As Escolas Brasileiras Continuam Cercadas

Procurar conceitos e representações para se pensar o processo de construção e de desenvolvimento da educação no Brasil, não é, assim como nunca foi, uma tarefa das mais fáceis. A dificuldade, se constitui pelo fato de que, o país, pensando principalmente na figura do estado, nunca conseguiu/e, ou não desejou/a compreender a importância do investimento educacional para a transformação social de um povo. Enquanto isso, procuram fazer com que, acreditemos que o caminho a ser seguido, seja o da Ordem e do Progresso, mantendo assim, as estruturas por meio do status quo.



Além da dificuldade governamental, há uma dificuldade por parte da conjuntura social em compreender as estruturas da educação no Brasil. Por exemplo, na maioria das circunstâncias compreendemos por educação, o que o filósofo Mário Sérgio Cortella (2015) conceitua por escolarização. A definição feita pelo autor, separa no primeiro momento os conceitos de educação, e escolarização, para depois fazer a junção dentro de um panorama mais amplo. Em síntese, continuamos tendo dificuldades em reconhecer que, educação é o todo, e não uma parte.


A escola, indubitavelmente é importante, porém, desde que não seja compreendida como única forma de construção da educação. Diante dessa circunstância, a escola se constitui como uma das partes. Os preceitos da educação são construídos por toda uma estrutura complexa e ao mesmo tempo dinâmica, envolvendo inúmeras relações, desde o escopo familiar, o núcleo de amizades, as relações desenvolvidas no espaço de trabalho, ou por meio de associações de moradores, nas conversas com os vizinhos/as, frequentando e fomentando espaços de lazer, cultura, entretenimento, entre outros meios. Em suma, a construção de uma ‘sociedade educada’, se fomentara por meio das experiências e vivências do e para o cotidiano, incluindo nessas relações o já mencionado espaço escolar.


Quando menciono o conceito de ‘sociedade educada’, me refiro principalmente aos mecanismos de consolidação da ética, e não da moral, como meio norteador das relações socioculturais. Recentemente, em uma fala que fiz, no qual, procurei pensar o papel da academia no cotidiano das pessoas, disse que: “Em muitas situações, se aprende muito mais no boteco, conversando sobre tudo e sobre todos, do que na sala de aula”. A frase, sem contextualização pode ocasionar um impacto momentâneo, entretanto, a minha intenção diante do contexto da fala foi, no sentido de pensar os saberes circulando por diferentes espaços, e não enclausurando-o em um local específico.


As escolas, em todos os níveis, não podem se afastar do meio social, pelo contrário, tem que estar inseridas, estabelecendo relações diretas com a sociedade, trazendo para o diálogo as impressões da comunidade, as concepções dos pais, alunos/as, docentes, corpo administrativo, direção, entre outros grupos, quando, todos/as possam construir e compreender as suas funções para implementar definitivamente uma escola que seja à síntese da vida, ou seja, um espaço plural, característico da e para a divergência de ideias, reconhecendo e fomentando essa pluralidade de conceitos, impressões, manifestações culturais, representando assim, a heterogeneidade social.


Por meio dessa conjuntura das diferenças, teremos melhores condições de construir uma escolarização humana, ética, vinculada e enraizada socialmente, e por fim, transformadora, como nos apresenta Viviane Mosé (2013). A humanização, culminando com a transformação social, se constitui como uma antítese da perspectiva que procura implementar a Ordem e o Progresso. Se houver ordem, não haverá transformação, se não tivermos transformação, o progresso será para aqueles/as que, sempre se beneficiaram da ordem.


Por isso, o fato de ainda continuarmos separando a escola das nossas vivências e experiências, provavelmente seja um dos nossos grandes equívocos no tempo presente, fazendo com que, infelizmente, não tenhamos condições de avançar na e para a efetivação de melhorias sociais por meio da escolarização. As nossas escolas, infelizmente, continuam cercadas por muros. Uma escolarização de qualidade, transformativa, não se faz apenas com professores/as, mas, com todo o conjunto da sociedade, interagindo, sugerindo e participando ativamente desse processo construtivo, que é, a meu ver, ininterrupto, dinâmico e com múltiplas especificidades.


As escolas não podem estar desassociadas da vida, pelo contrário, escola e vida ‘devem’ estabelecer um profícuo diálogo.


Boa Semana Para Vocês!

"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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