Gestão Paulinho Imila: um ano de pequena política


Fonte: Prefeitura de Itapuranga. Disponível em: facebook.com/prefeituraxixa/photos. Acesso em 05/02/2022

Talvez não seja demasiado afirmar que a eleição de Paulinho Imila e Dr. Paulo Horta no processo eleitoral de 2020, no município de Itapuranga, interior do estado de Goiás, tenha representado o início de uma transformação política e social que poderá ter um reflexo mais abrangente no pleito eleitoral de 2022. No contexto eleitoral das eleições municipais, diante de um cenário de muita criminalização da esquerda, sem um horizonte de expectativa para o segmento progressista no país, onde e quando os efeitos avassaladores da política neoliberal encontravam representação mais no campo teórico do que na prática, o Partido dos Trabalhadores conseguiu eleger tanto o prefeito quanto o vice-prefeito numa cidade interiorana do estado de Goiás.


No processo eleitoral de Itapuranga/GO, duas vertentes da política nacional estiveram presentes no imaginário da população, a saber, a vertente do Partido dos Trabalhadores sinalizando por mais políticas públicas, mais presença do estado na vida das pessoas. A outra vertente encontrava-se embevecida de neoliberalismo e meritocracia. Qualquer identificação com os dois projetos mais proeminentes do processo eleitoral de 2022, a meu ver, não pode ser compreendido somente como sendo uma mera coincidência, principalmente se observado tanto os resultados daquele processo, ano de 2020, quanto os possíveis resultados desse, ano de 2022. A conquista eleitoral do Partido dos Trabalhadores em Itapuranga poderá ser compreendida enquanto uma pequena, no entanto, importante amostra do cansaço e da mudança de percepção da sociedade sobre o que representa, na prática, a austeridade fiscal/equilíbrio fiscal, meritocracia e estado mínimo.


Os resultados da combinação de equilíbrio fiscal, meritocracia e estado mínimo, conforme demonstra inúmeros estudiosos, sendo possível destacar David Harvey (2008) e o seu clássico livro Neoliberalismo: história e implicações, historicamente e no tempo presente representam desemprego, empobrecimento maciço e fome. Historicamente os resultados do neoliberalismo foram esses. No tempo presente, os efeitos do neoliberalismo, escondidos em discursos menos agressivos, tais como equilíbrio fiscal ou controle dos gastos públicos, não demonstram ser diferentes. Qualquer dúvida sobre os efeitos drásticos do neoliberalismo na realidade social, recomendo observar os índices sociais e humanitários do Brasil antes de 2016 e posterior a esse contexto.


Diante desse contexto, a eleição de Paulinho Imila e Dr. Paulo Horta, a conquista eleitoral do Partido dos Trabalhadores no município de Itapuranga/GO, representou esse sentimento de transformação ou quem sabe de retorno de um tempo de antanho, talvez não tão distante assim, que sinalizava para a possibilidade de uma vida digna, com presença do estado e políticas públicas de transformação social na vida das pessoas. Esse projeto, de maior presença do estado, pelo menos no imaginário popular, consagrou-se vitorioso, derrotando a meritocracia neoliberal, derrotando a outra vertente política que disputava o espaço de poder no município.


No entanto, torna-se válido ressaltar que no transcorrer da campanha do Partido dos Trabalhadores no ano de 2020 no município de Itapuranga/GO, dois projetos distintos foram apresentados para a sociedade. Não estou me referindo a disputa entre mais estado e neoliberalismo. Estou me referindo as divergências internas no seio do próprio Partido dos Trabalhadores. Nesse percurso, divergências importantes surgiram para definir qual seria o caminho trilhado na condução da campanha. No primeiro momento a pauta moralista, até então com muita penetração no imaginário popular, apareceu para a sociedade itapuranguense. Nessa construção, a campanha inicial do Partido dos Trabalhadores procurava construir uma ideia de um estado corrupto, de um poder público corrupto que somente produziria corrupção, e que seria necessário estancar a sangria. Ou melhor dizendo: “fechar a torneira da corrupção”.


Essa tese, apresentada no primeiro momento, tocando em problemas superficiais da sociedade, tinha sido utilizada pelos poderes hegemônicos no Brasil, a saber, mídia, judiciário e mercado financeiro justamente para criminalizar o Partido dos Trabalhadores a nível federal. Foi justamente essa tese moralista que foi inserida no centro da campanha política do Partido dos Trabalhadores no município de Itapuranga/GO. Essa pauta moral, que não é nova na política nacional, historicamente se constituiu enquanto uma pauta dos partidos de Direita e de Extrema-direita. Representantes dessa pauta moralista não faltam na história política do país, a saber, Jânio Quadros, Carlos Lacerda, Enéas Carneiro, Jair Bolsonaro e tantos outros. Entretanto, por desconhecimento histórico ou embevecido do lavatismo moralista, foi esse o tom inicial da campanha do Partido dos Trabalhadores no supracitado município.

Compreendendo que, além de ser uma pauta que experienciava um desgaste popular, um grupo considerável de simpatizantes, militantes e outros atores e atrizes sociais procuraram demonstrar o equívoco e a falência do próprio Partido dos Trabalhadores no município de Itapuranga/GO caso o tom moralista que, reitero, a nível nacional havia sido determinante para a criminalização do partido e da própria esquerda, continuasse sendo gestado pelo próprio partido no cenário municipal. Essa inquietação com o moralismo e a própria tentativa de demonstrar a importância de uma pauta que defendesse a inclusão social, a redução da pobreza e uma vida digna para todos e todas, tendo um estado presente no cotidiano social foi, a meu ver, determinante para a conquista eleitoral do Partido dos Trabalhadores. As pessoas não estavam interessadas em “fechar a torneira da corrupção”, tinham anseio por políticas públicas. O moralismo, no final das contas, acaba sendo o refúgio de quem não tem nada para oferecer.


A partir dessa breve digressão fica perceptível que a campanha eleitoral do Partido dos Trabalhadores no município de Itapuranga/GO não teve uma linha “editorial” unívoca, pelo contrário. No percurso de alguns meses, de maneira mais intensa no último mês do pleito eleitoral, embates e divergências internas estiveram presentes na campanha. Diante dessas disputas, a pauta das políticas públicas se saiu vitoriosa, não somente por ter ampliado a capacidade de circulação da campanha, mas saiu vitoriosa porque Paulinho Imila e Dr. Paulo Horta foram eleitos no final de 2020.


A partir da eleição havia toda uma expectativa de que as políticas de transformação social, que foram apresentadas com mais intensidade na parte final da campanha, não esquecendo dos embates e debates para apresentá-la para a sociedade, pudessem ser implementadas logo nos primeiros dias de governo. No entanto, dois problemas rapidamente sinalizaram para os “esperançosos” que a expectativa de transformação social poderia se realizar, mas depois de um processo longevo.


O primeiro desses problemas está relacionado com o cenário de pandemia do coronavírus. Qualquer avaliação política que não leve em consideração à pandemia do coronavírus e o próprio esforço do governo federal de amplificar a tragédia humanitária e sanitária é, no mínimo, desonesta. Nesse sentido, o Partido dos Trabalhadores teve que se deparar com um problema muito mais abrangente. No entanto, além desse problema nacional/mundial ocasionado pelo coronavírus, existia, também, os obstáculos internos para a implementação das políticas públicas de transformação social. Para a desesperança dos esperançosos, a composição do secretariado, salvo algumas e importantes exceções, sinalizava para o retorno da política moralista que tinha sido a pauta inicial da campanha do Partido dos Trabalhadores no município de Itapuranga/GO.


Para a decepção de muitos, a composição do secretariado do Partido dos Trabalhadores, não em sua totalidade, mas de forma bem expressiva, tinha e continua tendo representantes do que há de mais perverso e destrutivo na sociedade brasileira atualmente, a saber, o moralismo bolsonarista e o neoliberalismo. Diante dos desafios inerentes, pandemia e anseio de políticas públicas por parte da sociedade itapuranguense, a maneira mais eficiente de implementar essas políticas de transformação passa, prioritariamente, por ter um secretariado, em sua totalidade, voltado para os anseios populares, que entendam a importância das políticas públicas e tenham sensibilidade para olhar os mais pobres enquanto vítimas do capitalismo, e não os responsáveis pela miséria social que os assola.


Afinal, não pode ser entendido com naturalidade o fato de o governo do Partido dos Trabalhadores em Itapuranga/GO ter, nos quadros dirigentes, responsáveis diretos pela produção de Políticas Públicas de transformação social, pessoas ligadas ao que há de mais retrógado e elitista na sociedade brasileira. Alguém, em sã consciência, imagina o fenômeno oposto. Ou seja, alguém consegue imaginar um governo moralista/bolsonarista com militantes do Partido dos Trabalhadores nos quadros dirigentes, com militantes do Partido dos Trabalhadores ocupando cargos no primeiro escalão do governo?


Bom, essa excepcionalidade à moda itapuranguense ocorre na atual gestão. O resultado desses fatores, pauta moralista resgatada e implementada, composição do secretariado, resguardando importantes exceções, aproximação do grupo político neoliberal que foi a principal oposição na disputa eleitoral de 2020, somado a força destrutiva da pandemia e do governo federal, impossibilitaram que a gestão Paulinho Imilia tivesse condições de produzir políticas públicas de transformação social para o município de Itapuranga. Diante da ausência de políticas públicas de transformação social, infelizmente, para aqueles que tinham esperança somente sobrou a pequena política para ser apresentada para a sociedade.


A pequena política está representada na recuperação de uma ponte, limpeza urbana, pintura de meios-fios, cuidado com as estradas, operação tapa-buraco e assim por diante. Uma constatação da pequena política implementada até então pelo Partido dos Trabalhadores no município de Itapuranga/GO pode ser observada pelos incontáveis vídeos de representantes do poder público que aparecem nas redes sociais recuperando uma ponte, construindo um mata-burro, ou mesmo “colocando a mão na massa” na limpeza urbana. Isso tem nome, não é populismo rasteiro à moda de Colatina/ES, mas pequena política. A pequena política aparece quando as políticas que transformam vidas não foram implementadas.


A pequena política, marca registrada do Partido dos Trabalhadores no município de Itapuranga/GO no primeiro ano de governo, não deve ser compreendida enquanto ações que não tem relevância. Evidentemente que têm relevância, mas não são suficientes. A pequena política não transforma vidas. Recuperação de uma ponte, por exemplo, resolve momentaneamente o problema de uma determinada localidade, mas o Cartão Xixá[1] alimenta quem tem fome. Itapuranga não é diferente do restante do Brasil, tem muita gente com fome aqui.


Enfim, o governo do Partido dos Trabalhadores, o famigerado governo da esperança, o governo participativo e popular, a gestão Paulinho Imila, tem mais três anos de governo. Isso significa que existe um tempo considerável para reverter o cenário, fazendo da pequena política não mais uma regra presente em vídeos institucionais no primeiro ano de governo, mas uma sutil exceção. Para implementar todas as políticas de transformação, a grande política, faz-se necessário ter sensibilidade, ter ousadia, acreditar que é possível transformar a vida das pessoas, oferecendo-lhes uma vida plena, permeada por dignidade.


Desejo, sinceramente, que o governo da esperança não fique somente enquanto uma retórica de campanha.







Notas:

[1]O Cartão Xixá foi apresentando no processo eleitoral como sendo uma política pública que seria implementada pelo Partido dos Trabalhadores no município para erradicar a fome das pessoas e, ao mesmo tempo, fortalecer a agricultura familiar do município. Durante o processo eleitoral, o Cartão Xixá esteve representado pelo programa Itapuranga sem Fome. No ano de 2021 o projeto avançou. O projeto desenhado pela Prefeitura Municipal foi apresentado e aprovado pela Câmara Municipal de Vereadores/as. No entanto, até o presente momento, o projeto que reúne condições de reduzir a precariedade social no munícipio, se consolidando como uma das grandes políticas da gestão Paulinho Imilia, esbarra em trâmites burocráticos e ainda não foi implementando.

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