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Que triste é viver em um tempo onde oprimidos se vangloriam de seus momentos de opressão! Este mundo sempre foi um lugar de poucos privilegiados e de muitos excluídos. A equação parece simples, a lógica seria que aqueles em maior número se unissem e lutassem contra todas as mazelas que lhes são impostas, virando a mesa do jogo de poder. Mas na prática as diferenças só se intensificam, e o poder dos poucos privilegiados é mantido graças a uma cisão entre os excluídos, constatando aquilo Simone de Beauvoir dizia “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.”

 

 

Durante o horrendo período escravagista no Brasil os negros que fugiam de suas senzalas em busca da liberdade dos quilombos eram perseguidos por outros negros os “Capitães do Mato”, que conheciam os caminhos da mata e que desfrutavam de pequenos privilégios oferecidos pelos brancos para cumprir a nojenta e vergonhosa tarefa de perseguir seus irmãos. A escravidão foi abolida, mas a função de capitão do mato não, hoje diferente de outros tempos a perseguição não é mais física e sim ideológica, seu potencial se ampliou se tornando mais eficaz, pois alcançou a todos aqueles que são oprimidos.

 

O capitão do mato moderno age no campo dos discursos reproduzindo o discurso do opressor, com um tom amenizador busca minimizar as situações de sofrimento de seus semelhantes e legitimar a ação dos que oprimem como naturais. Quando um negro professa o discurso de que “não existe racismo” ele autoriza ao racista praticar suas ofensas da mesma maneira que sempre praticou e ao mesmo tempo enfraquece as lutas dos movimentos negros. É o que faz o vereador pelo estado de São Paulo Fernando Holiday, um jovem negro e homossexual que em sua plataforma política se fundamenta em: segundo ele, “Combater o vitimísmo”, reduzindo pejorativamente as pautas dos movimentos negros e LGBTs, Suas principais reivindicações em sua campanha e seu mandado foram: O fim das cotas em universidades e concursos, o fim do dia da consciência negra e o fim das secretarias de promoção da igualdade Racial. Discurso este que agradou a uma elite branca e que rapidamente deu a ele todos os holofotes e recursos que ele queria. Reproduzindo velhos preconceitos Holiday chama de vitimístas todos aqueles que lutam contra o racismo ou contra a homofobia, um discurso perigoso em um país que pratica grande violência contra esses grupos.

 

Holiday é um exemplo fácil de ser identificado de capitão do mato moderno, mas precisamos ir além, e identificar também as manifestações sutis que estão entremeadas em nosso cotidiano, como quando mulheres reproduzem discursos machistas ao censurarem a roupa ou os hábitos de outra mulher, ou quando atribuem a culpa de uma violência como o estupro à própria vítima justificando e autorizando o comportamento dos agressores. Podemos identificar facilmente nas empresas os capitães do mato modernos, aqueles operários que fiscalizam os colegas, denunciando aos patrões os que se movimentam para greves ou reivindicações. Estão por toda parte, destroem os seus semelhantes em busca de uma autopromoção, sem perceber que é apenas uma parcela maior de migalhas do que os demais recebem.

 

O potencial destruidor dos capitães do mato foi rapidamente desenvolvido pelas grandes corporações como instrumento de combate as organizações sindicais. Através do discurso corporativista de que “o funcionário é parte da fábrica” é implantada a ideia de que o funcionário deve intensificar seu trabalho para o bem da fábrica, e de que greves são um prejuízo para fábrica e também para eles, assim, desmantela qualquer princípio de greve e faz com que cada funcionário seja um fiscal de seu colega ao lado, é o olho e a ideologia do patrão em todos os lugares, assim como na distopia de George Orwell em 1984, é a ideologia do grande irmão colocada em prática pelos operários. Assim destroem a consciência de classe e sufocam qualquer insurgência contra as relações de poder.

 

Mas o que leva alguém a defender os interesses que não são seus, e defender tão ferrenhamente os interesses daqueles que o oprime? A resposta é simples: Educação. A nossa sociedade é regida por uma forma de pensar hegemônica, um pensamento dominante, que é propagado em todas as esferas sociais pela figura que possui maior influência e privilégios o homem/branco/hétero/burguês. Sua forma de pensar é estabelecida como regra natural a ser seguida, um modelo de vida ideal, em que os demais devem se adaptar, os que não se encaixam no padrão são inferiorizados e subjugados, sofrendo os mais diversos tipos de violências simbólicas e físicas. Diante desse cenário e da perpetuação do pensamento dominante e da incapacidade de enxergar uma realidade diferente através de um questionamento do que lhe é imposto, o excluído passa a almejar como único caminho a seguir a busca pelos mesmos privilégios que seu explorador possui, como dizia Paulo Freire: “Quando a pedagogia não é libertadora o sonho do oprimido é ser o opressor.” Neste sentido a educação possui um papel fundamental para mudar este cenário, pois somente ela é capaz de proporcionar uma emancipação de pensamento que conduza a um enfrentamento e a uma verdadeira afirmação social dos sujeitos que hoje são excluídos.

 

É preciso uma educação emancipadora e libertadora para identificarmos o quanto discursos como os de Fernando Holiday se assemelham aos discursos de seus senhores e qual o seu papel na construção e manutenção de privilégios históricos de determinados grupos, para não cairmos no engano de uma falsa representatividade, e entender que ele não fala por ele ou por seus semelhantes e sim, como um boneco de ventríloquo, fala com a voz e as palavras de seu explorador, sem perceber que para eles é apenas um instrumento descartável.  Além disso, a educação nos proporciona não apenas identificar quem é quem nesse nosso conflituoso e confuso mundo, mas também nos permite mudar, e construir um novo discurso verdadeiramente autentico como um sonoro grito de “CHEGA” dos excluídos, que seja capaz se contrapor aos discursos e práticas opressoras de uma sociedade que privilegia a tão poucos em detrimento de muitos.

 

Boa semana amigos!  

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

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