Uma política de morte em curso no Brasil



No último dia 02 de outubro, centenas de milhares de manifestantes ocuparam as ruas para protestar contra a política de morte coordenada por Bolsonaro e Paulo Guedes. Política de morte que já vitimou, somente em dados oficiais, quase 600 mil vidas no país. Fica nítido que se Bolsonaro e Paulo Guedes tivessem uma política de valorização da vida, os efeitos da pandemia seriam muito menores. No entanto, os efeitos não são menores, pelo contrário, foram amplificados ao máximo. Perdemos amigos, amigas, familiares, pessoas conhecidas e tantas outras diante dessa tragédia sanitária e humanitária. Tragédia que foi tratada com desdém no primeiro momento, e depois presenciamos toda uma política, fomentada por uma máquina de propaganda, que em detrimento da conscientização e de políticas de preservação da vida e da não contaminação, incentivou a população a se contaminar para que a economia continuasse operando.


No último dia 02 de outubro, além do protesto contra o genocídio e o genocida, as centenas de milhares de pessoas que foram e ocuparam as ruas também procuravam homenagear as vítimas, não necessariamente da pandemia, mas vítimas do governo Bolsonaro. Que essas homenagens, representadas nas revoltas contrárias à política de morte, possam produzir um luto coletivo. Produzindo, teremos condições, enquanto sociedade, de não esquecermos e responsabilizarmos quem foram e são os grandes responsáveis pela tragédia humanitária e sanitária que nos assola.


Os responsáveis vão desde o Presidente da República, passam pelo Ministro da Economia, passam por alguns planos privados de Saúde que, em detrimento da proteção da vida dos seus pacientes/clientes, pactuaram com o projeto de morte conduzido pelo governo federal. Responsáveis são, também, enquanto metáfora, o locutor e o médico negacionista que recusaram os estudos científicos e promoveram um verdadeiro recital ‘charlatanista’ em defesa de medicamentos, Ivermectina e Cloroquina, comprovadamente ineficazes contra à covid-19. Essas pessoas, representantes de muitos segmentos da sociedade, atuaram em favor do vírus e contra a vida. Nesse sentido, têm que ser responsabilizadas, não pelo tribunal da história, mas pela sociedade do tempo presente.


A política de morte de Bolsonaro e Paulo Guedes está presente em várias frentes. É evidente que a pulsão e o gozo pela morte na pandemia ficam mais perceptíveis, mas é possível percebê-las nas milhões de pessoas que, neste momento, estão desempregadas. Em detrimento de produzir políticas públicas por meio do estado para gerar emprego e, consequentemente, renda, Bolsonaro e Paulo Guedes adotam o que existe de mais reacionário no neoliberalismo e produzem uma política de austeridade, redução do estado, privatizações, e retirada dos direitos da classe trabalhadora.


A política de Bolsonaro e Paulo Guedes é tão eficiente que têm conseguido, parafraseando Ricardo Antunes, Professor de Sociologia da Unicamp, desempregar aqueles e aquelas que já se encontram na condição de desempregados/as. Um triste exemplo desse fenômeno encontra-se nos trabalhadores e trabalhadoras de aplicativo, principalmente os/as motoristas da UBER, que estão com dificuldades para trabalharem porque não conseguem obter uma renda mínima pelo fato de a gasolina estar acima de sete reais na maioria das cidades brasileiras. Até essa triste façanha de desempregar os desempregados, Bolsonaro e Paulo Guedes têm conseguido executar com êxito.


O resultado da política de Bolsonaro e Paulo Guedes pode ser melhor percebido no fato de o Brasil voltar, novamente, para o mapa da fome. A realidade dessa última afirmação está nas tristes imagens de inúmeras pessoas nas filas para receberem um pedaço de osso descartado dos frigoríficos. Essas pessoas procuram, ao menos, sentirem o gosto da proteína animal na insuficiente dieta alimentar. Para ser mais preciso, uma parcela considerável da população brasileira está passando fome. Isso mesmo, nesse momento, milhões de pessoas no Brasil estão com fome.


Conforme destaquei no último texto de minha autoria publicado no Além dos Muros, Sentimento de Revolta, ódio burguês e os caminhos para o Brasil, o projeto de Bolsonaro e Paulo Guedes é justamente esse. É um projeto de destruição, um projeto do desemprego, da miséria e da morte. Nesse sentido, compreendendo o que está em curso no Brasil, as centenas de milhares de pessoas que ocuparam as ruas no último dia 02 de outubro, entendem que a única maneira de interromper essa política de destruição está na ocupação de todos os espaços. Somente a sociedade brasileira, organizada e combativa, terá condições de parar o projeto de morte de Bolsonaro e Paulo Guedes.


No entanto, nesse exato momento, é provável que a última manifestação não seja suficiente para alcançar o propósito mencionado anteriormente. Afinal, essa política de morte favorece setores importantes da economia nacional, a saber, o agronegócio e o mercado financeiro. Quando o povo brasileiro tinha emprego, renda mínima garantida, comida no prato, o mercado financeiro frequentemente estava nervoso. Hoje, quando o país chora quase 600 mil vidas perdidas, quando falta emprego e comida na mesa de milhões de pessoas, o mercado financeiro está calmo, muito calmo. Porém, dificilmente o comportamento da burguesia nacional seria diferente, principalmente se levarmos em consideração que esse segmento, juntamente com o agronegócio, são os grandes beneficiários da política de morte de Bolsonaro e Paulo Guedes.


Entretanto, mesmo enlutada, com medo do vírus, sem alento e com fome, a sociedade brasileira tem ocupado as ruas em defesa da vida. Tem ocupado porque entende que esse será o único caminho para interromper um projeto de morte que segue o seu curso sem dó e nem piedade no Brasil.

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