Memória social, depredação de estátuas e reparação histórica


Jéssica Meireles Pereira[1]


A história se movimenta como uma ciência que se liga ao tempo. Tempo esse, sempre móvel. Assim, a história não poderia ser estática. E é por isso mesmo que ela apresenta rupturas e continuidades que constroem os seres sociais. Foucault, por exemplo, entende as temporalidades históricas (porque o tempo é múltiplo) como fundamentadas nas relações de dominação, onde “as forças que se encontram em jogo na história não obedecem nenhuma destinação, nenhuma mecânica, mas ao acaso das lutas”. Ou seja, as transformações das relações sociais, inclusive as de dominação, impulsionam a história a se mover e revelar os sujeitos históricos que antes eram detidos por forças de poder, frequentemente violentas e marginalizadas.


Trago tudo isso a fim de pensarmos a memória social por trás da depredação e destruição de estátuas que serviram para homenagear personagens violentos, autoritários e que contribuíram com o genocídio indígena e negro em nosso país. No dia 24 de junho, a estátua do bandeirante Borba Gato, na Zona Sul de São Paulo, foi incendiada. Alguns dias depois, o ativista Paulo Galo foi preso acusado do incêndio. Membros da elite paulista se posicionaram para pagar a restauração da estátua. O bandeirantismo foi responsável pelo aprisionamento de indígenas no sertão brasileiro para a manutenção do trabalho escravo. Notáveis pela violência, os bandeirantes contribuíram para o extermínio em massa de grupos étnicos que resistiram as investidas.


Outro caso recente aconteceu na Colômbia, onde manifestantes derrubaram a estátua de Cristóvão Colombo, outro personagem outrora exposto como herói, desnudado pela história que mostrou a violência da colonização desde o primeiro contato entre europeus e ameríndios. Em seu lugar, os colombianos ergueram a bandeira da Whimpala, símbolo dos povos tradicionais andinos.


Ambos os eventos configuram casos de reparação histórica e de fomentação da memória social. Ao se movimentar, a história revela os símbolos, as representações, estruturas sociais, muitas vezes consolidas em opressão. Um país que realmente conhece a sua história não resguarda o que o violenta. O Brasil ainda não se descolonizou totalmente, vive na negação e no revirar dos olhos para os eventos sanguinários no qual se construiu. Manter os símbolos que homenageiam os eventos truculentos não é reconhecer a nossa história e sim esconder o sangue derramado para debaixo do tapete.


Essa emoção da elite brasileira com a depredação de personagens como o de Borba Gato, e a apatia aos que homenageiam figuras do povo, não tem a ver com a manutenção da história, mas com a manutenção das estruturas opressoras de poder, a qual esse grupo se sustenta. Vale lembrar que essa comoção para a preservação da história não ocorreu diante do incêndio do Museu Nacional, negligenciado pelo próprio Estado.


O poder público, muitas vezes dificulta a mobilização da memória social, através de ações que contrariam a história, seja de dimensão local ou nacional. A cidade de Itapuranga, por exemplo, assim como outras no Cerrado goiano, negligencia a sua própria ancestralidade, a ponto de sua nomenclatura vir de uma etimologia tupi, que remete aos longínquos indígenas do litoral. Enquanto isso, os povos Jês, originários da região, que padeceram nas mãos dos “heróis coloniais”, a partir das políticas indigenistas de aldeamento no Brasil colônia, são desconhecidos.


Itapuranga ainda detêm, na praça principal, o busto do ditador Castelo Branco, personagem da ditadura militar brasileira (1964-1985), um período de repressão, autoritarismo, tortura e morte. Várias pessoas entraram para o grupo de desaparecidos, assassinados pelas mãos do Estado militar. Sabendo disso, a maioria dos vereadores itapuranguenses tiveram a oportunidade de participar de uma reparação histórica, com a oportunidade de aprovar um projeto que renomeava a praça Castelo Branco, para Praça Professor Emerson José Campos, pessoa exímia que contribuía para o desenvolvimento da consciência social na cidade, falecido este ano por conta da Covid-19. Porém, grande maioria da bancada compactuou em manter a antiga nomenclatura, optando pela permanência de uma velha estrutura de opressão, mesmo que simbólica.

Assim como Tarantino se mobilizou através da ficção em reescrever os eventos históricos que marcaram a Segunda Guerra Mundial no Filme Bastardos Inglórios, ao queimar nazistas e o próprio Hitler em um cinema, o fogo na estátua de Borba Gato é um combate as estruturas tradicionais que hoje nos revelam de mãos dadas com o fascismo.


Como escreveu Renato Franco “A memória social não pode jamais deixar de reconhecer as catástrofes políticas, os assassinatos coletivos, os massacres dos humilhados e dos ofendidos, a barbárie, a tortura sórdida contra vítimas indefesas: ela é o único instrumento para sabermos do que nossos antepassados foram capazes”. A memória social combate a negação e o esquecimento, e justamente no esquecimento que surge o enaltecimento de “heróis nacionais” que estupraram, depredaram, mataram, suprimiram a liberdade e propagaram o genocídio, construindo um país sobre corpos indígenas e negros.


Para manter uma estátua como aquela do Bandeirante, erguido em Goiânia, é necessário informar quem realmente era o “diabo velho” que caçava os povos originários. Para manter uma estátua como a de Castelo Branco em Itapuranga, é necessário, no mínimo, uma placa que enumere a quantidade de mortos registrados e desaparecidos na ditadura.


É claro que a memória precisa ser preservada, é aí que abrimos os museus, os debates, as salas de aula, para que essa violência estrutural seja desmontada. Tendo como exemplo o museu do holocausto, precisamos de museus que recontem a história da escravidão e da ditadura. Mas as honrarias, os nomes e o reconhecimento do espaço público são para aqueles e aquelas que contribuíram para com a humanização da nossa sociedade e não para aqueles que a violentaram.


Portanto, sobre isso, reafirmando a mobilidade da história, a exaltação da memória social, é preciso queimar, renomear, pois os símbolos nunca são só símbolos. Quando os grupos marginalizados recuperam sua história, a ressignificação é exigida, os poderes se desestabilizam, os heróis não eram heróis e as estátuas precisam cair. Por fim, confesso que ao menos em meu íntimo aquela praça, hoje, carrega o nome de um professor.



[1] Professora de História da Universidade Estadual de Goiás – Unidade Universitária de Itapuranga. Mestra em Ciências Sociais e Humanidades.

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