Servidão Voluntária: O capital e o processo de desumanização do sujeito



O médico trabalha com patologias do corpo humano, o cientista social com as patologias da sociedade, ou seja, com aquilo que afeta o tecido social. Pensar o tempo presente é sempre um desafio para qualquer profissional das Ciências Sociais, principalmente em tempos obscuros, passando por um declínio da democracia, descrença nas instituições, o desaparecimento do Estado de bem estar social e, sobretudo, a decadência do homem enquanto ser humano. Diante desse cenário, é importante refletirmos.


Nós sempre associamos as palavras modernidade e pós-modernidade como se pertencessem ao avanço da humanidade. No entanto, refletimos pouco sobre os significados e significantes dos enunciados. Para abrir a discussão, elucido a frase de Shakespeare: “Que época terrível esta, onde idiotas dirigem cego”. O homem contemporâneo sofre com a falta de sentido, no aspecto mais amplo do termo.


Não sabemos quem somos, para onde vamos, de onde viemos. Perguntas que geralmente não temos tempo para pensar, por causa do mundo instantâneo que estamos inseridos, submetidos a uma dominação do capital e dos donos do poder. Nossa sociedade serve alguém, sem saber quem, e porque serve esse alguém.


“Meu otimismo está baseado na certeza que esta civilização vai desmoronar. Meu pessimismo em tudo aquilo que ela faz para arrastar-nos em sua queda”. Uma colocação forte, como essa, em relação a nossa sociedade, nos leva a pensar que Marx estava certo quando disse: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”. Frase atribuída ao livro Manifesto do Partido Comunista de 1848. A ideia é que todo sistema político e econômico entraria em decadência, seja ele qual fosse, porque as coisas não são sólidas, elas fluem, segundo Bauman no seu livro Modernidade Líquida (2014).


O homem contemporâneo virou mercadoria, assim como saúde, lazer, educação, força de trabalho e outros. A vida, em suma, foi mercantilizada no sentido mais forte da palavra. Nós somos refém da materialidade do mundo. Deixamos um celular seminovo para adquirirmos um dá nova geração. Parafraseando Clovis de Barros Filho em uma de suas conferências, quando diz: “O valor da vida se encontra fora dela”. Ou seja, o nosso valor enquanto humano está naquilo que produzimos. Meta sobre meta, resultado sobre resultado. Por exemplo, a educação básica só faz sentido se o indivíduo cursar uma faculdade e se ingressar no mercado de trabalho. Assim, tudo que fazemos está de certa forma ligado ao capitalismo. Para sintetizar a reflexão, elenco, abaixo, alguns exemplos.


A colonização de todos os setores da vida: “É o homem inteiro que é condicionado ao comportamento produtivo pela organização do trabalho, e fora da fábrica ele conserva a mesma pele e a mesma cabeça”, como afirma, Christophe Dejours. O homem contemporâneo não trabalha apenas 8 horas por dia, ele está sempre atento as redes sociais e resolvendo problemas do trabalho no celular. Não contente, leva os problemas do trabalho para a cama. Este modelo de vida, conturbada, gera transtornos psíquicos como assevera Augusto Cury, no seu livro Ansiedade: o mal do século (2003).


A medicina mercantil: Nós tratamos a saúde como mercadoria, e com isso perdemos dentro desse processo, porque há a desumanização do próprio humano. No século XVIII os filósofos pensaram que a ciência iria explicar tudo, porém não foi o que aconteceu. Apesar de uma evolução nítida no campo da medicina, a ciência continua restrita a determinados grupos sociais. Por isso existe uma discursão em torno da medicina como mercadoria. Pessoas morrem ou utilizam coquetéis de medicamentos com doenças que poderiam ser tratadas de uma maneira mais séria, ou de forma alternativa. Mas, o mercado da saúde só se mantém se for dentro desses parâmetros discutidos anteriormente.


A obediência como segunda natureza: Quando olhamos para nosso processo histórico, nos deparamos com uma história de servidão, deste a antiguidade, até a contemporaneidade. O indivíduo na posição de obediente somente modifica as características do modelo de servidão, mas, no fundo, a dominação é a mesma. Para os capitalistas nós não fazemos a história, ela é uma espécie de coisa que já vem pronta. Porém devemos entender à história humana como campo de batalha, e sobretudo como espaço de transformação. A educação contemporânea consegue mostrar muito sobre a servidão que estamos submetidos. Diante da evidência, é necessário nos libertamos.


Uma educação voltada para as palavras ordem e progresso é pautada na preparação para o mercado de trabalho. Não temos uma educação para a formação de um cidadão político que intervenha no Estado quando necessário, ou seja, não temos a formação do sujeito político que Gramsci tanto defende nos seus escritos.


Portanto, o capitalismo atua na sociedade moderna e contemporânea, e os discursos de legitimação deste sistema, disseminado dentro do corpo social, vende uma ideia de progresso e prosperidade para todos os indivíduos. Discurso que é abraçado pela maioria da massa popular. Então, é necessário entendermos o retrato de nossa atual situação, que mostra a “bestialização” endereçada, retirando, infelizmente, nossa esfera humana. Nos humanizarmos, esse pode ser o caminho.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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