Esgotamento

Se você nasceu e vive neste momento histórico em que coabitamos, o qual para alguns teóricos pode ser chamado de pós-modernidade, certamente você faz parte da grande maioria de humanos que se encontram em um estado de cansaço crônico, um esgotamento de forças e um anseio por um longo descanso, vivemos sempre uma constante espera pelo próximo feriado ou pelas sonhadas ferias.


A vida em nosso tempo é composta por uma intensa carga de afazeres, responsabilidades, pressões, informações, compromissos que se desenvolvem e fluem com muita intensidade e velocidade, o que Zygmunt Bauman chamara de modernidade liquida, dando um sentido de efemeridade as relações humanas, típicas de nosso tempo, pois o tempo é escaço e sobre ele foi atribuído valor financeiro, sendo assim, é cada vez mais comum a substituição do tempo das afeições e das relações humanas pelo tempo do trabalho extra, do contra-turno, do segundo emprego ou do curso de especialização na "hora livre".


O Século XXI se constrói através de uma nova configuração das relações de trabalho, advindas da evolução dos modelos de produção Fordista e, posteriormente Toyotista que promoveram a intensificação da produção e dos lucros ao mesmo tempo que promove uma precarização das relações de trabalho, ampliando as exigências de mercado, de capacitação, e desempenho que exigem o máximo do trabalhador, ou seja busca-se um trabalhador qualificado capaz de atender inúmeras demandas porém pouco valorizado se compararmos os salários ao seu potencial produtivo. O trabalhador de hoje é o produto perfeito para atender ao bom funcionamento do Capital, qualificado, multifuncional e de baixo salário.


O baixo salário aliado as exigências de consumo moderno e a elevação dos valores dos bens de necessidade básica forçam o trabalhador a cada vez mais intensificar suas jornadas de trabalho, e nas horas vagas buscar qualificação para se manter em seus empregos, já que este é obrigado a concorrer constantemente com o exército de desempregados, que representam uma ameaça real aos que estão empregados. O medo do desemprego força o trabalhador moderno a aceitar as mais diversas precarizações em nome da manutenção de seus empregos.


As longas jornadas de trabalho por si só já seriam um causador de cansaço, porém este cansaço se intensifica à medida que as pressões e tensões aumentam no ambiente de trabalho, que cada vez mais competitivo exige um esforço psicológico intenso para produzir um alto rendimento e atender à exigência de um trabalho que deveria ser realizado por mais de um trabalhador, e que na maioria dos casos é concentrado em apenas um. Assim o trabalhador moderno tem que conviver com um constante esgotamento físico e mental.


O esgotamento físico e mental do trabalhador moderno impede que este desfrute até mesmo de suas poucas horas diárias de ócio, para o lazer, a obtenção de conhecimento e cultura, pois o cansaço extremo o limita, impossibilitando a reflexão e compreensão de sua existência, transformando um ser humano complexo e plural em uma simples engrenagem padronizada.


A normalidade desta estrutura se manifesta na rotina, a repetição anacrônica de práticas a contragosto de nossos anseios, reproduzindo um sistema elaborado para nos condicionar a um estado de resignação, seguimos silenciosamente e bovinamente a um abandono da vida em sua plenitude, um abandono do tempo e das relações humanas em detrimento da produção de uma riqueza que nem será nossa, mas sim de poucos que se apoderam desse sistema.


Quando Clóvis Barros Filho exemplifica a escola da tristeza como um instrumento de construção da nossa passividade diante desta estrutura, ele usa a figura do aluno que estuda uma grande quantidade de conteúdos que a ele não faz sentido, pensando somente no “passar de ano”, como se a espera do que está por vir seja melhor que o entediante maçante agora. Assim ele espera ansioso pelo ano seguinte, pela faculdade, posteriormente pelo trabalho, por que o agora é chato, é a vida da artificialidade, é a vida que construíram para ele sem ao menos perguntar se era essa a que ele queria. Assim completamente adaptado, o trabalhador vive a constante espera pelo por vir, o final de semana, o feriado, as férias, a aposentadoria, não somente a espera por um merecido descanso, mas um anseio, um desejo para preencher os dias com uma vida que lhe foi negada.


Não quero que pensem que estou condenando toda a forma de trabalho, o trabalho possui uma importância fundamental na dignidade e no desenvolvimento do nosso ser social, porém busco aqui tecer considerações a respeito do excesso, do constante consumo de nosso tempo de vida e de nossas energias, desse desgaste que nos causa esgotamento, traumas e doenças físicas e psicológicas.


Por fim pra dar um caráter cômico a esse nosso infortúnio e rir da nossa própria desgraça, parafraseio o saudoso boxeador brasileiro Maguila ao dizer inocentemente e erroneamente o conhecido ditado popular "O trabalho DANIFICA o homem"


Boa semana meus amigos! Vamos trabalhar e viver e não somente viver para trabalhar.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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