Deus é Mulher



Em tempos sombrios, resultando em perseguição às minorias, de ruptura institucional, do poder absoluto da justiça, em muitas ocasiões, injusta, de bancada evangélica, da homofobia, da apologia à ditadura, de assombro da fome nas mesas de milhões de brasileiros, do aumento da mortalidade infantil, crescimento no número de desempregados, e tantas outras mazelas, estrategicamente produzidas, o povo sofrido desse país, por incrível que pareça, resiste.


A resistência surge por meio de diferentes lugares, e atores sociais, com destaque para as manifestações artísticas. Dentro de um espaço que se teme o amanhã, a arte continua sendo o principal mecanismo para ludibriar os poderes oficiais, para desdizer, o que acabou de dizer, dizendo. Brincando com as palavras, a arte questiona, impulsiona e traz esperança.


É evidente que o conceito de arte é amplo, e não cabe, nesse espaço, procurar defini-la. Aliás, as definições, geralmente, contribuem pouco para se entender determinado fenômeno social, ainda mais tão complexo como o objeto em questão. Se a definição pouco contribui, a síntese é importante, porque por meio desse elemento particular, pode se chegar a compreender, minimamente, o todo.


No Brasil moderno e contemporâneo, a síntese da arte atende pelo nome: Deus é Mulher. O nome, por si só, emblemático, provocativo e realístico, é do novo álbum de Elza Soares. A síntese da arte(s) brasileira pode ser pensada por meio das canções interpretada por Elza, nesse álbum, que apresenta os problemas de ontem, e representa tão bem os desafios de hoje e de amanhã.


O historiador Marcos Napolitano (2005) diz, em seu importante livro “História e Música”: “A música não é boa somente para ouvir, mas para fazer pensar”. Assim, Deus é Mulher consegue conciliar o prazer de ouvir excelentes músicas, com reflexões profundas, além das melodias que envolvem samba, reggae, rap, funk e outras batidas da resistência.


É um híbrido de identidade do povo sofrido desse país, que acorda cedo com à metralhadora na cara, que morre pelo fato de ser mulher, que não pode usar a roupa que deseja, tampouco manifestar sua crença, porque a mordaça de um estado, que deveria ser laico, está pronta para calar a fala.


Elza, com sua voz estridente, rompe e penetra nos muros do conservadorismo, interpretando canções como: “O que se cala”, “Exú nas escolas”, “Banho”, “Eu quero comer você”, “Língua Solta”, “Deus há de ser” “Credo” e outras, totalizando treze músicas, possibilitando importantes mensagens para os desalentados, sintetizada, mais uma vez, nessa estrofe que abre o álbum: “Minha voz, uso para dizer o que se cala, o meu país, é o meu lugar de fala”.


Provavelmente o álbum de Elza não ganhará como disco do ano, o que pouca importa, o mais importante é ver que a arte brasileira pulsa e clama por democracia. O sentido generalizante é intencional, porque “Deus é Mulher” representa os saberes artísticos de um país e de um povo pobre, oprimido, mas sábio, porque, mesmo diante do caos, acredita nas flores vencendo o canhão, ou melhor, acredita na força das flores vencendo as páginas distorcidas da Bíblia.


Mais do que nunca, ouçam Elza Soares.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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