofia.

Giovani Delluc

Cientista Político e Consultor de Comunicação.



Recentemente, o Senado Federal rejeitou o nome indicado pelo Presidente da República para o Supremo Tribunal Federal. O episódio, por si só, já representa uma derrota institucional relevante. Mas seu significado vai além disso. Em um texto que publiquei no Além dos Muros, afirmei que essa rejeição não era apenas uma derrota, mas uma oportunidade de aprendizado. Essa leitura permanece válida. Mas é preciso avançar: aprender não é apenas compreender o erro, é corrigir a rota com rapidez e precisão. E, até aqui, essa mudança ainda não se mostrou de forma clara.


O que o episódio revelou é algo básico da política: uma coisa é o apoio declarado, outra é o apoio efetivo no momento decisivo. Como aponta Nicolau Maquiavel em O Príncipe, os homens são volúveis, guiados por interesses e movidos pelas circunstâncias. Na prática, isso significa que alianças políticas são condicionais e frequentemente se desfazem quando o custo de sustentá-las aumenta. Foi nesse ponto que ficou evidente: parte dos apoios considerados sólidos não se confirmou na prática. Mas há um segundo aspecto igualmente relevante. A política contemporânea continua sendo, em grande medida, um jogo de percepção.


Discursos públicos frequentemente enfatizam valores, princípios e posicionamentos morais. No entanto, no momento da decisão, o que prevalece são os cálculos estratégicos. Essa distância entre discurso e prática não é nova e já havia sido observada por Maquiavel ao tratar da importância da aparência no exercício do poder. O problema, portanto, não está apenas na derrota em si, mas na leitura estratégica feita a partir dela. Insistir no mesmo modelo de articulação, repetir movimentos e tentar reequilibrar forças dentro de um ambiente já desfavorável tende a aprofundar a fragilidade. Em termos práticos, é continuar jogando um jogo onde a desvantagem já foi demonstrada.


Ao transportar essa análise para o cenário político-eleitoral atual, o contexto se torna ainda mais sensível. O país se aproxima de uma disputa nacional marcada por equilíbrio entre forças políticas, com níveis próximos de intenção de voto e um eleitorado cada vez mais influenciado por percepções. Nesse ambiente, pesquisas deixam de ser apenas instrumentos de medição e passam a influenciar comportamento. Parte do eleitorado pode hesitar em declarar apoio, especialmente em contextos de desgaste econômico. E aqui entra um fator decisivo: a economia.


Independentemente de posicionamento ideológico, há um padrão recorrente: o eleitor responde à sua experiência cotidiana. Percepções como pressão tributária, perda de poder de compra e alto nível de endividamento familiar pesam mais do que disputas institucionais. Isso impõe uma necessidade estratégica clara: demonstrar capacidade de entrega e controle da agenda. No entanto, quando há dificuldade em aprovar pautas relevantes ou transformar articulação política em resultados concretos, o impacto não é apenas institucional. É também simbólico. Perde-se algo essencial: a percepção de força.


Como destaca Robert Greene em As 48 Leis do Poder: o poder não se sustenta apenas na sua existência, mas na forma como é percebido. Derrotas públicas, quando não geridas estrategicamente, enfraquecem esse ativo. Outro ponto relevante é o fator humano no exercício do poder. Lideranças com longa trajetória tendem a confiar em seus próprios métodos, o que pode dificultar ajustes táticos em cenários dinâmicos.


Em ambiente de alta competitividade, insistir em estratégias que já não produzem o mesmo efeito pode se tornar um erro recorrente. Diante disso, a questão central volta a um princípio clássico: base de sustentação. Mais do que depender exclusivamente da articulação com elites políticas, que operam por interesse e são voláteis, governos precisam fortalecer sua conexão com o apoio popular. É esse apoio que sustenta decisões difíceis, pressiona o sistema político e reequilibra relações de poder.


Sem essa base ativa, qualquer governo passa a depender excessivamente de negociações instáveis. É nesse ponto que entra uma dimensão prática ignorada até aqui. A próxima indicação ao Supremo não pode ser apenas técnica ou institucional. Precisa ser também estratégica. Uma indicação com forte simbolismo social, como a de uma mulher negra, tem potencial de alterar o eixo da disputa. Não se trata apenas de identidade, mas de estratégia.

Uma decisão como essa amplia o debate público, mobiliza segmentos da sociedade, gera pressão legítima fora do ambiente institucional e reduz a dependência exclusiva de negociações de bastidor. Em termos práticos, muda-se o jogo. Desloca-se da lógica restrita das elites e entra-se na lógica de mobilização social. Isso reforça um ponto central muitas vezes negligenciado: apoio popular não é acessório. É ativo estratégico de poder.


A derrota recente no Senado não foi apenas um revés pontual. Foi um sinal claro de fragilidade na articulação e, principalmente, de ausência de pressão externa capaz de sustentar decisões estratégicas. E, em um cenário eleitoral competitivo, sinais ignorados tendem a se repetir, geralmente com custo maior.


No fim, a escolha permanece simples: ou se ajusta à estratégia, ou se repete o erro.

1 comentário


Muito boa análise! Parabéns professor João Aparecido!

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