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DO FARDO DE SER LIVRE AO REFÚGIO NO AUTORITARISMO

há 20 horas
3 min de leitura


Em 1943, Sartre disse: "O homem está condenado a ser livre". Ao cunhar essa máxima em meio aos escombros de uma Europa devastada pela guerra, o filósofo francês não celebrava a liberdade como um privilégio, mas a definia como um fardo. Existir é escolher, e escolher exige carregar o peso intransferível das consequências de cada ato. Para Sartre, não há desculpas: nem o destino, nem a biologia, nem os deuses podem nos absolver. No entanto, a história da humanidade revela que o ser humano nutre um pânico profundo dessa autonomia absoluta. Diante da angústia de falhar e da incapacidade de suportar a culpa por seus próprios fracassos e atrocidades, o homem especializou-se na arte de terceirizar seu destino.


E o Homem criou deus/deuses à sua imagem e semelhança.


No início, o politeísmo servia para culpar os deuses pelos caprichos da natureza e pelos massacres; com o advento do monoteísmo, a criação de um ser malvado absoluto tornou-se uma necessidade psicológica e teológica para salvar a reputação de um Deus bondoso diante do paradoxo do mal. Assim, ao atribuir a barbárie, a ganância e os assassinatos à "tentação das trevas", o ser humano construiu o álibi perfeito para promover destruição e lavar as mãos em uma falsa pureza, evitando encarar o espelho de sua própria perversidade.


O Homem nasce ruim e a sociedade o piora.


Séculos mais tarde, a modernidade tentou romper com essa menoridade intelectual. O Iluminismo e a Revolução Francesa ergueram-se sob a promessa de que a razão e a ciência libertariam o homem de suas amarras místicas. O lema de que o ser humano era o único arquiteto de sua história parecia, finalmente, inaugurar a era da emancipação. Contudo, ao destronar os reis e enfraquecer o peso do divino nas decisões políticas, a promessa de liberdade cobrou o seu preço exato: a devolução da responsabilidade ao indivíduo. Sem reis, deuses ou demônios para culpar, a maldade passa a ser exclusivamente dos homens. Como suportar o peso da própria desgraça? A quem culpar por toda a maldade que habita o coração humano? Não romperam com os já existentes, mas criaram novos.


Ninguém se torna nazista no vazio: os homens se radicalizam entre si, mediados pelo ódio, pelo medo e pela fabricação de inimigos.


O século XX provou, de forma sangrenta, que a humanidade não tolerou o peso dessa herança racional. Em períodos de profunda crise econômica e desamparo social, o medo da liberdade manifestou-se como um sintoma psicótico coletivo. O nazismo alemão demonstrou como uma sociedade civilizada e democrática, horrorizada com a própria decadência e paralisada pela angústia da escolha, escolheu voluntariamente entregar o seu destino a Adolf Hitler. O totalitarismo ofereceu às massas a paz da submissão: o indivíduo não precisava mais pensar, decidir ou sentir culpa; o Führer decidia por ele. Sob o manto do Estado totalitário, as maiores atrocidades foram cometidas com a consciência anestesiada de quem apenas cumpre ordens.


E conhecereis a mentira, e a mentira vos livrará do fardo de ter que pensar.


Essa trajetória cíclica nos conduz diretamente à atualidade. Hoje, vivemos sob o teto de democracias liberais que prometem autonomia, direitos e o poder de decisão pelo voto. No entanto, o homem contemporâneo redescobriu que a liberdade democrática é um espelho cruel. Quando a economia falha, quando o desemprego bate à porta ou quando a vida pessoal se resume ao fracasso, a democracia responde com uma verdade insuportável: a escolha foi sua.


Incapazes de conviver com a culpa de suas decisões e assustadas com a complexidade de um mundo livre, parcelas expressivas da população entram novamente em pânico existencial. O ressentimento social transforma-se no combustível perfeito para a busca por figuras autoritárias. O ditador, o autocrata ou o populista de extrema-direita surge na cena contemporânea desempenhando exatamente o mesmo papel das divindades do passado: ele se oferece como o "Deus Forte" que promete ordem e proteção em troca de obediência cega. Paralelamente, criam novos "demônios" (os gays, os negros, a imprensa, as instituições, os imigrantes, os nordestinos...) para que as massas descarreguem suas frustrações sem o peso do remorso. O autoritarismo atual nada mais é do que o refúgio de uma sociedade que prefere a servidão confortável à angústia de ser, como previu Sartre, a única responsável por si mesma.

 

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