Professor: profissão ou bico?


Provavelmente você já ouviu esta frase: “Professor: a profissão que forma todas as outras.” Lindo, né?! Então, por que a profissão é tão desvalorizada? O carinho e o prestígio pelo trabalho docente ficam apenas no nível poético, pois a realidade encarada no seu dia-a-dia é bastante dura.


Embora a profissão seja bastante romantizada nas campanhas publicitárias e políticas (principalmente políticas), ser professor é considerado um bico por boa parte da sociedade brasileira, e o pior, por uma quase totalidade dos nossos governantes. Atualmente somos tachados de doutrinadores também, mas isso é assunto para outro momento. Continuemos com a crítica em relação ao bico.


Isso é tão intrínseco à sociedade, que muitos ex-alunos me encontram e já mandam logo a pergunta: “Você ainda dando aula?” A resposta geralmente é: sim, ainda... Mas o que sinto por dentro é uma enorme vontade de responder assim: Olha, eu cursei 4 anos de faculdade, um ano de especialização (muitos, mais 2 anos de mestrado e 4 de doutorado). Estudei como um maluco para conseguir passar em um concurso disputadíssimo para exatamente dar aula. Todo ano, faço em média, 400h de cursos de atualização e aperfeiçoamento. O que te faz pensar que eu encararia a minha profissão como um bico? Mas isso daria muito trabalho, e, provavelmente, encarariam como grosseria. Melhor ficar apenas no “sim, ainda” mesmo.


Não posso culpa-los, estão apenas externando, mesmo que sem perceber, o imaginário social em relação ao nosso trabalho. Isso talvez seja pelo fato de um professor ter uma remuneração 40% menor do que a média dos profissionais com o mesmo nível de graduação em outras áreas. Ou, quem sabe, pelo desprestígio social enfrentado pela classe. Seja como for, sejam quais forem os motivos, este imaginário se reflete nas políticas públicas de educação, onde cada centavo investido no professor é contabilizado como gasto e não como investimento.


Todas as conquistas, embora modestas, adquiridas a duras penas pela categoria durante alguns anos de governança progressista, têm sido destruídas em pouquíssimo espaço de tempo com os governos atuais, que, por valorizarem a ignorância, consideram a educação como inimiga. A cada reforma feita, seja política, administrativa ou previdenciária, a classe é uma das mais prejudicadas. Só na última reforma da previdência, o professor ganhou mais 10 anos em sala de aula e perdeu o direito à aposentadoria integral. Se não morrer em sala, morre de fome depois que se aposentar. A reforma administrativa, que provavelmente será aprovada, acaba com a estabilidade do professor, promovendo de vez a total “uberização” da profissão docente.


Tudo isso contribui ainda mais com a visão de que “dar aula” é uma atividade secundária, um complemento de renda. Uma atividade para ser exercida caso você esteja desempregado, ou sem outra opção. Por incrível que pareça, a profissão que forma todas as outras, e, aqui, sem romantismo ou poesia, é entendida como bico.

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