A Destruição dos Mitos

Na semana passada, escrevi um texto, que pode ser encontrado nesse espaço do Além dos Muros, que procurava pensar o mito como um elemento indissociável do cotidiano social. Procurei escrever esse texto, porque muitos entendem que os mitos pertencem a uma esfera sobrenatural, distante das nossas realidades. Talvez, nos dias atuais, se torna mais fácil para as pessoas compreenderem o mito como um fenômeno nosso, do cotidiano, que dorme e acorda conosco.


Essa possibilidade de leitura é possível, em virtude do termo Mito ter se vulgarizado dentro do contexto atual. Alguns exemplos, recentemente estava acompanhando uma partida de futebol, e o narrador disse que determinado jogador era mito, que o treinador era mito, e que a torcida era um mito maior ainda. Se observado for, existem questões que diferenciam os mitos construídos ao longo do processo histórico para com os mitos criados na atualidade.


A primeira delas, é óbvia, pode ser explicada pela própria história, ou melhor, pela historicidade dos mitos. Nos dias atuais, os mitos, evidentemente, não passaram pelo crivo da história, não se enraizaram socialmente, podendo se enraizar, assim como podem desparecer de forma efêmera. Por exemplo, o jogador que hoje é chamado de mito por estar marcando muitos gols, possivelmente perderá essa representação depois de algumas partidas ruins. Os mitos de hoje vem e vão de forma rápida.


O segundo exemplo que diferencia os Mitos atuais, dos Mitos históricos, está na construção coletiva. As várias representações de Mito na contemporaneidade partem de grupos isolados, que se fecham em seus nichos e acreditam que representam toda uma conjuntura social. Recentemente tive a oportunidade de presenciar algo interessante, um determinado cidadão esbravejava defendendo seu pré-candidato à presidência, dizendo que esse candidato era um mito e que não teria como perder as eleições de 2018. Diante de tanta certeza, resolvi indaga-lo acerca da sua certeza. A sua resposta não foi nenhum um pouco gentil, mas, me respondeu mais ou menos assim: “Você não acompanha as redes sociais? Passe a acompanhar que você verá que estou certo”. Diante da assertiva, pensei comigo mesmo: “Se ele entrasse nas minhas redes sociais, teria a certeza que um candidato progressista seria eleito em 2018”.


Esses exemplos fulcrais, demonstram o quanto a nossa sociedade produz e reproduz conceitos sem muita maturação, e se fecha em seu mundo, acreditando que aquele mundo representa os outros mundos. Temo que, com a vulgarização do termo mito, os Mitos venham a desaparecer. Hoje tudo é Mito, e essa constatação me faz acreditar que a sociedade brasileira caminha, sem perceber, para aniquilar os mitos presentes na construção da sua própria existência.


O conceito Mito está se tornando tão vulgar, tão natural, tão palpável, que a simples enunciação do conceito, interessa cada vez menos, a não ser para as pessoas que enxergam mito em todas as ações. Assim, entendo que os Mitos produzidos pela sociedade brasileira nesses últimos anos são, simplesmente, ridículos, e a não ser por uma hecatombe da História, desaparecerão rapidamente, assim como o ressurgimento do conceito que carregam nesse exato momento.


Diante de uma parcela da sociedade que parece ter certeza de tudo e sobre tudo, sempre é bom se precaver, e uma dessas formas de precaução está ancorada nos princípios da filosofia grega, a saber, na dúvida. Desse modo, temos uma alternativa, qual seja? Desconfie do sentido mítico dos Mitos atuais.


Abraço e boa semana para vocês!.

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"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

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