Brasil: O Futuro da Extrema-Direita[1]- Os limites do lulismo, os filhos de Bolsonaro e a nova política de desintegração

Texto de:
Tradução: Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos
Professor de História da Universidade Estadual de Goiás - UEG
À medida que o Brasil vai às urnas em 4 de outubro[4], pesquisas mostram Luiz Inácio Lula da Silva, o incumbente de 80 anos, em empate técnico com Flávio Bolsonaro, cujo pai permanece preso por tramar um golpe após perder a presidência em 2022.
Do lado de fora, pode ser difícil entender como Lula e seu Partido dos Trabalhadores (PT), que fez mais do que qualquer outro partido na história brasileira para elevar os pobres e implementar medidas de bem-estar social, podem ser desafiados pelo herdeiro de Jair Bolsonaro, sob cujo governo a violência, a desigualdade e a criminalidade dispararam em todo o país. Mas, o apelo da extrema direita contemporânea nunca é simples.
Poucas figuras estão melhor posicionadas para compreender essa disputa do que o filósofo político Rodrigo Nunes. Participante inicial do Fórum Social Mundial, ele se destacou como analista das armadilhas e possibilidades da organização de esquerda – tema de seu primeiro livro, Neither Vertical nor Horizontal (2021). Desde então, emergiu como um dos críticos mais incisivos do bolsonarismo – um fenômeno que ele situa em um contexto internacional mais amplo em seu novo livro, Anatomy of Disintegration: What Brazil Reveals About the Global Far Right.
Carlos Pérez conversou com Nunes sobre a eleição que se aproxima, as conquistas e decepções do terceiro mandato de Lula, e as forças que fizeram surgir o bolsonarismo e sustentam seu apelo.
Carlos Pérez: Qual é a sua avaliação do terceiro mandato de Lula? Como o lulismo contemporâneo difere da política que o levou ao poder há mais de duas décadas?
Rodrigo Nunes: Na eleição de 2022, o melhor presidente da história brasileira concorreu contra o pior e venceu por uma margem muito pequena. Isso dá uma ideia dos desafios que Lula enfrentou ao retornar ao cargo. A sociedade brasileira hoje é muito diferente do que era em 2003. O sentimento anti-PT, e até especificamente anti-Lula, é muito profundo. Por outro lado, o voto bolsonarista tem um piso muito alto.
Então, quando Lula voltou ao poder, o fez de uma posição muito mais fraca. Politicamente, ele enfrentava o que costuma ser descrito como o Congresso mais à direita de todos os tempos. Economicamente, ele não tinha nada que se parecesse com o boom das commodities de 20 anos atrás, que lhe permitiu aumentar os gastos públicos em programas sociais sem aumentar impostos – uma fórmula de ganha-ganha que enriquecia os ricos e tornava os pobres menos pobres.
Sob essas novas circunstâncias restritas, seu governo alcançou duas coisas principais, que podem ser vistas como um tanto contraditórias. Primeiro, aprovou uma reforma tributária que deslocou a carga tributária para cima – não algo que conquistou corações e mentes, já que seus efeitos não serão sentidos por anos. Segundo, adotou um novo arcabouço fiscal, comprometendo o Estado com limites de gastos, o que fortaleceu sua aliança com a classe capitalista, mas enfraqueceu sua capacidade de financiar programas sociais. André Singer e Fernando Rugitsky descreveram o resultado como “lulismo em câmera lenta”. Enquanto isso, como nos EUA sob o presidente Biden, os indicadores macroeconômicos melhoraram, mas as pessoas não sentem isso, porque a dívida privada disparou e há uma epidemia de apostas online.
Este governo foi uma trégua bem-vinda após dez anos de turbulência institucional, mas a mera normalidade nunca seria suficiente para desafiar o apelo social do bolsonarismo. É por isso que, mesmo com Jair na prisão, seu filho menos competente, Flávio, ainda pode derrotar um dos maiores líderes políticos que o mundo conheceu desde meados do século passado.
Carlos Pérez: As pesquisas mostram um empate técnico entre Lula e Flávio. O que uma vitória de Flávio significaria para o Brasil?
Rodrigo Nunes: Dos quatro filhos de Jair, Flávio é o mais sensato, mantém o perfil mais discreto e defende as visões de direita mais tradicionais — no sentido de que tem menos paciência para o movimento MAGA do que seus irmãos Eduardo, Carlos e Jair Renan. Ele é um político à moda antiga. Ele é excelente em fechar acordos. “Diga quanto você quer, e nós resolveremos”. Como outros políticos à moda antiga, ele esteve envolvido em muitos escândalos de corrupção, incluindo o grande que está se desenrolando agora, o caso Banco Master – uma fraude bancária de bilhões de reais. (Um dos operadores no centro desse esquema foi o maior doador da campanha de Jair Bolsonaro em 2022.)
Quase todos os implicados estão à direita, mas o escândalo de alguma forma prejudicou mais à esquerda desde que chegou ao Supremo Tribunal – cinco ministros foram vinculados ao banqueiro culpado. Desde o julgamento de Bolsonaro, o tribunal tem sido associado à esquerda, embora não seja de esquerda nem de longe. Como sempre, o discurso anticorrupção funciona seletivamente.
Podemos esperar algumas coisas de Flávio. A primeira e mais importante seria um realinhamento com os EUA, como durante a presidência de seu pai. Houve muita troca de mensagens entre Washington e o campo bolsonarista, muito através de Eduardo, um ex-deputado que abandonou o cargo e se mudou para os EUA, onde pressionou a administração Trump, com dedicação invejável, para impor sanções ao seu país natal. Em junho, uma carta pública de Marco Rubio para Flávio sugeriu implicitamente que este último havia oferecido colocar sua equipe de transição à disposição de Washington caso vencesse.
Em troca do apoio de Trump, Flávio sinalizou sua intenção de se render aos interesses dos EUA em áreas como terras raras, energia e agronegócio. Mas a intervenção de Trump vai além da esfera econômica. No início deste ano, novamente após muita pressão da direita brasileira, os EUA declararam as duas maiores organizações criminosas do Brasil, o PCC e o Comando Vermelho, organizações terroristas – um movimento normalmente usado para justificar subsequente intervenção política e militar, como na Colômbia, Equador e, mais recentemente, Venezuela. O objetivo da “guerra às drogas” não é combater o crime em si, mas afirmar os interesses dos EUA na região, muitas vezes escolhendo lados entre facções políticas locais, bem como facções criminosas.
No front doméstico, haverá ainda mais capitalismo predatório do que sob Jair, quando houve um boom de mineração ilegal, grilagem de terras e desmatamento na Amazônia; aumento do assassinato de povos indígenas e ativistas ambientais; e intensificação do crime organizado: Flávio e seu círculo íntimo têm laços bem documentados tanto com o tráfico de drogas quanto com as milícias privadas, que são comandadas por policiais ativos ou aposentados, e agora controlam áreas inteiras do Rio de Janeiro.
Então podemos esperar que o crime organizado penetre muito mais fundo na política sob Flávio. Isso, combinado com o retrocesso democrático e o ataque à educação e aos serviços públicos, tornará difícil, caso ele chegue ao cargo, livrar-se dele. O Brasil pode até se transformar em um quase-Estado falido na próxima década.
Carlos Pérez: E o que você esperaria de um Lula 4.0, se ele for reeleito?
Rodrigo Nunes: Esta é a questão na mente de todos. Ele pensará: “droga, já que esta é minha última chance, é melhor fazer o máximo que puder”. Ou será: “preciso cimentar minha aliança com a direita tradicional para garantir que a extrema direita fique fora do poder”? A última rota exigiria muitas concessões; essencialmente abriria caminho para um sucessor ainda mais centrista. A inclinação natural de Lula sempre foi para a negociação. Mas agora seu legado está em jogo – e isso pode afetar suas decisões.
Carlos Pérez: Vamos dar um passo atrás para considerar as origens do bolsonarismo. Alguns comentaristas afirmaram que foi uma reação aos protestos de junho de 2013, quando milhões de brasileiros foram às ruas para se opor ao aumento das tarifas de ônibus – um movimento que eventualmente se transformou em um desafio maior ao PT. Você concorda com essa leitura? Qual você vê como o verdadeiro significado daqueles protestos, que você testemunhou em primeira mão?
Rodrigo Nunes: É inegável que 2013 mudou o equilíbrio das forças políticas. Os protestos deram o primeiro golpe real na imagem do PT, que havia sido extremamente popular por uma década. Dito isso, os manifestantes não eram contra o governo como tal. Eles exigiam que o PT aprofundasse ainda mais suas reformas. Eles diziam: “sim, nosso poder de compra aumentou; sim, o acesso ao ensino superior se expandiu; sim, houve uma melhoria quantitativa em nossas vidas. Mas a situação ainda é ruim no que diz respeito aos serviços públicos, à responsabilidade institucional e ao acesso à cidade”. O transporte público, seu alvo imediato, é um bom exemplo: é de má qualidade, caro e controlado por máfias do setor privado.
O PT poderia ter ficado ao lado dos manifestantes e dito: “alcançamos muito nestes primeiros dez anos, mas não é suficiente – agora precisamos impulsionar reformas estruturais há muito devidas”. Em vez disso, fez o oposto: para não perturbar a direita tradicional e os elementos de centro-direita em sua coalizão política, reprimiu os protestos. E assim confirmou a pior suspeita dos manifestantes: que o ímpeto progressista do partido estava esgotado.
No ano seguinte, a investigação policial “Operação Lava Jato” revelou um enorme escândalo de corrupção que implicou praticamente todos os principais partidos políticos. Ao mesmo tempo, a súbita desaceleração do crescimento chinês – um resultado tardio da crise financeira global – trouxe o boom das commodities a um fim abrupto. Na mente de muitas pessoas, os dois fenômenos se entrelaçaram: se havia uma desaceleração econômica, era porque o PT havia presidido uma farra de dinheiro público durante a década anterior.
Com o PT e a oposição igualmente manchados por essa crise dupla, a extrema direita emergente era a única força que podia se posicionar como herdeira da indignação de 2013.
Então sim, você poderia dizer que os protestos de 2013 levaram ao bolsonarismo. Mas isso seria, na melhor das hipóteses, uma verdade parcial. De fato, esse argumento tem tração apenas em duas partes do espectro político. Um grupo é a esquerda petista, que pode ser muito acrítica em relação ao partido – a ponto de culpar os manifestantes que foram às ruas por possibilitar irresponsavelmente a extrema direita. O outro grupo, é claro, é a própria extrema direita, que razoavelmente concluiu: “já que a esquerda está acusando o povo de nos apoiar, vamos concordar – certamente, eles nos apoiaram o tempo todo”! Entrar nesse tipo de discurso foi um tiro no pé incrível por parte do PT.
Carlos Pérez: Qual é a base social e política do bolsonarismo?
Rodrigo Nunes: Deixe-me começar com uma afirmação que pode parecer paradoxal: não há ligação necessária entre Jair Bolsonaro, o homem, e o bolsonarismo, o movimento político. De fato, acredito que houve talvez apenas duas eleições na história brasileira que uma figura como ele poderia ter vencido – 1960, quando Jânio Quadros, outro candidato outsider, concorreu com uma plataforma populista e anticorrupção, e 2018. Por cinco anos o PT havia sido abalado por turbulência política e escândalos de corrupção e havia feito concessão após concessão a uma direita fortalecida, até que não havia mais terreno de esquerda para ceder. No processo, havia perdido muito de sua credibilidade institucional. Seus aliados na direita tradicional e centro-direita estavam igualmente desacreditados pela “Operação Lava Jato”.
Isso criou uma situação completamente excepcional, que exigia um candidato completamente excepcional. Bolsonaro simplesmente estava lá, na hora certa; ele aproveitou uma onda que havia começado uns bons três anos antes. Sua conquista foi dar a essa onda liderança e uma identidade.
Agora, a sua pergunta. Desde o Brexit e Trump, quando o clima político mudou tão dramaticamente, a esquerda respondeu com duas narrativas: ou pintamos a extrema direita como uma revolta das elites sem uma base popular real, ou como uma revolta dos deixados para trás, de uma classe trabalhadora traída pelo elitismo liberal.
Nenhuma dessas narrativas me convence. Em vez disso, acredito que a extrema direita contemporânea é um fenômeno transclassista. Uma maneira de entendê-la é como um movimento que reúne uma subclasse que desistiu de esperar pelas promessas da modernização – trabalho formal, instituições responsáveis, igualdade real perante a lei – e uma elite que nem sequer finge mais que essas promessas estão disponíveis.
Entre eles está o núcleo mais duro dos verdadeiros crentes – não o maior grupo estatisticamente, mas o mais apaixonado – que eu chamo, emprestando uma frase de Orwell, de "classe média-baixa-alta". São pessoas que ficam entre dois apoios: têm um bom padrão de vida, mas carecem dos ativos ou do capital social da verdadeira elite. Não são apenas assombradas pelo medo da mobilidade social descendente, mas também ameaçadas por qualquer mobilidade ascendente mínima alcançada pelos que estão abaixo delas, como durante a Onda Rosa na América Latina, quando os pobres se tornaram menos pobres – começaram a frequentar a universidade, viajar internacionalmente e assim por diante. Isso gerou um sentimento de ressentimento que foi facilmente instrumentalizado.
O apelo da extrema direita contemporânea muda dependendo de onde você está. A classe dominante a vê como oferecendo a forma mais predatória de capitalismo e neutralizando todos os desafios vindos de baixo. A base popular é atraída pelo discurso da lei e da ordem e pela perspectiva de uma economia mais desregulamentada que “tirará o Estado de suas costas”, permitindo competir mais eficientemente no mercado. Para um contingente heterogêneo vindo de ambos os lados, é também uma oportunidade de carreira: hoje em dia é possível ganhar um bom dinheiro como agitador de extrema-direita.
Carlos Pérez: Como o bolsonarismo funciona em nível organizacional?
Rodrigo Nunes: O bolsonarismo, como movimento da extrema direita, tem três vantagens estruturais.
Primeiro, é muito mais compatível com os interesses do capital, então pode contar com o apoio de grandes empresas e da mídia corporativa de maneira que a esquerda nunca pôde.
Segundo, em vez de mudar a sociedade, quer manter os diferenciais de poder existentes, até intensificá-los, o que torna a construção de coalizões muito mais fácil. Cada parceiro tem sua própria esfera – a oligarquia latifundiária sua terra, a oligarquia financeira suas alavancas econômicas – e desde que os interesses de todos sejam atendidos, eles podem trabalhar juntos. Normalmente não discutem sobre uma hierarquia de necessidades, ou sobre diferenças estratégicas – exatamente os problemas que afligem a esquerda.
A terceira vantagem decorre das mídias sociais, que estruturam a esfera pública como um mercado no qual as pessoas competem individualmente por curtidas e compartilhamentos, que são tokens de atenção. Isso resulta tanto na hiper-individualização da política quanto no privilégio da participação online sobre a organização offline. Isso molda profundamente como a maior parte da extrema direita contemporânea se organiza: como uma espécie de esquema de pirâmide cujos blocos de construção são “empreendedores políticos” – pessoas que, de uma posição de destaque nas mídias sociais ou tradicionais, produzem conteúdo que ao mesmo tempo acumula capital atencional, social e político.
Através de um fluxo constante de conteúdo chamativo, eles mantêm sua base continuamente engajada, mas também atomizada, privada de canais para participação não digital. Como tal, podem ser mobilizados e desmobilizados mais ou menos à vontade. É revelador que Bolsonaro nunca se preocupou em construir um partido real próprio – nem Farage ou Trump. Eles veem a estrutura partidária não como um objetivo em si, mas apenas como um veículo para uma política que é realmente feita em outro lugar.
Quando a política é colonizada pela economia da atenção, o discurso público se torna um mar em constante mudança de indignação. Hoje, isso; amanhã, aquilo. É um estado de coisas inteiramente inimigo da política emancipatória, que se baseia em fortalecer a capacidade das pessoas de tomar decisões sobre seu destino coletivo e participar de esforços sustentados para mudar o status quo. Trump nos mantém ocupados com manchetes e postagens noturnas, enquanto o verdadeiro trabalho de destruição continua em segundo plano.
Carlos Pérez: Em nível ideológico, o que o bolsonarismo representa? Como ele difere da direita tradicional?
Rodrigo Nunes: Lemos mal a extrema direita ao tomar seu discurso pelo valor de face. É um erro acreditar em Trump, Bolsonaro et al quando falam de dar um passo atrás do "globalismo", de retornar a um sonho fordista de empregos industriais, voltar o relógio da revolução sexual e re-sacralizar a família nuclear e os papéis tradicionais de gênero. Essas ideias têm um apelo psicológico óbvio para certos eleitores, mas não são confirmadas pelas ações da extrema direita contemporânea. Pelo contrário, é um movimento que se alimenta da desintegração social produzida por décadas de neoliberalismo e acelera esse processo em direção a um certo horizonte.
No meu livro, caracterizo esse horizonte como um “estado de natureza gerenciado privadamente e distribuído diferencialmente”: uma situação em que o Estado abdica de cada vez mais responsabilidade de mediar conflitos sociais e, em vez disso, consagra o governo da força bruta.
Deixe-me fornecer um exemplo revelador. Em 2019, madeireiros ilegais no estado amazônico de Rondônia incendiaram um caminhão de combustível que servia a uma operação de fiscalização federal, que então teve que ser cancelada; duas semanas depois, o ministro do meio ambiente viajou para a cidade para se encontrar com os madeireiros e ouvir suas demandas. A mensagem explícita era: “Estou do seu lado. Não há problema se você queimar propriedade do governo, matar os indígenas cuja terra você está desmatando e colaborar com os traficantes de drogas que usam as mesmas rotas – tudo isso é iniciativa privada, e não interferimos na iniciativa privada”. A mesma ideia informa a relação de Trump com as Big Techs.
Isso pode assumir a forma do que chamei de “capitalismo de feitor”. Em economias de plantation como o Brasil e o Sul dos EUA, o policiamento era uma função pública que cresceu a partir de uma privada. O feitor contratado para disciplinar a força de trabalho da plantation tornou-se, após a abolição, o policial mantendo os homens e mulheres libertos em seus lugares. Hoje essa função pública está se tornando privada novamente. Wagner e Blackwater, os narcos no México, as milícias no Rio – tais atores não-estatais exercem cada vez mais o monopólio da força sobre as áreas que controlam. O capitalismo de feitor implica a aliança entre o capital e esses agentes livres de repressão, que se juntam à coalizão não apenas como pistoleiros de aluguel, mas como parceiros políticos iguais. Tal convergência foi prenunciada no primeiro governo Bolsonaro e poderia facilmente se estabelecer sob Flávio.
É claro por que os poderosos seriam atraídos por um modelo que lhes promete desfrute irrestrito do poder. Mas por que os mais fracos também votam nele? Por causa das compensações psicológicas incluídas no pacote. A promessa é: “mesmo que você permaneça hiper-explorado em seu trabalho, mesmo que suas expectativas de vida encolham diariamente, garantiremos que haja pelo menos uma esfera da vida em que seu poder corra solto. Em casa, você pode descontar na sua esposa ou nos seus filhos, ninguém vai interferir; e ninguém pode lhe dizer para não fazer piadas sobre pessoas negras ou gays”.
Carlos Pérez: Seu novo livro promete explicar “o que o Brasil revela sobre a extrema direita global”. O que vemos quando olhamos o sistema mundial a partir da periferia? Em que sentido o mundo está sendo brasileirizado?
Rodrigo Nunes: O pensamento social latino-americano e particularmente brasileiro tem se preocupado em reformular as concepções ocidentais da relação centro-periferia. Essa tradição começa nos anos 1960 com a “teoria da dependência”, que nasceu como uma crítica à teoria da modernização – a noção, popularizada por nomes como Walt Rostow e Seymour Martin Lipset, de que os países periféricos poderiam, se jogassem bem suas cartas, alcançar o mesmo lugar feliz dos países avançados – passar do atraso à modernidade plena.
A crítica dizia: “essa ideia é falsa, porque não estamos fora do capitalismo, ou atrás dele, sempre fomos incluídos nele como periféricos. Nossa função sempre foi fornecer recursos naturais e mão de obra barata para as economias centrais e, assim, qualquer desenvolvimento que possamos ter sempre será subordinado ao deles”. Então, o argumento dos anos 1960 e 70 era: “é errado pensar no centro como o futuro da periferia, a condição periférica é aquela em que o moderno e o atrasado estão sempre combinados – e essa combinação é instrumental para o desenvolvimento capitalista”.
As mesas viraram nos anos 1980 e 90, quando os EUA e os países europeus começaram de certa forma a se assemelhar à periferia, com crescente desigualdade, precariedade, informalidade e “favelização” (um aumento de favelas como as brasileiras). E então pessoas tanto no Brasil quanto no Norte Global começaram a descrevê-los como “brasileirizados”.
O que explicou a reversão? Os herdeiros da teoria da dependência agora historicizaram a própria teoria da modernização – argumentando que ela havia sido a ideologia de um período de expansão capitalista, quando o horizonte de expectativas era de crescimento permanente. Agora, em um período de contração, de horizontes encolhendo, o Norte Global se assemelharia cada vez mais à periferia.
Essa ideia pode ser estendida ao reino da política. A ideia de que a extrema direita corresponde a uma aceleração da desintegração é muito mais clara no Brasil sob Bolsonaro, ou na Argentina sob Milei, ou em El Salvador sob Bukele do que era mesmo no primeiro mandato de Trump, ou com a AfD na Alemanha ou o RN na França.
Carlos Pérez: Você disse que “mera normalidade” não vai derrotar o bolsonarismo. Então, como poderia ser uma resposta radical à extrema direita contemporânea?
Rodrigo Nunes: Deixe-me começar com um paradoxo da teoria da informação: para que um sinal seja recebido como informação, ele deve ser suficientemente diferente do ruído de fundo, mas não tão diferente que não se registre como um sinal. Quando aplicamos essa ideia à política, percebemos que o radicalismo não é fidelidade a um princípio em sua forma mais pura e abstrata; é antes um afastamento da norma que ainda é legível.
Você encontra uma tática que o leva mais longe – mas ainda pode ser incorporada – à situação existente: uma tática que inspira a confiança das pessoas, que as convence a participar, que produz efeito real.
O problema hoje é que todas as coisas que realmente precisam ser feitas parecem extremamente radicais. Tomemos a concentração de poder. Vivemos em um mundo onde um empresário pode desligar parte do exército de um país, como Elon Musk fez quando cortou a cobertura da Starlink para as forças ucranianas no meio de sua contraofensiva de 2022 – algo que teria sido um enredo de James Bond nos anos 1970. A resposta sensata é aprovar políticas governamentais que impeçam indivíduos privados de exercer tal poder. Mas se você propuser tal política hoje, será acusado de pedir expropriação, ou infringir direitos pessoais. Fomos tão longe em uma direção que você só pode intervir puxando muito forte na outra.
Aqui podemos aprender algo com a extrema direita. Coisas são ditas hoje – por exemplo, que cidadãos com a cor de pele errada devem ser deportados – que eram impensáveis há pouco tempo. Desde 2016 o impensável não parou de acontecer e o indizível se tornou senso comum. A extrema direita forçou os limites do possível na direção do que acredita que realmente precisa ser feito.
Talvez nada do que realmente precisamos fazer seja possível hoje – mas também não seremos capazes de fazê-lo amanhã, a menos que comecemos a construir as condições agora. Temos que construir uma base social para nossos objetivos. Não podemos apenas fornecer argumentos racionais e políticas críveis; temos que instilar um desejo, enraizado na experiência cotidiana das pessoas, por aquele outro mundo melhor. As pessoas têm que sentir não apenas que viveriam melhor em um mundo remodelado, mas que começam a viver melhor ao se juntarem ao movimento para chegar lá.
NOTAS:
[1]Entrevista originalmente publicada em língua inglesa: https://www.equator.org/articles/brazil-far-right-rodrigo-nunes-lula-bolsonaro Tradução: Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos, professor de História da Universidade Estadual de Goiás - UEG
[2] Rodrigo Nunes é um filósofo político cujos livros incluem Neither Vertical nor Horizontal: A Theory of Political Organisation [Nem vertical nem horizontal: uma teoria da organização política. São Paulo: Ubu Editora, 2023]; Organisation of the Organisationless: Collective Action After Network; Anatomy of Disintegration: What Brazil Reveals About the Global Far Right
[3] Carlos Pérez é um teórico político e escritor espanhol, cujo livro mais recente é Hacer mundo (2025). De 2021 a 2025, ele trabalhou como assessor de política externa no gabinete de Yolanda Díaz, segunda vice-primeira-ministra da Espanha.
[4] Entrevista realizada antes do primeiro turno eleitoral.








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