Eros


Minha mente é como se fosse um outro “eu”. Em quiasma, dois de mim se digladiam. Um contra os miasmas da emoção espúria. O outro, levado ao fim, vislumbra o oceano das paixões humanas. Querela desgraçada!


Julgar-me-ão que minhas letras não apontam para questões de julgo pertinentes. Não traço letras seguindo regras ou padrões definidos por “sistemas” ou “estruturas” de qualquer feitio. Não faço vista e respeito a padrões já acabados. Tomo nota daquilo que penso e, quando me refiro a “pensar”, introduzo, sem receio, os devaneios que me são diurnos. A liberdade da escrita, já dizia Foucault, é um bem sem ao qual o autor suprime à sua existência.


Muitos indagam: porque não política, economia, ciência, educação, futebol? Minha resposta: são temas importantes. Não os nego uma vez que reconheço minha “ignorância”, no aspecto da humildade do discurso. Afirmo ademais, que não quero e preciso seguir, como muitos seguem, uma espécie de “estrutura tematicamente hierarquizada”. Exemplo: vivemos e, não estou aqui menosprezando o debate, tempos sombrios no ‘quesito’ política e economia. Pergunto: serei eu, vítima dessa “estrutura tematicamente hierarquizada”? Terei, em específico, de dissertar sobre política e economia? Não poderia fugir a tal regra? Porque não outros temas? Arte, sexo, morte, prazeres, cinema, teatro...


Já que expus meu desabafo, que aos olhos de muitos e ao ego de vários soará como prepotência e arrogância, dissertarei sobre um tema que, variavelmente, me incomoda sobremaneira nos últimos tempos. Certamente e muito provavelmente quando de sua publicação, este texto encontrará em atraso de suas pretensões. Todavia, não dou razão para prazos e menos ainda a esquemas postulantes; devido então a não me retratar neste devaneio. Quero, livremente, e livre entendo liberdade para tratar em letras meus pensamentos, discorrer sobre um tema em particular: o amor.


Me incomoda grandemente esse – irei denominá-lo de “termo ou categoria indefinido” – “amor”. As pessoas tendem a utilizar esse “termo ou categoria indefinido” sem refletir de modo acuado sobre suas verdadeiras significações. Culpa delas? De modo algum. É muito comum ouvirmos as seguintes proposições: “meu amor”; “amor” (referindo-se ao sujeito); “eu te amo” e etc. Pessoas professam, quase que como um religioso, um “eu te amo” como se alimentam, não refletem sobre se tem que comer ou não, apenas comem.


Antes que me joguem pedras, entendo por “amor” nessas letras, um mero e sinótico desejo. Quero dizer: o amor, como muitos dizem afirmar ter ou distribuir, não passa de “desejos”. Minha proposição final: o amor não existe. Ele não passa, variavelmente, de “desejos”. Para centrar minhas afirmações de modo ou maneira doxai (verdade), vou me deter em dois pensadores: Platão e Nietzsche.


Platão diz brilhantemente que, “amor” é Eros. Eros, para Platão, é desejo. Desejo que se resume em “vontade” de ter, em que tendo, se transforma em posse, em que possuindo se transforma em medo de perda, pois possuindo, o risco de perda acarreta o aumento do vetor de posse, que diminui em determinados níveis, a possibilidade de perda. Aforismo complexo.


Amor como desejo, não como sentimento. Amor como desejo de posse, logo de possuir. Desejo de posse que comporta, em termos Freudianos, “princípios de prazer”. “Posse”, que tem nos instintos mais animalescos que se conhece, sua verdadeira “essência”. Desejo de posse por algo, qualquer “algo”. É nestes maravilhosos protestos que Platão reverbera sobre o que vem a ser o amor.


Passando a Nietzsche, mas acompanhado de Platão, o filósofo alemão do século XIX diz que o amor se restringe à seguinte proposição: “força de potência”. Bebendo da fonte do pensamento platônico, Nietzsche vê o “amor” como um movimento exterior, quer dizer, fora dos domínios e capacidades de controle e regulação humana; que são promovidos por uma “potência” ou, uma “força de potência”, que nos leva a querer obter algo ou alguém.


Veja que, essa “força de potência” leva, em outras letras, a um movimento instintivo, mecânico, segundo Nietzsche, à procura da satisfação de nossas necessidades. Mais tarde, Freud irá afirmar essa proposição no campo da psicanálise, dizendo que a felicidade é mera e hipócrita realização e satisfação das nossas mais antigas e primitivas necessidades, como o sexo, por exemplo.


Vê-se que o “amor”, tanto em Platão quanto em Nietzsche é uma categoria ou termo que se centra na esfera do instinto humano, não caracterizando assim, o que concordo plenamente, um sentimento. Somos, pois, movidos por instintos que a todo momento nos estão presentes: fome, sexo, defesa, ataque e etc.


Ao invés de propormos: “eu te amo” e “eu também te amo” proporemos: “eu te desejo” e “eu também te desejo”. Desejo, como já mencionado, que ocupa o campo da obtenção (obter) e de possuir (posse). Desacredito, para finalizar meus devaneios, nessa “história fabulosa e homérica” de amor. Muitos irão me indagar: o que lhe moveu a esse propósito tão categoricamente defendido? Responderei a exemplo de Nietzsche: me frustrei “amorosamente” e, me foi, para meu próprio bem, desvendado a essência por de trás da aparência.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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