BRASIL, EM O POETA COME AMENDOIM*



Noites pesadas de cheiros e calores amontoados... Esta noite foi assim, com amontoados de lama sobre mim, era terra e mais terra, nunca vi igual.


Foi o sol que por todo o sítio imenso do Brasil, de norte a sul,

Andou marcando de moreno os brasileiros, marcou também o solo nu do Cerrado, cercado por desertos verdes. Isso não bastou, para o Norte o dedo aponta.


Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer, tempos bons eram aqueles, o Cerrado estava em pé, era possível ver a enxurrada abastecendoo rio ainda vivo... hoje não tendo para onde ir, ela lava, carrega, inunda, afoga.


A noite era pra descansar. As gargalhadas brancas dos mulatos foram substituídas por choro, velam um corpo negro estendido no chão, as noites no morro não têm descanso, tem bala, tem lama.


Silêncio! O Imperador medita os seus versinhos, ou melhor, no Brasil de agora, enquanto alguns meditam, outros passam a boiada, propõem a PL do Veneno, mas poucos conhecem o chão do Brasil profundo, onde se têm choro e ranger de dentes.


Os Caramurus conspiram na sombra das mangueiras ovais, tudo em nome da pátria. Hoje estão engravatados à sobra das formas de Niemeyer.


Só o murmurejo dos cre'm-deus-padres irmanava os homens de meu país... Mas o “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” evidenciou fraturas, o povo se fragmentou.

Duma feita os canhamboras perceberam que não tinha mais escravos, estavam livres de seus senhores e presos a um modelo produtivo que segrega e faz vítimas como a polícia.


Por causa disso, muitas virgens-do-rosário se perderam, encontraram-se anos mais tarde como finas, recatadas e do lar.


Porém, o desastre verdadeiro foi embonecar esta república temporã e foi só tirar os panos que se viu dinheiro dentro da cueca, rachadinhas que levavam a uma profunda erosão de valores. A república está desbonecada.


A gente ainda não sabia se governar... Aprenderemos um dia! 2022 será decisivo, afinal, somos um povo heroico que precisa engrossar o brado retumbante.


Progredir, progredimos um tiquinho, avanços que o GOLPE nos tirou.


Que o progresso também é uma fatalidade...

Que tiro foi esse?

Bala perdida, uma fatalidade!


Será o que Nosso Senhor quiser!

Não, os rumos estão em nossas mãos!


Estou com desejos de desastres e eles já nos acontecem, e nem adianta colocar São Pedro como o vilão. Cavalcante em Goiás, Sabará, Brumadinho, Rio Acima e tantas outras cidades ainda em Minas Gerais e na Bahia e esta semana, Petrópolis, todas no rastro do aquecimento global que também acontece no Brasil. Ou será que vivemos em outro planeta?


Com desejos do Amazonas e dos ventos muriçocas,

O passar da boiada tem alterado inclusive estes ventos que já não são muriçocas, nos apresentaram o primo matador, Aedes aegypti é o nome dele! Mas viva a ciência, pois no dia oito de fevereiro de 2022 a Universidade de Brasília apresentou o inseticida natural capaz de combater o vírus.


Encostando-se à cangerana dos batentes, penso no Brasil, sem batentes, mas com cangenaras de 30m de altura.


Tenho desejos de violas e solidões sem sentido.

Sentido? Isso já não temos, pois meninos vestem azul e meninas vestem rosa. Nos restaram os “memes” e os hits do “tiktok”, quem aguenta? Sinto pelos contratantes de jovem aprendiz.


Tenho desejos de gemer e de morrer. A pandemia tornou este desejo real.

Brasil... 2022, do norte ao sul, ainda tão desigual.


Mastigado na gostosura quente do amendoim estão quem sofre com a fome, que continua fazendo vítimas, são famílias inteiras nas ruas a procura de mastigados frios.


Falando numa língua corumím, onde estão o inglês e o espanhol em um país que possui 274 línguas indígenas faladas?[1] Aqueles estão no currículo escolar, enquanto estas, a estas tocam o chão!


De palavras incertas num remeleixo melado melancólico, desconfio que estamos melancólicos e mascarados... Palavras saem lentas, frescas e trituradas pelos meus dentes bons que já não são vistos, aprendemos a sorrir com os olhos.


Molham meus beiços que dão beijos alastrados, derramamos irreverência mesmo machucados.

E depois semitoam sem malícia as rezas bem nascidas, do Divino à Congada todas canceladas, ainda estamos isolados.


Brasil amado não porque seja minha pátria, que já não abraça como antes, mas continua acolhendo.

Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der... deu notícia, congolês morto na Barra da Tijuca, mas ainda somos pátria amiga, só o nosso povo que já não é mais o mesmo.


Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso, um ritmo de luta e (re) existência.

O gosto dos meus descansos, mesmo que já não os tenha, já viu o preço do combustível? E a cesta básica, que é mínima e custa caro?!


O balanço das minhas cantigas, amores e danças estão nas lembranças e vivências da criança, o futuro e a esperança do país.

Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada, somos de riso frouxo e largo, mesmo que nos façam chorar.

Porque é o meu sentimento pachorrento, acredito no amanhã mesmo que o hoje seja desafiador.

Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir, mesmo que eu esteja com medo da bala, da fome, da lama, sou brasileira (o) e continuo acreditando.






*Crônica escrita a partir do texto “O poeta come amendoim”, de Mario de Andrade (1924), disponível em Poesias Completas. São Paulo: Martins Editora, 1955. p. 157-1ª 58.

[1] Informação encontrada no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Acesso 18 de fevereiro. https://indigenas.ibge.gov.br/estudos-especiais-3/o-brasil-indigena/lingua-falada#:~:text=Os%20resultados%20do%20Censo%202010,pertencentes%20a%20305%20etnias%20diferentes.

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