Modernização do território e desnaturalização das redes técnicas: uma contribuição ao debate sobre


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CASTILHO, Denis. Modernização territorial e redes técnicas em Goiás. 2ª Edição. Goiânia: editora UFG, 2017, 232 p.

Jean Carlos Ribeiro de Lima

Universidade Estadual de Goiás

jean_ribeiro_lima@hotmail.com


Palavras-chave: Modernização territorial; redes técnicas; Goiás; Brasil.

Keywords: Territorial modernization; technical networks; Goiás; Brazil.

Palabras clave: Modernización territorial; redes técnicas; Goiás; Brasil.



De autoria de Denis Castilho, Modernização Territorial e Redes Técnicas em Goiás, já em sua segunda edição, é resultado de pesquisa desenvolvida junto ao Instituto de Estudos Socioambientais (IESA) da Universidade Federal de Goiás (UFG). O livro discute os efeitos das redes técnicas no processo histórico de modernização territorial, partindo de uma análise do território goiano sempre considerando o contexto nacional. Um dos elementos de maior notoriedade, na discussão empreendida por Castilho, é a desnaturalização da modernização frente ao ímpeto das redes técnicas. Isto é, o autor se preocupa em revelar como a modernização, via instrumentos e redes técnicas, se apresenta e se coloca como contraditória, uma vez que expõe o modo como o capitalismo se expande pelos lugares. Diante disso, nos adverte para os processos que envolvem conflitos, interesses e articulações políticas que a modernização, encarnada no desenvolvimento de circuitos técnicos, representa.


Com o objetivo de analisar o conceito e os sentidos da modernização, bem como compreender a dimensão territorial desse fenômeno, Castilho chama atenção para os seguintes aspectos: a) refletir sobre o conceito de modernização e suas implicações pragmáticas no território goiano; b) abordar as redes técnicas em um contexto nacional e regional (Goiás) e c) compreender as influências e transformações sociais, políticas e econômicas propiciadas por esse processo de modernização via redes técnicas. Como observa-se, o livro procura construir um edifício hermenêutico concernente ao desenvolvimento e aprimoramento de redes técnicas (ferrovia, rodovia e energia elétrica) em que estes contribuíram (e contribuem) para o estabelecimento de uma modernidade intermitente, na qual o tripé formação-política-ação concorre para a expansão e, logo, reprodução do capital pelos lugares.


De outro lado, conforme indica Castilho, é de fundamental importância perscrutar os efeitos dessa modernização no âmbito das estratégias, dos interesses e da ideologia. O resultado desse processo de modernização pelo sentido das redes técnicas, que se verifica no conjunto da sociedade, é evidenciado pelas desigualdades sociais, econômicas, bem como pelos conflitos envolvendo distintos segmentos sociais. No sentido prático, a modernização, via redes técnicas, envolve grandes projetos políticos, econômicos e ideológicos atinentes aos interesses de grupos ou classes específicas. “Em outras palavras, a espacialização é uma condição basilar da expansão da modernização. Sua configuração é cada vez mais determinada pela formação de redes e conexões, mais precisamente pelas questões políticas, o que justifica a opção em denominar esse processo de modernização territorial”[i].


Isso posto, o autor se posiciona resistente às interpretações, não raras e muito comuns, das teorias dualistas e à naturalização da modernização, especialmente nas abordagens territoriais sobre Goiás. Para tanto, é necessário ir além das concepções dualistas (moderno/atrasado, centro/periferia) e escapar do conforto da naturalização dos fenômenos, com muito bem adverte o livro. É preciso analisar os eventos que concorrem no âmbito social, político, econômico, social e cultural em um processo que envolva diferentes tipos de leituras e interpretações. Consequentemente, a naturalização dos processos modernos serve para tornar dúbia a reflexão sobre as contradições e os conflitos gestados pela modernização. É nesse campo de interpretação que Denis busca alertar uma posição da literatura e da historiografia goiana que priorizam, exaustivamente, a questão da modernização agrícola apartada de outras matrizes temáticas, a exemplo da urbanização e/ou metropolização, e vice-versa. Adverte que ambos os processos, modernização agrícola e urbanização, compõem, cada qual, um mesmo movimento, pois se entrecruzam dialeticamente e influenciam a perspectiva integrada da modernização. “A modernização, portanto, não é apenas agrícola, agrária ou urbana (para não dizer industrial), nem se restringe a algumas regiões. Ela é territorial porque os processos que dela derivam tem uma característica essencialmente política e, por meio das redes e da atuação de grupos sociais, atinge diferentes áreas de maneira integral, sejam elas urbanas ou rurais”[ii].


Ao defender que as redes técnicas se constituem como elemento da expansão do capitalismo pelos lugares e, também, como estratégia de irradiação da modernidade por determinados grupos ou classes, Denis assinala que em Goiás a modernização não se desenvolveu somente pelo aspecto político, mas também pelo elemento técnico, principalmente a partir do final do século XIX e início do XX. Do ponto de vista político, os grupos locais dominantes possuíam grande influência na estrutura de poder do Estado[iii] e na manutenção de seus interesses. Por outro lado, no aspecto técnico e econômico, a modernização em Goiás acompanhou o desenvolvimento e expansão de importantes redes técnicas das regiões Sul e Sudeste, especialmente no que se refere às redes de transporte (rodovia e ferrovia) e, posteriormente, à energia elétrica.


O livro também evidencia que em Goiás “[...] a implantação da rede ferroviária foi um dos elementos indutores da modernização no estado, demonstrando o papel pioneiro dado aos trilhos e sua influência no conjunto das transformações territoriais durante as primeiras décadas do século XX”[iv]. Para subsidiar a proposição de que o Estado demonstrou ser um importante condutor da modernização territorial a partir do século XX, o autor lança mão de tabelas, ilustrações, mapas e fotografias, além de documentos e fontes orais.


De início, procura assinalar a importância da ferrovia no conjunto do sistema de transportes no Brasil, mesmo diante do avanço vertiginoso da rede rodoviária pelo país. Logo, deixa em evidência que a malha ferroviária, no processo de sua formação, se consolidou a partir das regiões litorâneas, com destaque para o Sudeste. Por conseguinte, pontua que a rede ferroviária recebeu robustos estímulos financeiros de capitais privados, tanto nacionais e/ou internacionais (este último tendo uma participação considerável da Inglaterra). O objetivo central da implementação da malha ferroviária no Brasil, no século XIX, principalmente, foi o de escoar os produtos primários que eram produzidos no interior e transportá-los para o litoral, de onde seriam exportados, em especial, para os países europeus. É nesse sentido que as ferrovias foram se estruturando, ou seja, do interior para o litoral na propositura de favorecer uma economia exportadora de produtos de primeira necessidade, o que denota uma estratégia que atendia às necessidades do mercado externo.


Em Goiás, “a implantação de redes de transportes, principalmente da ferrovia, foi um importante elemento para a emergência da modernização”[v]. Mormente às dificuldades encontradas para a implantação da rede ferroviária nesse estado (em especial, no que diz respeito às articulações políticas e econômicas), os primeiros passos concretizados, rumo à construção de uma ferrovia no território goiano, ocorreram no início século XX, com a criação da Companhia Estrada de Ferro Goiás, em 1906[vi]. Nos anos de 1913 e 1914 foram inaugurados trechos em Goiás que interligavam as estações de Anhanguera, Cumari, Goiandira, Veríssimo, Engenheiro Raul Gonçalves, Ipameri, Urutaí, Inajá e Roncador[vii]. Importa destacar o fato de que a implantação da Estrada de Ferro Goiás acarretou não apenas alterações na dinâmica político-econômica do Estado, mas estruturou-se em relações de trabalho ainda muito próximas à escravidão[viii]. A ferrovia, segundo Maria Lúcia Lamounier, propiciou “uma nova experiência de trabalho por conta do tamanho, complexidade da empresa, do grande número de trabalhadores que exigia, da diversidade do leque de operações que envolvia na organização”[ix]. Essa “nova experiência” das relações de trabalho, no âmbito da construção das ferrovias em Goiás, deu-se a partir de diversas formas de exploração do trabalho e do trabalhador.


Em razão da vertiginosa expansão que o trabalho de construção de ferrovias exigia, tanto de mão-de-obra qualificada quanto não-qualificada (que constituía, neste caso, a maioria do contingente de trabalhadores), a exploração do trabalho, de acordo com Castilho, se efetivava por meio da “ideologia do esforço coletivo”, contração de dívidas pelo trabalhador para com o empregador, bem como de excessivo e compulsório emprego de força diária de trabalho, isso sem contar os casos de mortes ocorridas ao longo da construção de trilhos


É de se considerar que a ferrovia integrou algumas regiões goianas a outras regiões de expressiva repercussão econômica, o que demonstra o estabelecimento de uma dinâmica específica nos lugares. Afirma o autor que “os trilhos ocasionaram mudanças significativas, especialmente no Sudeste Goiano. Além das exportações de produtos agropecuários, também eram realizados transportes de trabalhadores, migrantes e até de famílias inteiras”[x]. Desse modo, “[...] foi pelos trilhos que as lógicas capitalistas adentraram o território goiano”[xi]. Não obstante, a partir de 1940, a ferrovia decaiu como mote da organização produtiva e integradora das regiões economicamente ativas, isso em grande parte pela política de substituição de importações e pela construção de rodovias[xii]. De outro lado, Castilho destaca que a modernização territorial, por meio das redes técnicas em Goiás, teve como um dos elementos centrais os trilhos, uma vez que contribuíram para a integração produtiva e econômica, bem como para o crescimento populacional e criação de determinadas cidades.


Em relação à rede rodoviária, o livro apresenta o processo de surgimento e a evolução dessa rede a nível nacional e regional (Goiás). As rodovias surgiram no território brasileiro a partir do século XX e obedeceram a certas lógicas que estão associadas a fatores diversos, muito particularmente no que se refere ao aspecto econômico. Consoante à discussão apresentada no livro, os fatores que explicam a criação e evolução das rodovias no Brasil são: a) Industrialização (substituição de importações, demanda por produtos manufaturados); b) baixo custo e uma melhor dinamização/flexibilização de carga, descarga e transporte; c) deterioração do sistema ferroviário e marítimo; d) política de financiamento e criação de programas, departamentos e investimentos no setor rodoviário; e) criação da Petrobrás e desenvolvimento da indústria automobilística; f) convênios internacionais e a construção de Brasília[xiii].


Os fatores que condicionaram o crescimento das rodovias no Brasil circunscrevem-se ao longo do processo histórico que compreende as primeiras décadas do século XX. Além do contexto de industrialização, a decadência da rede ferroviária foi um aspecto relevante para o desenvolvimento da rede rodoviária nesse país. Assim, houve uma inversão na ordem de importância dos transportes, uma vez que antes as rodovias cumpriam funções complementares à malha ferroviária, passando, agora, a constituir-se como rede mais utilizada no segmento de transporte. No âmbito do desenvolvimento da rede rodoviária em Goiás, um aspecto histórico mereceu destaque: de que as rodovias de hoje são resultantes dos “caminhos pioneiros” e primeiras estradas abertas no território goiano. Provenientes de uma conjuntura socioeconômica que abarca o século XVIII ao XIX, em que as Entradas, Bandeiras e a Mineração foram a motivação maior para se abrir caminhos e estradas rumo ao interior, partindo do litoral, as rodovias modernas goianas – ao menos algumas delas – conservam os traçados originais que dantes possuíam, tal como defendido por Antônio Teixeira Neto