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Romaria de Guarinos: caminhada da amizade



Após vivenciar, por mais de 13 anos, uma caminhada ao Santuário de Nossa Senhora da Penha, na cidade de Guarinos (GO), estou convencido de que a amizade entre os romeiros e os homens e mulheres que se encontram em meio ao caminho se fortalecem e fazem com que um sentimento de pertença se solidifica a cada dia mais.


Amizade aqui não é uma categoria qualquer, mas está carregada de sentido e é capaz de romper outros conceitos que estão em voga em nossa sociedade neoliberal existente. Amizade que fora debatida e compreendida por Derrida, Foucault e Arendt (Ortega, 2000) como uma possibilidade de conseguirmos fugir aos conceitos que parece que nos igualam. Isso mesmo, a romaria de Guarinos é uma caminhada que se faz presente na amizade.


Tudo é compromisso do grupo, não é individualidade empreendedora. Os grupos de romeiros que fazem essa travessia todos os anos assumem o compromisso com os amigos. Uma construção de se colocar no lugar dos outros e fazer sentir o que os outros sentem. Seja uma quebra da rotina preconizada pelos conceitos neoliberais que tudo parece que se constrói a partir de sua própria capacidade. Na romaria tudo se faz com o grupo, desde a certeza de chegar no Santuário, quanto nos percalços vividos nas ladeiras, descidas, asfalto e muito chão batido.


A caminhada dos amigos traz um processo formativo diferente para todos nós. Quando um dos romeiros sente alguma dor, calos e outros infortúnios da rotina da travessia, todos, indistintamente, sofrem juntos. Desde os que estão com os pés na estrada quanto aqueles que estão no apoio sofrem e participam da rotina do grupo. É importante ressaltar que a amizade aqui exemplificada diz respeito aos que caminham, mas tal assertiva vale para os que estão em romaria nas comitivas de cavaleiros e amazonas, bem como daqueles que cortam o cerrado com os carros de boi.


Amizade “é coisa sincera”, já cantou o poeta. Neste sentido, o ser amigo em uma romaria é fazer tudo com essa proximidade e comprometimento de um para com o outro. Isso vale nos momentos de muitas conversas que são produzidas, em nosso caso, por mais de três dias juntos, quando falamos de tudo e de todos. Conseguimos fazer reflexões sobre a vida, o meio ambiente, o lixo nosso de cada dia, fazemos memórias dos companheiros que já estão em outro plano de vida. Tudo se reforça com essa amizade.


Lembrar das coisas que fizemos e das pessoas que nos cercam são fatos corriqueiros que ajudam na caminhada difícil, sofrida, quente, fria e de muitas prosas. A amizade cultivada em uma romaria não é algo produzido pelo “sacrossanto” mercado financeiro e das condições que somos envoltos com o neoliberalismo, que busca fazer de nós um ente sem vida, sociabilidade e cultivando nossa individualidade sempre. Como se tudo de bom que fazemos ou ruim se deve exclusivamente ao ser individual.


No caminho de uma romaria conseguimos ver outro projeto de vida, social e político entre os romeiros e daqueles que nos envolvem. Vejam que, ao chegarmos em uma comunidade rural ou citadina somos surpreendidos com gestos de amizades que nos surpreendem. Como bem expressou um romeiro que caminhou de Itapuranga para Guarinos, em nosso Estado de Goiás. Ressalva que não foi feito em nosso grupo, mas com outros caminheiros que estavam com os pés nas estradas e trilhas rumo ao Santuário de Nossa Senhora da Penha.


Ao nos encontrarmos em um destes locais de parada, quase oficial, na conhecida Venda do Guarinos, distante 8 quilômetros do Santuário, o meu amigo Jader me faz a fala que me motivou a escrever estas linhas nas trilhas da Romaria. Disse mais ou menos assim: “Valtuir, como encontramos gente boa, que cuida e acolhe a gente nesta caminhada. Nos oferecem água, comida e também acolhida em sua morada”. Ao ouvir tal afirmativa, não pude me conter e passei a pensar em deixar algumas reflexões para demonstrar que o caminhar, que tem sofrimento, dor, subidas e descidas, mas acima de tudo, cultivamos a amizade.


Amizade que pode ser sentida e compreendida com essa passagem que aconteceu com o grupo do nosso amigo Jader, que caminhava com sua esposa e sogra, além dos filhos que estavam juntos, com outros companheiros, que estavam a cavalo. Demonstração de que a caminhada nos ensina que devemos cultivar ainda mais essa capacidade de respeitar, acolher, conviver e ser de uns para com os outros. Demonstração de que a capacidade de ajudar uns aos outros, melhora a todos nós, enquanto sujeito e cidadão que vivem em meio a sociedade individualista e chauvinista.


Daí, a certeza que podemos encontrar em uma caminhada de romaria são verdadeiras amizades que são cultivadas para sempre. Não é algo passageiro e que se esquece em pouco tempo. As sociabilidades são duradouras, vivemos um ano de muitas lembranças das coisas boas que vivemos e das pessoas que nos acolhe com palavras, gestos e que sempre lembrar-se-ão de nós. Tudo isso é confirmado ao chegarmos nos pontos de descanso quando conversamos com algumas pessoas, muitas delas se voltam para e nos indagam sobre aquele(a) que estava na caminhada com sofrimento: “esse ano está tudo bem”.


Portanto, romaria são momentos de devoção, muita fé e a certeza de que cultivamos o melhor dos humanos: a capacidade de acolher e a certeza de que somos todos amigos. Estou insistindo na amizade para contrapor a ideia de solidariedade que foi produzida para nós, que somos frutos da sociedade ocidental – revolução francesa – um conceito da burguesia. A amizade para nós deve ser entendida como essa capacidade de acolher, cuidar, ser aquele que se coloca no nosso meio, abre o seu coração para aceitar os diferentes em sua casa ou propriedade. Tudo isso é uma demonstração de que somos e devemos ser capazes de melhorar a cada dia.


Amizade que não se encerra com uma caminhada, mas continua para outros tempos e lembranças que são reinventados com as centenas de romeiros que estão a caminho. Nada de trajeto feito e pronto. Amizade que está com aqueles que caminham a pé, nas cavalgadas, com os carros de boi, na carroça, nas inúmeras caravanas tudo construindo a possibilidade de afirmar que a sociabilidade não é algo passageira, mas deve ser contínua e que, em um futuro próximo, voltaremos a nos encontrar. Esse encontrar é, para muitas pessoas, um giro de um ano, mas não há esquecimento do amigo(a), tudo é cultivado sem essa individualidade.


A Romaria de Guarinos é um processo de fortalecer e ressignificar a nossa capacidade como sujeitos do processo histórico e na certeza de que precisamos romper com essa individualidade que parece ser empreendedora, mas está eliminando a essência dos humanos que somos todos nós. Manter-se unidos e fiéis na amizade que é construída com muitas dores, clamores, sentidos e coletividade. Tudo isso não pode ser dissipado como algo que se desmancha no ar, ao contrário. Se aprendermos com os romeiros em caminhada, tenho a certeza que vamos ter uma sociedade mais compreensiva, que se coloca no lugar do outro, aceitando os diferentes e as suas diferenças. São aprendizados que se materializam na condição de formar as amizades sinceras que não podem ser rompidas com o discurso da individualidade. Que continuemos sempre em caminhada, se possível em romaria, sempre!

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