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Imperialismo no século XXI: uma breve leitura sobre a Venezuela

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Uma parcela considerável da sociedade acompanha incrédula a condição da Venezuela e, não menos importante, os desafios experenciados por outros povos nas mais diferentes regiões do mundo. O poder do imperialismo, apesar de setores liberais afirmarem que os sentidos e os significados do conceito se tornaram obsoletos, demonstra sua forma de atuação e coerção da maneira mais explícita possível. Diante de um modelo econômico de sociedade – capitalismo – que não deseja promover uma transição energética justa e sustentável, especialmente para os países do Sul Global, vítimas históricas dos colonialismos, neocolonialismos e, consequentemente, dos regimes imperialistas, totalmente dependente dos combustíveis fósseis no tempo presente, os territórios ou países que possuem as maiores reservas estarão constantemente ameaçados pelo Império.  


Na situação da América Latina, desde o Oitocentos, o poderio do imperialismo assombra a totalidade dos países. Muitos desses povos ousaram resistir e as consequências foram desastrosas. Tantos outros procuraram um alinhamento ideológico e pragmático com o Império, acreditando que a subserviência resultaria em um poder coercitivo menos violento. Amarga ilusão. Historicamente, o imperialismo estadunidense não ignorou ninguém, porque, dentro de uma lógica coercitiva, não existem aliados, mas somente os subservientes de uma política de destruição. A afirmação não configura uma hipérbole, podendo ser identificada por meio de uma leitura cuidadosa e sensível para as consequências práticas do imperialismo na América Latina: ditaduras, violência, milhares de mortes, endividamento dos países, empobrecimento da população e extração em larga escala das riquezas minerais/naturais.


Os desdobramentos do tempo presente, representados na intervenção na Venezuela e na prisão do presidente Nicolás Maduro, são uma faceta de um antigo e, infelizmente, conhecido problema. No entanto, diferentemente das estratégias do projeto idealizadas e consolidadas em outras experiências, quando a palavra democracia era apresentada como uma justificativa para se intervir nos países, procurando, de acordo com o discurso hegemônico, destituir um governo autoritário e implementar uma transição para um regime democrático-liberal, na circunstância contemporânea, não existe mais a preocupação de se construir um verniz para a intervenção imperialista. O objetivo foi descortinado da maneira mais direta possível, sem eufemismo. A saber: Petróleo.


A Venezuela, conforme noticiado, encontra-se na condição de o país com as maiores reservas de petróleo. Porém, diante do bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos no decorrer das últimas décadas, a extração do recurso tem enfrentado consideráveis restrições, impactando diretamente nas condições econômicas tanto do país quanto da população venezuelana. Nos últimos anos, acompanhamos cotidianamente a migração de milhares/milhões de venezuelanos, procurando refúgios em outras regiões da América Latina, não excetuando o Brasil. Evidentemente que a crise econômica na Venezuela está associada à incapacidade do governo Maduro, extremamente militarizado, de diversificar a economia e distribuir riqueza entre a população. No entanto, uma crise econômica não se explica somente por um vetor.


Nesse ensejo, além da incapacidade ou dificuldade do regime, não restam dúvidas de que o bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos teve um efeito mais acentuado na economia venezuelana do que os empecilhos do governo. Difícil fazer uma projeção sobre qual seria a condição econômica do país bolivariano se não fosse a interferência estadunidense. No entanto, possivelmente a situação seria menos dramática do que aquela que, infelizmente, tomamos conhecimento no decorrer dos últimos anos. Se a projeção é difícil ou mesmo impossível para algumas situações, na condição atual, com a interferência direta dos Estados Unidos, evidenciando o poder do imperialismo no tempo presente, controlando tanto as riquezas naturais da Venezuela, de forma especial o petróleo, quanto os próximos passos do governo, indubitavelmente a condição socioeconômica dos venezuelanos será ainda mais agravada.


O imperialismo se move por meio dos interesses capitalistas. No capitalismo não existe preocupação com a distribuição de riquezas e, consequentemente, com a construção de uma melhora na condição de vida das pessoas. O capitalismo é um regime movido pela acumulação, pelo desejo insaciável de lucro para alguns — detentores do capital — e por uma exploração intensa da classe trabalhadora. Entretanto, a situação se intensifica quando um país se encontra submetido aos interesses de outrem. Condição atual da Venezuela.


Maduro cometeu inúmeros erros, estando distante de representar os ideais de uma esquerda democrática e comprometida com os anseios da população venezuelana. Porém, diante da intervenção estadunidense, imaginar ou acreditar que a condição de vida dos venezuelanos passará por uma melhora significativa, inclusive na consolidação dos princípios democráticos, demonstra não somente um equívoco na análise da geopolítica, situação na qual todos e todas estão suscetíveis, mas um compromisso ideológico com os poderes vigentes. Para os donos do poder — detentores do capital —, a intervenção representa uma possibilidade de aumentar os lucros. Para a maioria da população, uma certeza: a exploração se acentuará.


Diferentemente de uma leitura fortemente presente no debate público do campo popular e progressista, possivelmente mais um desejo do que qualquer outro sentimento, a intervenção na Venezuela não significa o fim do imperialismo e da hegemonia estadunidense, mas a continuidade de uma política de interferência na América Latina desde a primeira metade do Oitocentos. Nesse ensejo, não estamos presenciando o enfraquecimento, mas o fortalecimento de uma lógica de domínio econômico e político a serviço dos interesses do Capital.

2 comentários


Lindomar Costa
Lindomar Costa
há 9 horas

Grande constatação: "não existem aliados, mas somente os subservientes de uma política de destruição". É a doutrina de Monroe sempre aplicada no cotidiano latino-americano.

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lucas.ribeiro
há 5 horas
Respondendo a

Lindomar, agradeço a leitura atenta e a consideração de sempre. Sim, você tem toda razão, acompanhamos a continuidade da doutrina Monroe. O poder do Império, meu amigo, continua muito ativo no continente. Um forte abraço!.

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