Uma esperança move o povo brasileiro



O processo eleitoral de 2022 se aproxima, e com a proximidade um sentimento de esperança passa a mover uma parcela cada vez mais considerável da população brasileira. Esperança que passa pelo pressuposto de ter condições de se recuperar de uma doença que desde 2016 nos acompanha com sintomas nocivos, mas que, a partir de 2018, esses sintomas tornaram-se feridas impossíveis de serem cicatrizadas.


Conforme definiu minuciosamente Eliane Brum, em artigo publicado no jornal El País, estamos doentes de Brasil[1]. O diagnóstico de uma doença que acomete milhões de brasileiros foi elaborado e apresentado para a sociedade antes da pandemia do coronavírus. Pandemia que, até o presente momento, já vitimou mais de 612 mil vidas no país. Por meio de uma sensibilidade única, de uma capacidade de apresentar para a sociedade o quanto seria e é trágico viver sob um governo de extrema-direita, um governo neofascista, Brum descrevia o que seria o sintoma mais presente na vida da população desde que o atual projeto de governo, a saber, neoliberal/neofascista, se saiu vitorioso do pleito eleitoral de 2018.


Nos últimos anos o povo brasileiro tem sido obrigado a conviver com o fundamentalismo neoliberal. Fundamentalismo que esteve representado, no primeiro momento, por Michel Temer e está tendo sua continuidade, com pinceladas um pouco maiores de caráter destrutivo, com Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Diante das circunstâncias catastróficas, parte considerável da sociedade colocou em segundo plano algo que nos trouxe até aqui. Nos trouxe doentes, porém vivos. O direito de ter esperança foi roubado pelo neoliberalismo/neofascista que está em curso, que retira tudo da sociedade ao produzir tragédias sanitárias e humanitárias, não poupando, nem mesmo, o direito de sonhar.


Nesse cenário, observado a partir de um recorte de curta duração, além de perder uma parte considerável dos direitos, de ver os empregos, mesmo aqueles de baixa remuneração, desaparecerem, assim como desaparecem, de forma um pouco mais célere, amigos, familiares, e tantas pessoas conhecidas que perderam suas vidas não necessariamente para um vírus, mas para o negacionismo epidemiológico e a pulsão de morte que ontem moveu os fascistas e hoje move os neofascistas.


Toda essa tragédia humana e sanitária, excetuando a questão da morte, encontra-se representada na mais violenta forma de opressão que um governo fundamentalista e autoritário, a serviço do capital, pode produzir, a saber, a violência da fome. A fome amedronta, paralisa, produzindo uma violência atroz. Esta fome, mais uma vez, está presente nos lares de milhões e milhões de pessoas por esse país afora. Diante dessa constatação, talvez seja válido uma pequena indagação; Como ter esperança se a fome não somente bateu na porta, mas como entrou de vez nas casas? É possível sonhar ou ter esperança convivendo diariamente com a fome?


Engana-se, e gostaria de ressaltar mais uma vez nesse espaço, conforme fiz nos dois últimos ensaios publicados no Além dos Muros[2], quem pensa que o projeto do governo Bolsonaro, representado mais diretamente no Ministro da Economia, Paulo Guedes, não seja exatamente esse que estamos presenciando. A miséria, a fome e o desemprego fazem parte de um projeto desenhado e executado pela gestão neoliberal que governa o Brasil. A produção da miséria sobre o povo brasileiro não é fortuita, pelo contrário, o objetivo da produção dessa miséria tem enquanto objetivo atender as demandas do mercado financeiro, que diante de qualquer sinalização de uma política pública para matar a fome de quem tem fome, se levanta e se posiciona de forma muito nervosa por meio dos interlocutores[3] do grande capital.


No entanto, além ou concomitantemente à condição econômica, evidenciada no projeto de produção da fome para atender as demandas do mercado financeiro, existe um componente moral que move os governos neoliberais, transformando-os em governos neofascistas[4]. Esse componente moral encontra-se representado no desejo incontrolável de destruição, ou melhor, de autodestruição[5]. Destruição do estado, das políticas públicas, dos direitos, da dignidade, dos sonhos e por último, porém o mais importante, destruição do próprio povo. O fim, o objetivo final, é promover a autodestruição, constituindo-se enquanto uma característica elementar do fascismo e se fazendo presente nos governos neofascistas contemporâneos. Essa condição e o desejo pela autodestruição estão presentes na realidade brasileira.


O cenário é desolador, fome, desemprego, pandemia, retirada de direitos elementares, avanço do embrutecimento social, fundamentalismo religioso representado na “teologia da prosperidade”, entre outras mazelas que nos adoecem. No entanto, mesmo assim, o povo brasileiro, a classe trabalhadora, continua de pé. Se está de pé, se ainda não desistiu, é porque existe uma fagulha de esperança de que dias melhores virão. Ao longo da história, de forma mais precisa, quando o capitalismo europeu adentrou com toda a violência no território tupiniquim, o que esse projeto produziu foi inúmeras tragédias. Todas elas, sem exceção, tiveram como intuito atender os anseios do Capitalismo. Torna-se possível descrever algumas; Genocídio dos povos originários, escravidão da população negra, emancipação política sem independência, República implantada por meio de um golpe de estado, perseguição do estado burguês a todas as formas de revoltas e movimentos revolucionários nas buscas por seus direitos, sucessivas ditaduras miliares ao longo do século XX. Nesse sentido, destaque para a última Ditadura Militar/Civil (1964-1985) que o país enfrentou, no qual as marcas da tragédia são indeléveis e estão presentes com muita intensidade nos dias atuais.


Quando se olha para a história do Brasil, tendo condições de lê-la e sensibilidade para compreendê-la, chega-se à conclusão de que nunca foi fácil ser brasileiro/a. No entanto, se tem algo que as tragédias impostas pelo Capitalismo nos oferecem condições de compreender é a de que a tragédia contemporânea, evidenciada na gestão neoliberal/neofascista de Bolsonaro e Paulo Guedes, não é e tampouco será o fim da História, longe disso. Se o governo Bolsonaro/Paulo Guedes for o fim da História, isso significará que estamos acompanhando o fim da sociedade brasileira. No entanto, é necessário reiterar, com todas as forças, que o atual momento não é e não será o fim da história brasileira.


Não é e não será porque tanto ao longo do processo histórico quanto do tempo presente o povo brasileiro, povo pobre e humilde, desde os povos originários, os negros escravizados, passando por homens e mulheres pretas da contemporaneidade, pelas mulheres do movimento feminista, pela comunidade LGBTQIA+, pelos/as militantes de esquerda, pelos movimentos sociais, pelos camponeses, pela classe trabalhadora de uma forma em geral, sempre resistiu, enfrentou e enfrenta os projetos de destruição da burguesia nacional e internacional.


Ao longo de mais de 500 anos o Capitalismo tem tentado destruir o povo brasileiro e, mesmo com todo esforço, não conseguiu. Produziu inúmeras tragédias, de todos os tipos, mas não destruiu. O povo brasileiro, constituído de pessoas pobres e oprimidas, chegou até aqui. Se chegou é porque nunca deixou de acreditar que dias melhores estavam no horizonte. Nesse momento, quando o Capitalismo não esconde sua violência e desejo de destruição, encontrando ares modernos no neoliberalismo de Paulo Guedes, mesmo nesse momento, diante da dor, da pandemia, da fome e do desemprego, esse mesmo povo, que resistiu e que resiste, não perde a esperança.


Nesse atual momento, diante das circunstâncias, a esperança do povo brasileiro, esperança de ter dignidade, passa por um nome, a saber, Luiz Inácio Lula da Silva.




Notas:

[1] O ensaio de Eliane Brum, Doente de Brasil, publicado no dia 01 de agosto de 2021, apresenta a realidade da sociedade brasileira dentro daquele contexto. Depois de alguns meses do governo Bolsonaro, Brum começou a recolher depoimentos de psiquiatras e psicanalistas que, de forma cada vez mais frequente, estavam recebendo pacientes com diferentes sintomas, tais como, ansiedade, depressão, insônia, desespero, medo, entre outros similares. A constatação praticamente unânime desses e dessas profissionais era a de que os/as pacientes com esses sintomas estavam doentes de Brasil. Levando em consideração que a maioria da população passou ou tem enfrentado alguns desses sintomas diante do governo Bolsonaro, não é difícil fazer o diagnóstico de que estamos doentes de Brasil.

[2] Referência aos dois últimos ensaios publicados no Além dos Muros. O primeiro deles, intitulado Sentimento de revolta, ódio burguês e os caminhos para o Brasil, foi publicado no dia 26 de julho de 2021. E o último dos ensaios, Uma política de morte em curso no Brasil, foi publicado no dia 08 de outubro de 2021.

[3] Esses/as interlocutores estão representados pela maioria dos jornalistas de economia e dos/as economistas dos grandes meios de comunicação. Interlocutores que sempre apresentam, enquanto “solução” para os problemas econômicos do país, a retirada de direitos da população pobre. Nesse aspecto, trazendo à tona os interlocutores do grande capital no Brasil, do mercado financeiro, é válido utilizar a referência de Karl Marx e Friedrich Engels no livro A Ideologia Alemã, principalmente quando afirmam que as ideias da classe dominante são as ideias dominantes. Para serem dominantes, os/as intelectuais a serviço do Capital, que ocupam os espaços dos meios de comunicação de massa, são fundamentais.

[4] O governo de Bolsonaro e Paulo Guedes pode ser considerado fascista ou mesmo neofascista? Esse problema tem levado inúmeros pesquisadores e pesquisadoras do fascismo, assim como das ressignificações dos regimes totalitários, representados por meio do conceito de neofascismo, a terem o problema por perto. No entanto, sem adentrar na importante, mas longeva discussão acadêmica, concordo com as observações de Armando Boito Júnior quando, em ensaio publicado no site A Terra é Redonda, O neofascismo na periferia do sistema capitalista, afirma que é possível ter um governo fascista ou neofascista sem ter, necessariamente, a implementação de uma ditadura fascista ou neofascista. Consideração essa que o autor utiliza para pensar a realidade atual do Brasil.

[5] Reflexão importante em torno do desejo de autodestruição, de produção da própria tragédia nos governos totalitários pode ser encontrada no artigo de Vladimir Safatle, O estado suicidário, publicado no site A Terra é Redonda.

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