O CHÃO DA ESCOLA



Adentro em meio aos vãos da comunidade quilombola Kalunga, para uma história de gentes lhe contar.


Éramos muitos, com uma vontade enorme de estudar. Alguns tiveram que até para se cidade se mudar, escola aqui já não temos, é preciso o ônibus esperar. Os meninos acordam cedo, comem uma paçoca de carne seca pro jejum quebrar. Comida agora só na merenda, pois saem de casa ainda escuro e voltam depois que o sol entrar! Vou deixar Iaia e o compadre Zé lhes falar.


Lembro compadre Zé, que o chão da nossa escola foi o Cerrado. Os ‘menino’ ajudando no carpir e as ‘menina’ na labuta da casa. Conhecíamos cada palmo deste vão, do brejo que dava a água de bebê pra nós e os bichos às grutas que nossos antepassados afirmavam ter encantados guardiões de ouro, não podíamos nem lá chegar.


Nem me fale comadre Iaia, tempo bom foi aquele. Eu corria pelo campo de capim barba de bode fugindo do trabalho duro que era de foice e enxada, a mão tão pequena já era calejada. Hoje vejo o ônibus chegar para buscar, no nosso tempo era no lombo da burra ou caminhando nos trilheiros íamos até a cidade.


Andávamos léguas atravessando serras e rios para o pouco que produzíamos vender e para casa trazer: açúcar, sal. Os animais já conheciam a estrada, sabiam das pedras afiadas, do chão movediço de poeira no mês de agosto e setembro, pareciam dialogar com o vento que vinha da Serra de Santana apontando a direção.


Escola por aqui, a esta demorou chegar e também foi logo acharam um jeito tirar! Na Malhadinha meus filhos ainda estudaram, lembro deles se aprontando para aula, a professora vivia com a orelha quente coitada, pois os ‘menino’ não tiravam seu nome da boca, era como doce de buriti.


Compadre Zé, aquela professora era muito bondosa, trazia lápis e borracha pra todo mundo, pois a prefeitura aqui não sabia chegar, fazia a merenda e até ajudava com remédio para os que estavam adoentados. Os recursos eram poucos, mais os primeiros a terminar a quarta série na cidade foram morar. Aí foi outra luta, pra estes meninos lá ficarem, era na casa de um e de outro. Trabalhavam em troca de favor, muita coisa tiveram que passar. Alguns conseguiram terminar o ensino médio, mas outros voltaram pra cá, só tem um pouco de letra, o nome sabem assinar.


Comadre Iaia, a escola é distante do nosso povo, poucos conseguiram chegar até ela e permaneceram. Os que permaneceram têm pele grossa, resistiram ao preconceito, ao olhar colonizador ainda presente até nos espaços públicos. Veja só que hoje minhas netas/ netos estão na universidade, e os seus também, um lugar nunca antes ocupado por um de nós.


É Compadre Zé, (r) existimos e precisamos (r) existir, pois o chão da escola não se apresenta da mesma forma para todos, seja aqui no nordeste goiano ou no sul do país teremos desigualdades na infra-estrutura, na formação e capacitação de professores... Temos uma educação que exclui e oprimi negros e brancos pobres que não têm espaço para falar sobre a possibilidade de uma educação que emancipa, construída de forma democrática e participativa.


Já pensou comadre, se os nossos pudessem as leis pensar? Não foi atoa que Cavalcante elegeu o primeiro prefeito Kalunga, pois ele conhece as lutas, (re) significou e quilombolizou espaços ocupados por oligarquias. Quero está vivo para conhecer a escola quilombola implantada aqui no território, poderia ser lá no Vão de Almas, mas eu gostaria de contribuir. Assim teríamos a oportunidade de aproximar a escola do Cerrado (nossa casa) e nos reconectaríamos com nossas origens sem tirar da nossa juventude a possibilidade de conquistar outros espaços ou inclusive trazer para a comunidade o que apreenderam na universidade, o que sintetizaria a concepção de um novo olhar sobre um antigo território com novas territorialidades.


Compadre Zé esta prosa nos revirou memórias e nos permitiu refletir sobre os desafios que ainda temos enquanto negros e cidadãos brasileiros, além disso, nos rendeu boas doses de café.


Saindo dos vãos e indo em direção às planícies do planalto central, percebemos que as reformas da educação propostas pelo governo federal são contrárias ao sonhado pela comadre Iaia e pelo compadre Zé, carecendo do envolvimento de toda a sociedade para ampliarmos os debates, fortalecendo a necessidade de uma educação emancipadora para todos.


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