Sentimento de revolta, ódio burguês e os caminhos para o Brasil


No momento que escrevo esse breve ensaio, milhares de brasileiras e brasileiros, tanto no Brasil quanto em outros países, estão nas ruas para lutar contra o genocídio/extermínio neoliberal conduzido pelo governo Bolsonaro. Sair as ruas, nesse momento, não é uma decisão fácil. O medo da pandemia assombra. No entanto, ficar em casa, quando mais de 550 mil pessoas perderam suas vidas para uma doença, covid-19, que já tem vacina, sabendo que centenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se o governo federal tivesse o mínimo de respeito pela vida, entendendo que o país vivencia uma crise sanitária e humanitária sem precedentes, não está no horizonte de parte considerável da população brasileira.


Entre o medo do vírus e o sentimento de revolta com o governo neoliberal de Bolsonaro, parte da sociedade brasileira optou pela revolta. É o sentimento de revolta que os une, é o sentimento de revolta que os move, é o sentimento de revolta que faz com que enfrentem o medo do vírus. Sentimento de revolta movido pela morte de amigos/as, familiares, vizinhos/as, pessoas conhecidas que não estão mais no nosso meio porque o governo federal para continuar com o seu projeto neoliberal, retirada de direitos da população, aprovação das contrarreformas, destruição do meio ambiente e privatização em larga escala, abandou o povo brasileiro a própria sorte. Sentimento de revolta diante do retorno da fome que se tornou realidade no cotidiano de milhões de brasileiras e brasileiros.


O sentimento de revolta, pelos motivos explicitados e por tantos outros, é mais do que legítimo, é um sentimento necessário. Porém, talvez seja válido questionar se o sentimento de revolta, movendo multidões nesse momento, será suficiente para derrubar não somente o indivíduo, mas o governo neoliberal que condena à morte o povo brasileiro? A pergunta é válida pelo fato de o governo Bolsonaro não ser, necessariamente, o resultado das eleições de 2018. Sua construção social, política e econômica antecede consideravelmente a última eleição presidencial. Nesse sentido, o governo está distante de ser uma excepcionalidade, se constituindo muito mais enquanto uma regra.


É evidente que não somente de regra é feita toda a história política do país, existiu período de exceção. A exceção, nesse aspecto, foi o Partido dos Trabalhadores à frente do governo federal. Mesmo com uma política conciliatória, tendo optado por não enfrentar os privilégios da burguesia nacional, o Partido dos Trabalhadores por meio dos governos Lula e do governo Dilma conseguiu produzir políticas públicas de transformação social, a saber; redução da miséria, diminuição da fome, valorização do salário mínimo, redução do número de desempregados/as, acesso aos bens de consumo, financiamento de moradias populares, políticas de valorização da educação pública possibilitando, a partir disso, que as camadas subalternas da sociedade, classe trabalhadora, negros, indígenas, mulheres, comunidade LGBTQIA+, tivessem condições de frequentar os espaços universitários. Políticas de proteção de gênero e assim por diante.


Essas políticas públicas descritas acima, e tantas outras, foram importantes porque depois de mais de 500 anos, finalmente, o Brasil começava o processo de redução da miséria social, redução da opressão de gênero, da opressão racial. Essas políticas possibilitaram que pessoas, grupos e comunidades que nunca tinham tido o direito de sonhar, começassem a suscitar esperança de viverem em um país mais humano.


Conforme mencionamos anteriormente, o período de exceção representado pelo Partido dos Trabalhadores foi produzir uma política de conciliação. No entanto, diante de um país que historicamente sempre teve sua burguesia política/econômica se voltando contra o próprio povo, produzindo uma política do massacre, a tentativa de conciliação adotada pelo Partido dos Trabalhadores não foi uma questão menor, pelo contrário. Essa política de não interferência nos privilégios da burguesia, mas, ao mesmo tempo, oferecendo um mínimo de dignidade para a maioria da população foi tão significativa que suscitou o ódio da burguesia nacional.


O ódio não se manifestou em decorrência de o filho do burguês deixar de estudar na melhor Universidade pública ou privada do país, mas porque o filho do burguês começou a dividir o mesmo espaço universitário com o filho ou a filha do porteiro. Passou a dividir o mesmo espaço porque à política de Cotas teve um papel preponderante na desestabilização do monopólio da burguesia nacional dentro do ensino superior. No mesmo sentido, a grande empresária não deixou de vigiar de avião, porém o espaço do aeroporto, em decorrência da valorização do salário mínimo e de alguns direitos para a classe trabalhadora, também estava sendo frequentado pela empregada doméstica. Esses dois exemplos, aparentemente banais, são importantes para entendermos que o ódio não é pela retirada de privilégios. O ódio se manifestou pelo fato de que, finalmente, nos governos do Partido dos Trabalhadores, a classe trabalhadora e os/as subalternos/as passaram a ter alguns direitos assegurados; moradia, respeito, valorização salarial, educação e alimentação.


Tendo essa linha de raciocínio por perto, o governo Bolsonaro dificilmente será compreendido se eventualmente não for analisado enquanto um governo movido pelo ódio da burguesia nacional contra o próprio povo brasileiro. Povo representado, na prática pela classe trabalhadora, pelos negros, pelos indígenas, pelas mulheres, pela comunidade LGBTQIA+ e pelos pobres. O governo Bolsonaro não inventou o ódio burguês, o governo Bolsonaro é simplesmente o aprofundamento do ódio burguês. Essa política movida pelo ódio é tão marcante que no ano de 2016 a burguesia nacional promoveu um golpe de estado para retirar, não necessariamente o Partido dos Trabalhadores do poder, mas para retirar todas as políticas públicas, de transformação social, da pauta política. O governo Bolsonaro é o resultado da contrarrevolução burguesa. O governo Bolsonaro é a continuidade do golpe jurídico/parlamentar/midiático promovido pela burguesia no ano de 2016.


Nesse sentido, engana-se quem escreve manifesto em defesa da Democracia no Brasil. Não existe mais Democracia, tampouco estado democrático de direito para ser defendido. Não existe mais porque o último pacto democrático, costurado na Constituição de 1988, foi rasgado em 2016. A burguesia nacional não aceitou e não aceita qualquer instrumento de política pública que ofereça o mínimo de direito ao povo pobre e oprimido. É essa mesma burguesia que, com mais de 550 mil vidas perdidas, desemprego alcançando uma condição nunca vista, fome presente no cotidiano de milhões de brasileiros e brasileiras, sustenta o governo Bolsonaro no poder.


Sustenta porque o projeto é esse. Sustenta porque o projeto da burguesia, historicamente, sempre foi esse. Projeto que produz miséria e opressão do próprio povo. O neoliberalismo autoritário do governo Bolsonaro não é uma invenção de Paulo Guedes, porém é o projeto, desculpa pela redundância, da burguesia nacional. Se alguém ainda tiver alguma dúvida referente a essa afirmação, recomendo que observe como os partidos da direita tradicional; DEM, MDB, PSDB, votam às pautas econômicas de Paulo Guedes no Congresso Nacional.


No momento que estou finalizando esse ensaio, mais brasileiros e brasileiras estão ocupando as ruas movidos e movidas pelo sentimento de revolta. Sentimento de revolta com esse projeto neoliberal/autoritário de Bolsonaro, Paulo Guedes e da burguesia nacional. É evidente que o sentimento de revolta tem condições de desestabilizar esse projeto de opressão, de produção de miséria e de mortes. No entanto, mais do que desestabilizar é fundamental que esse sentimento de revolta tenha condições de retirar, de uma vez por todas, o projeto de opressão e morte da burguesia nacional da vida do povo brasileiro.


A política de conciliação conduzida pelo Partido dos Trabalhadores, por mais de uma década, demonstrou ser insuficiente porque o ódio da burguesia nacional impossibilita qualquer tentativa/alternativa de transformação social. A partir do ódio de classe não hesitam em produzir golpes de estado para impedir qualquer tipo de mobilidade na sociedade brasileira. A alternativa, talvez a única saída, para modificar esse estado de coisas passa pela construção de um outro modelo social, político e econômico para o país. Esse outro modelo encontra-se assentado no Socialismo democrático, ecológico, feminista, antirracista e anticolonial.


Nesse sentido, desejo que o sentimento de revolta desse 24 de julho de 2021, sentimento que move e une milhões de pessoas, possa nos conduzir para o Socialismo democrático.

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