Uma ameaça sem sobrenome
- Lucas Pires

- 27 de abr.
- 4 min de leitura

Nos últimos anos, a sociedade brasileira enfrentou experiências terríveis: consolidação de um golpe de estado e ascensão da extrema direita, resultando no desmonte das políticas públicas essenciais para a garantia de uma melhor qualidade de vida. As consequências desse lamentável estado da “arte” são perceptíveis nos mais diferentes elementos do cotidiano. No entanto, entre as possibilidades de análise, destaca-se o fato de a ideologia de extrema direita ter se tornado uma força hegemônica na sociedade.
Resultado da consolidação do capitalismo neoliberal, retirando os direitos mais elementares das pessoas, a hegemonia da extrema direita torna-se uma grave ameaça à democracia e ao estado democrático de direito. Nesse sentido, quando identificamos que, no mínimo, um terço do eleitorado tem disposição para defender o projeto de autodestruição, expressão máxima do estado suicidário, existe a constatação de um fenômeno que, possivelmente, as afirmações mais categóricas - fascismo, neofascismo, neonazismo - não sejam suficientemente capazes de explicar.
Evidentemente que a adesão irrestrita ao projeto de extrema direita, independentemente dos resultados práticos e objetivos quando da conquista do poder, tem uma relação estreita com os regimes totalitários da primeira metade do século passado. Porém, por mais que seja importante, o passado não reúne todas as condições para explicar o presente. Para uma melhor compreensão sobre as ações e relações contemporâneas, também é necessário identificar e entender os fenômenos da curta duração. Nesse ensejo, destaca-se a insurgência de um fenômeno. Por exemplo: quando olhamos para um recorte temporal recente, identificamos que a perspectiva de futuro, de utopia ou horizonte de expectativa desapareceu do tecido social. O futuro se tornou o lugar da distopia, não somente nos filmes de ficção científica, mas no imaginário coletivo.
Possivelmente, pessoas mais críticas afirmarão que a distopia do futuro está materializada no tempo presente: emergência climática, projetos colonialistas, imperialismo, epidemias, aumento da desigualdade social, guerras, fome e tantas outras mazelas. De fato, a leitura mais crítica faz todo o sentido. Mais do que um fenômeno localizado ou tipicamente brasileiro, a ascensão da extrema direita se consolidou como uma realidade em parte considerável dos países “ocidentais”. Diante desse projeto, quando a certeza de um futuro mais promissor, humano, acolhedor, oferecendo condições para uma melhor qualidade de vida desaparece do horizonte, principalmente porque as pessoas têm a certeza de que o futuro, nessa linha de raciocínio, será mais perverso que o presente, uma parcela considerável da sociedade se volta para um passado imaginário, acreditando que a qualidade de vida estaria representada em um modelo de sociedade idealizada em algum tempo longínquo.
Existe uma relação direta e imediata entre a ascensão da extrema direita e a idealização de um passado imaginário. O projeto não está voltado para o presente e muito menos para o futuro. O objetivo e os fatores que conquistam mentes e corações, com uma inserção ideológica cada vez maior na classe trabalhadora, estão representados na possibilidade de um eterno retorno. No entanto, quando da conquista do poder pela extrema direita, as consequências práticas no tecido social, especialmente para a população pobre e vulnerável, são as mais devastadoras possíveis. A sociedade brasileira experienciou essa realidade recentemente e, nesse momento, existe uma possibilidade de o projeto de autodestruição conquistar novamente o poder. Projeto que, evidentemente, tem nome, mas que os setores da elite – mercado financeiro, grandes meios de comunicação – se recusam a pronunciar o sobrenome.
Diante da possibilidade suscitada, inviabilizar o projeto de extrema direita se tornou uma questão essencial para todos e todas que vislumbram a urgência de garantir o presente e construir um outro mundo possível. Esse outro mundo estabelece uma relação tênue entre o contemporâneo e o futuro. Nesse ensejo, entende-se a necessidade de um presente repleto de garantias e de conquistas sociais, entregando qualidade de vida e dignidade para todas as pessoas. Um presente que insira a preservação ambiental como prioridade de Estado, colocando-o para cuidar das pessoas, oferecendo saúde, educação, moradia, terra, espaços de lazer, de cultura e tantas outras possibilidades para a garantia de uma vida digna, entendendo-a como uma prioridade inegociável. A garantia de uma vida plena no horizonte contemporâneo será fundamental para a existência do futuro.
Conforme apresentado, o vetor da extrema direita é a política da destruição. Destruindo o presente, impossibilitam a existência do futuro. Pelo fato de o projeto ser uma antítese de um outro mundo possível, a extrema direita apresenta para a sociedade a possibilidade de um eterno retorno, de um passado imaginário. Diante das tristes e lamentáveis circunstâncias, o sonho, a utopia e o horizonte de expectativa sobre a urgência de um outro mundo possível tornam-se uma questão essencial para a sobrevivência da humanidade. No entanto, para existir a possibilidade do futuro, não é suficiente a derrota eleitoral do projeto da extrema direita. Mais do que isso, torna-se fundamental retirar a hegemonia desse projeto do tecido social. Evidentemente que não existe uma leitura única e assertiva para a desconstrução de uma ideologia que se tornou hegemônica. Porém, tateando uma possibilidade, seria importante a apresentação, durante o processo eleitoral, de um projeto radicalmente oposto ao capitalismo neoliberal.
A política de conciliação, procurando governar ou contornar os problemas do capitalismo neoliberal, não tem sido suficiente para a garantia do estado democrático de direito. Com a insuficiência do Estado, perceptível na precarização da vida, parte considerável da sociedade fica suscetível à retórica do medo e do ódio, colocando em segundo plano as garantias sociais para acabar com “tudo que está aí”. Porém, acabar com “tudo que está aí”, em termos práticos, significava destruir o presente e inviabilizar a existência do futuro.
No tempo presente, deparamo-nos com uma ameaça real, que esconde o seu sobrenome. A ameaça não se insurge contra o neoliberalismo. Pelo contrário: é a consequência direta dos avanços e dos resultados práticos dessa política de destruição de todos os direitos e garantias fundamentais da sociedade. Feita a constatação, talvez mais utópico do que a necessidade de se construir um outro mundo possível, seja a frágil ideia que vislumbra a possibilidade de derrotar a extrema direita governando os seus escombros.







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