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Governo Paulinho Imila: dois anos depois


No início do ano de 2022 escrevi um ensaio[1] no intuito de analisar o modus operandi do primeiro ano do governo Paulinho Imila. No contexto, procurei definir as políticas públicas implementadas enquanto uma característica marcante da pequena política. Um fenômeno recente, neoliberal e voltado unicamente para as redes sociais, procurando moldar o imaginário da sociedade com ações não transformadoras da realidade, mas que vão sendo massificadas e divulgadas incessantemente, passando a impressão de que uma profunda transformação está acontecendo. No entanto, essas políticas tocam somente na superfície dos problemas, sendo incapazes de alterarem a estrutura social.


Pouco tempo depois da publicação do ensaio, houve uma significativa repercussão. Por parte de uma esquerda vinculada ao governo municipal, a estética da recepção tomou caminhos diferentes. Algumas pessoas entenderam que o ensaio significava uma oposição ao governo Paulinho Imila. Outros indivíduos, do mesmo espectro ideológico, receberam-no de uma maneira mais cuidadosa, entendendo que constava naquele espaço uma crítica construtiva aos caminhos desenhados pelo governo municipal. Houve, também, uma tentativa de cooptação da tese por setores da Direita clássica e tradicional do município. No entanto, a tese defendida trabalhava com uma noção de intensificação das políticas públicas, perspectiva totalmente oposta ao ideário neoliberal e conservador que fundamenta os princípios ideológicos desse último segmento.


No contexto da escrita do ensaio, procurei fazer uma crítica contundente à política de conciliação do governo Paulinho Imila. Política de conciliação que trouxe para dentro do governo, ocupando Secretarias importantes, pessoas que representavam o que há de mais reacionário e violento na sociedade brasileira. A saber, indivíduos da extrema-direita. A estrutura política do país estava sendo conduzida por um governo federal que tinha implementado uma política de destruição do tecido social. Naquele cenário, diante da mobilização coletiva e da força da militância partidária na eleição do primeiro governo de esquerda do município de Itapuranga, entendia que a inserção de indivíduos da extrema-direita no governo participativo e popular representava uma incapacidade de compreensão daquilo que estava em curso no Brasil, e, não menos importante, do significado que a eleição de Paulinho Imila e Paulo Horta evidenciava.


Sobre o significado, embora tenha feito referência a essa tese em várias oportunidades[2], a chegada ao poder público municipal de um governo de esquerda não se apresentava como o resultado da ascensão de uma única figura - Paulinho Imila - mas de uma mobilização coletiva, podendo ser representada nos movimentos sociais, tendo a sua origem no início da década de 1980. Além do recorte histórico, da luta e da resistência dos movimentos de base, um outro fenômeno deve ser levado em consideração para entender o processo que resultou na eleição de um governo de esquerda dentro de uma conjuntura dominada pela extrema-direita.


Para o entendimento do fenômeno, inserido na temporalidade recente, considero importante fazer uma rememoração sobre a mobilização da militância e da esquerda de uma forma em geral nas semanas que antecederam a eleição municipal. Diante de uma candidatura que flertava com teses lava-jatistas, muitos setores da esquerda deixaram as divergências ideológicas em segundo plano e conduziram um projeto progressista, democrático e participativo, apresentando-o a toda a sociedade. A união dos setores de esquerda, resultando na apresentação de um projeto inclusivo e comprometido com as políticas públicas, tornou-se o fator preponderante na eleição de Paulinho Imila e Paulo Horta. Qualquer tese diferente deverá ser levada em consideração, mas imagino que dificilmente terá condições de se sustentar.


A inserção de indivíduos da extrema-direita no governo, a presença das teses lava-jatistas e o distanciamento de alguns setores da esquerda inviabilizaram a construção de qualquer política pública que reunisse possibilidade de transformação social no primeiro ano do governo Paulinho Imila. Percebendo a dificuldade de apresentar resultados mais significativos à sociedade, se inspirando em outras figuras públicas, fenômeno das redes sociais naquele contexto, o Prefeito adotou a estratégia mencionada no início desse ensaio. Ou seja, divulgação massiva das pequenas políticas, procurando transformar o micro em macro. Porém, esse fenômeno é efêmero, causando um impacto inicialmente, mas proporcionando rapidamente um desgaste e um descontentamento na população. Por exemplo, quando se coloca no horizonte os fatores que conduziram Paulinho Imila e Paulo Horta ao poder municipal, entende-se que a sociedade esperava políticas públicas de transformação e não ações superficiais.


No tempo presente, tendo passado um pouco mais de dois anos da escrita do ensaio, diante do distanciamento do fenômeno histórico, continuo defendendo a mesma tese apresentada naquele contexto. Difícil encontrar uma outra categoria para representar o que foi o primeiro ano do governo Paulinho Imila. No entanto, procurando manter uma coerência e uma honestidade intelectual, a tese da pequena política não pode ser utilizada para representar ou definir os últimos dois anos do governo participativo e popular. Desde o ano de 2022 uma transformação profunda tanto na construção quanto na implementação das políticas públicas se faz sentir no horizonte, sendo responsável por uma mudança significativa na realidade social itapuranguense.


Tomando os devidos cuidados e entendendo que qualquer definição pode ser problemática, mas abrindo uma exceção para fazê-la nesse espaço, considero que os dois últimos anos do governo Paulinho Imila têm sido revolucionários. Estamos acompanhando a efetivação de políticas públicas que têm transformado a realidade social, garantindo dignidade para uma parcela da sociedade que, historicamente, sempre esteve à margem das ações governamentais. Quando existe um escrutínio mais minucioso do projeto vitorioso no processo eleitoral, ou seja, aquele projeto coordenado e apresentado pelos setores de esquerda, percebe-se que várias das políticas públicas apresentadas naquele período foram ou têm sido implementadas no decorrer dos últimos dois anos.


Se o governo participativo e popular conduzisse uma política de comunicação e não de informação, considerando os últimos dois anos, a reeleição estaria praticamente assegurada. Entretanto, pelo fato de a comunicação estar distante do horizonte do governo, parecendo ser um problema crônico da esquerda partidária no Brasil, é provável que a disputa eleitoral seja, mais uma vez, marcada por uma polarização entre os setores hegemônicos da política nacional, refletindo-se diretamente na esfera municipal. A saber, uma aliança dos setores progressistas e democráticos em torno da figura de Paulinho Imila e uma outra força, representada pela extrema-direita, contando com o apoio dos setores mais conservadores e reacionários da sociedade.


O processo político/eleitoral se aproxima e a grande metamorfose ocorrida no governo Paulinho Imila, deslocando-se de uma pequena política para uma transformação mais profunda da realidade social, poderá garantir as condições para a continuidade de um projeto cada vez mais sensível e comprometido com os problemas da classe trabalhadora itapuranguense. Porém, para a possibilidade tornar-se uma realidade, uma outra grande transformação faz-se necessária. A saber, o governo participativo e popular deverá se distanciar da política informativa e construir uma política sensível de comunicação.  



Notas:


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2 Kommentare


Oi, Samuel. Gostaria de agradecer tanto pela leitura quanto pelas valiosas considerações. Sim, você tem muita razão quando sinaliza para uma dificuldade de produzir políticas públicas no primeiro ano do governo Paulinho Imila. Essa dificuldade pode ser explicada, entre outros fatores, pelo aparelhamento ideológico presente no primeiro momento, quando pessoas da extrema-direita ocuparam secretarias importantes. Conforme temos acompanhado com a ascensão desse segmento na sociedade, o princípio desse setor, quando chega na política partidária, não é para construir e, consequentemente, melhorar a vida das pessoas, mas para atender interesses de caráter conservador, neoliberal e moralista. No entanto, nos dois últimos anos, esse reencontro com as demandas progressistas e democráticas modificaram radicalmente o desenho do governo Paulinho Imila, não somente no…


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Professor Dr. Lucas Pires, ao obter contato com o texto e, posteriormente, toma-lo como produto de reflexão, senti-me também no dever de retornar a vossa primeira análise sociopolítica realizada em observação ao primeiro ano de gestão do Governo Paulinho Imila / Partido dos Trabalhadores, com o texto intitulado "Gestão Paulinho Imila: Um Ano de Pequena Política". Podemos observar uma concatenação clara e evidente dentro dos primeiros anos de gestão que é o processo de conciliação, oriundo da politica social-democrata. No entanto, estas conciliações entre um governo de esquerda e indivíduos de extrema-direita (que tornaram-se componentes administrativos com cargos relevantes e secretarias), foram como galhos secos nas engrenagens do desenvolvimento das políticas públicas, critica esta a qual o senhor ressalta com…

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