Povos da floresta e cientistas: uma única voz



Quando, no final de 2019, as primeiras notícias de um vírus contagioso circulando na cidade de Wuhan passaram a ser publicadas nos jornais de grande circulação, exceto os/as cientistas especializados/as, virologistas, epidemiologistas, imunologistas e povos ancestrais das florestas tinham a verdadeira dimensão do grande risco que o coronavírus representava para a população mundial, porém, o restante da sociedade se deparou com um problema novo e, no primeiro momento, não atribuiu a devida importância. Aliás, esses cientistas, somada às vozes de ambientalistas e povos da floresta têm, ao longo das últimas décadas/séculos, reivindicado à necessidade de uma mudança urgente no modo de produção capitalista, principalmente porque esse modo de produção invade os espaços naturais, colocando seres humanos em constante contato com diferentes tipos de vírus e potencialmente com novas doenças.


A defesa em torno da transformação radical no modo de produção significa, prioritariamente, respeito ao meio ambiente e a toda a sua diversidade. Por exemplo, quando se fala da necessidade de a sociedade cuidar da natureza, cuidar do planeta Terra como se fosse uma grande casa comum, conforme tem defendido importantes ambientalistas no Brasil, tais como Eliane Brum, Ailton Krenak, Ivo Poleto, e ativistas ambientais internacionais, Greta Thunberg em especial, é fundamental destacar que esse cuidado ambiental somente será possível caso ocorra à eliminação daqueles que são os grandes responsáveis pela destruição do meio ambiente. Na situação brasileira os principais responsáveis estão representados pelo agronegócio, mineradoras e madeireiras.


Diferentemente do mercado financeiro que parece ser um corpo invisível, falando por meio dos grandes meios de comunicação e dos “especialistas” de Economia, o agronegócio, minerados e madeireiras têm corpo e voz, sendo possível reconhecer facilmente suas feições que, convenhamos, não são nada agradáveis. Se o agronegócio tem rosto, inclusive com representação parlamentar por meio da famigerada bancada do boi, não tem ouvido para escutar as vozes dos ambientalista e dos povos originários, tampouco sensibilidade para sentirem os sinais emitidos pela natureza. O agronegócio não é pop, não é tech, porém é tudo aquilo que representa mazela e destruição social/ambiental, interferindo na vida ao invadirem o território dos povos originários, dos ribeirinhos, destruindo todo o ecossistema e o modo de vida dessas pessoas.


O capitalismo não tem e não se preocupa com o planeta Terra como se fosse uma casa comum, pelo contrário, observa-o enquanto uma fonte de produção e acumulação de riqueza, não se importando com as causas e consequências da destruição que provocam. Por exemplo, existe uma relação umbilical entre pandemia e devastação do meio ambiente. Nesse sentido, não pode ser considerado fortuito o fato de o Brasil ter menos de 3% da população mundial e mais de 10% do número total de vidas perdidas para a pandemia de coronavírus. No momento, além de ser o epicentro da pandemia, resultado da necropolítica conduzida pelo governo federal, o Brasil se tornou, tese defendida pelo Professor e neurocientista Miguel Nicolelis, grande exportador de variantes, tornando-se uma verdadeira ameaça mundial. Ameaça tanto na questão pandêmica quanto climática conforme observaremos.


Desde o golpe parlamentar de 2016, resultado da ascensão do fascismo e do neoliberalismo, temos acompanhado o aumento do desmatamento da Floresta Amazônica, a degradação do Cerrado e de outros biomas para atender às demandas do agronegócio; soja e pecuária em especial. Todos os dias, sem exceção, deparamos com fotografias, reportagens, documentários que retratam à tragédia ambiental brasileira intensificada nos governos Temer e Bolsonaro. Essa devastação oferece condições para uma situação desesperadora, a saber, o fato de a Floresta Amazônica se encontrar próxima de um não retorno, podendo se tornar uma grande Savana dentro do território nacional. Se o fenômeno acontecer, em decorrência de não termos parado o processo de destruição ambiental em curso no Brasil, se não conseguirmos implementar um outro modelo de sociedade, o ponto de não retorno poderá ser da vida humana no planeta Terra. O cenário é desesperador porque o governo federal, representado por Bolsonaro e pelo ministro contra o meio ambiente Ricardo Salles, não tem medido esforços para efetivar o projeto de destruição ambiental, passando, todos os dias, uma gigantesca boiada na Floresta Amazônica.


Representantes dos povos originários, Raoni Metuktire em especial, tem levantado uma voz importante para o mundo todo ouvir, dizendo em alto e bom som que o governo federal tem um projeto e esse projeto não é o da proteção e cuidado com a diversidade de vida existente na Floresta Amazônica. Pelo contrário, Raoni tem dito que o projeto do governo é transformar à floresta em pastagem e lavoura de soja, não medindo esforços para consolidar o projeto. E, como podemos perceber, a partir dos dados que têm sido apresentados pelos órgãos de monitoramento e controle ambiental/espacial, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), os esforços do governo federal e de Salles para atender às demandas do agronegócio tem surtido efeito, perceptível pelo crescimento exponencial das queimadas dentro da Floresta. A destruição da Floresta Amazônica, considerada fundamental para manter o equilíbrio ambiental no mundo, poderá significar, antes de tudo, a destruição da própria humanidade.


A voz e o olhar de Raoni denunciam o ecocídio em curso. Não escutá-lo é se tornar cúmplice do projeto de morte coordenado pelo governo federal. Outo ponto importante, quando mais o ser humano interfere no espaço natural, mais suscetível está de ter contato com diferentes tipos de vírus que circulam entre os animais, mas que podem migrar e se acomodar perfeitamente no corpo humano, trazendo consequências imprevisíveis. Nesse sentido, a destruição ambiental, além dos inúmeros problemas climáticos, o que somente por isso deveria ser suficiente para pararmos tudo e partimos em defesa de um outro modelo de sociedade, poderá resultar na maior circulação de vírus mortais entre os humanos.


O sociólogo Boaventura de Sousa Santos publicou recentemente o livro A cruel pedagogia do vírus. O livro tem tido uma repercussão importante ao evidenciar como diferentes povos e culturas têm lidado com à pandemia, sendo que alguns estão conseguindo proteger a vida das suas comunidades e outros não têm medido esforços para espalhar o vírus e, consequentemente, ocasionar a morte do seu próprio povo. Mas, além disso, na perspectiva de Boaventura não somente é possível, mas como é necessário que a humanidade retire lições dessa terrível pandemia. Como o próprio título do livro apresenta, A cruel pedagogia do vírus desnuda que não é mais possível viver dentro de um sistema que socializa pobreza, privatiza riqueza e destrói rapidamente os recursos ambientais, colocando, a partir disso, a vida de todos como se fosse uma grande incógnita.


Se a sociedade não se levantar contra esse projeto de destruição e os seus representantes, governo federal e Ricardo Salles no Brasil, não haverá mais vida humana no planeta Terra. Mais do que uma hipótese é quase uma constatação. É necessário cuidar da casa comum, porém é fundamental que exista uma casa em comum para ser cuidada. O vírus da Sars-Cov-2 demonstrou o quanto nós, humanos, somos vulneráveis diante das reações da natureza. Fica cada vez mais nítido que impedir a continuidade da destruição ambiental se tornou a única maneira de prolongar a vida humana por mais algumas décadas no planeta, caso contrário, as pandemias serão recorrentes ao longo do século XXI. Quem tem assegurado essa possibilidade são os mesmos cientistas, ambientalistas e povos da floresta que não se surpreenderam com a chegada do novo coronavírus. Que possamos, todos nós, ter humanidade para ouvi-los.

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