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Nove estados e um voto para a Nação

há 3 horas
7 min de leitura

Parce qu'on a la rage,

On restera debout quoi qu'il arrive,

La rage

D'aller jusqu'au bout et là où veut bien nous mener la vie,

Parce qu'on a la rage,

On pourra plus s'taire ni s'asseoir dorénavant on s'tiendra prêt

Parce qu'on a la rage, le coeur et la foi!

Parce qu'on a la rage,

On restera debout quoi qu'il arrive,

La rage

D'aller jusqu'au bout au delà où veut bien nous mener la vie,

Parce qu'on a la rage,

Rien ne pourra plus nous arrêter...


Keny Arkana - La Rage


Texto de:

Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos[1]

Professor de História na Universidade Estadual de Goiás - UEG



I

No último domingo, dia 25 de outubro de 2026, uma imagem marcou a votação do segundo turno das eleições presidenciais no Brasil: netos conduzindo avós idosos pelas mãos até a seção eleitoral, velhinhos caminhando com dificuldade, apoiados em bengalas ou nos braços de jovens, para registrar na urna o peso de uma decisão coletiva. Outra imagem se soma a essa: milhões de pessoas cruzando rios em barcos, atravessando estradas em ônibus lotados, dirigindo por horas em carros próprios ou alugados, embarcando em aviões para retornar de outros estados e países, tudo por um único gesto; votar. Essas cenas, que poderiam parecer apenas a rotina burocrática de um processo eleitoral, revelam, na verdade, algo muito mais profundo.


A vitória do povo brasileiro contra o projeto de subordinação ao fascismo e ao capital especulativo, que mais uma vez tentou-se impor ao Brasil, tem um nome, um rosto e uma origem. O presidente reeleito para o seu quarto mandato, Luiz Inácio Lula da Silva, nasceu no Nordeste, e esse fato não é um detalhe biográfico menor, mas um elemento central para compreendermos a profundidade histórica e simbólica do momento político que o país enfrenta. A trajetória desse pernambucano: nascido em uma família pobre, que migrou ainda criança com a mãe para São Paulo, trabalhou desde cedo como vendedor ambulante e posteriormente como metalúrgico, perdeu um dedo em uma prensa industrial, liderou greves e, décadas depois, chegou à Presidência da República; condensa, em uma única vida, a experiência coletiva de milhões de brasileiros que conhecem na pele o peso da desigualdade e a força da superação.


Não se trata, aqui, de personalismo. Trata-se de reconhecer que a origem do presidente não é um adorno retórico, mas a expressão de uma dívida histórica em uma sociedade desigual e de uma resistência que se recusa a ser apagada. A região Nordeste do Brasil foi, por décadas, tratada como a região problema do país: estigmatizada, associada à seca, à fome, à miséria e ao atraso[2]. No entanto, foi exatamente dessa região que emergiu uma das vozes políticas mais potentes da história recente brasileira e do mundo, capaz de falar diretamente ao povo porque veio do povo. Quando o presidente afirma que “eu sou nordestino e sei que a nossa região é terra de gente trabalhadora, de um povo que nunca deixou de lutar e de sonhar.”[3], ele não faz apenas um discurso regionalista: ele reafirma a dignidade de um grupo social estigmatizado nacionalmente que sempre carregou o país nas costas, mas raramente é valorizado e reconhecido por seu grande esforço.


II

A vitória sobre o projeto fascista de subordinação imperial e ao capital especulativo não teria sido possível sem a participação ativa dos cidadãos e cidadãs do Nordeste do Brasil. Essa é uma constatação eleitoral, histórica e política. Nas eleições que definiram o rumo do país, os eleitores da região compareceram em grande número e votaram de forma contundente contra o projeto autoritário, garantido a diferença numérica[4] que impediu a ascensão da extrema-direita que está em pleno andamento na América do Sul: na Argentina, no Chile, na Colômbia, no Peru[5].


Mas como explicar essa força, essa vontade em comum de nove estados que combinados insurge perante o Brasil e o mundo? Em primeiro lugar, a memória. Os brasileiros nascidos em cada um dos nove estados da região conhecem, como poucos, o custo da subordinação. Sabem o que significa ver políticas públicas sendo desmanteladas, programas sociais sendo extintos, universidades sendo atacadas, direitos trabalhistas sendo retirados. Sabem o que significa depender de um Estado ausente e de uma economia que o desvaloriza e trata apenas como mão de obra barata. Por isso, quando o projeto nacional apresentado como “o novo caminho” pela extrema-direita era apenas o abraço ao fascismo e a subordinação ao capital internacional, o povo do nordeste logo reconheceu nele o velho inimigo, e responderam com a força de quem já lutou e venceu muitas batalhas[6].


Em segundo lugar, a organização popular. O Nordeste é uma região onde movimentos sociais, sindicatos, associações comunitárias, igrejas progressistas e coletivos culturais têm longas e profundas raízes. Essa teia de organizações permitiu que a crítica e a mensagem democrática circulassem para além dos algoritmos das Big Techs, alcançasse os rincões mais distantes e mobilizasse os que muitas vezes são dados como invisíveis. Enquanto as plataformas digitais tentavam impor narrativas de desinformação, os debates nas escolas de tempo integral, os encontros e seminários nas Universidades públicas, a boca a boca, as relações de amizade e vizinhança, as rádios comunitárias, as feiras, as romarias e as redes de solidariedade faziam circular a necessidade da democracia e soberania para o país.


Em terceiro lugar, há a compreensão de que a luta não é apenas local. A região que sustentou a vitória contra o projeto fascista não o fez por regionalismo estreito, mas por consciência de que seu destino está ligado ao destino do país e do mundo, à luz dos atuais protestos por melhores condições de vida, moradia e educação na França, Espanha e Itália. O povo do Nordeste entendeu que a subordinação ao grande capital especulativo não atinge apenas a sua região; atinge a nação inteira. Entendeu que o fascismo, quando se instala, ataca os mais pobres, desprovidos e necessitados. E, por isso, os homens e mulheres do Nordeste lutaram como se estivessem lutando por si e por todos: pelos idosos que dependem da aposentadoria, pelos jovens que precisam de escola e universidade, pelos trabalhadores que precisam de emprego, pelos doentes que precisam do SUS, pelas famílias que precisam de políticas públicas que as protejam e, sobretudo, pela vida que precisa de dignidade.


III

As mulheres e os homens da região Nordeste recusaram o roteiro da subordinação porque conhecem o preço da dependência. Recusaram a intromissão estrangeira porque sabem o que significa ter sua história escrita por outros. Recusaram a manipulação algorítmica das Big Techs porque aprenderam, na prática, que a verdade não se decide em servidores distantes, mas se constrói na luta cotidiana. Recusaram o modelo que empobreceu vizinhos e empobrece a Europa porque estão vendo, com os próprios olhos, o que aconteceu com a Argentina e o Chile, além dos acontecimentos atuais na Espanha e na França.


O povo sabe que a inflação que corrói o salário do trabalhador, sabe que o desemprego e o subemprego atingem os seus filhos, compreende a precarização dos serviços públicos e a incerteza sobre o futuro têm raízes políticas. Sabe que, se não ocupar as urnas, outros ocuparão, e não será em seu benefício. Por isso, o deslocamento até as urnas não é apenas um dever cívico formal; é uma aposta consciente na possibilidade de mudar o rumo dos acontecimentos. A esperança, nessa região, não é ingenuidade: é cálculo. É a compreensão de que a soberania se constrói com presença, com participação e com voto.


A vitória de um presidente nordestino é, portanto, a vitória de uma região que sempre foi chamada a carregar o país nas costas e que, agora, é reconhecida como protagonista da história[7]; destacando-se globalmente como polo de transição energética através das energias renováveis, tornando-se referência nacional em índices de educação pública e firmando-se como um centro efervescente de inovação tecnológica e produção científica[8]. É a vitória da dignidade sobre o preconceito, da organização sobre a desinformação, da soberania sobre a subordinação, da esperança sobre o medo. É a prova de que, quando o povo ocupa as urnas com consciência e determinação, a história muda de rumo. O Nordeste mostra para o Brasil e para o mundo que um outro mundo é possível[9]. Que essa mobilização e essas ações sejam vistas e contadas à luz de uma outra história do Nordeste no presente e no passado[10].


A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva não representa apenas o Nordeste: ele representa todos os brasileiros que já foram chamados de “nada" e que hoje decidiram dizer: Nós Somos Tudo!


Notas:


  1. Autor do livro: A ciência peculiar de Joaquim Antonio Alves Ribeiro: Ceará - Havard - Ceará. https://alvesribeirocientista.com.br/


  1. ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e outras Artes. Recife: FJN, Ed. Massangana; São Paulo: Cortez,1999; VILLA, Marco Antonio. Vida e morte no sertão: história das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX. São Paulo: Ática, 2000.


  1. EMÍLIO, Paulo. Lula comemora Dia do Nordestino e alerta que Flávio Bolsonaro vai cortar recursos do Pé-de-Meia e de programas sociais. Brasil 247, Nordeste, 8 out. 2026. Disponível em: https://www.brasil247.com/nordeste/lula-comemora-dia-do-nordestino-e-alerta-que-flavio-bolsonaro-vai-cortar-recursos-do-pe-de-meia-e-de-programas-sociais/. Acesso em: 26 out. 2026.


  1. Segundo os dados oficiais, a porcentagem de votos favoráveis a Lula foi:  Alagoas - 60,72%; Ceará - 68,93%; Maranhão - 69,54%; Paraíba - 67,46; Pernambuco - 69,20%; Piauí - 75,88%; Rio Grande do Norte - 65,72%; Sergipe - 69,53%. Ver: TOLEDO, Luiz Fernando; CARRANÇA, Thais. Os números que mostram de onde vieram os 10 milhões de votos que deram virada histórica a Lula. BBC News Brasil, Londres; São Paulo, 25 out. 2026. Atualizado em: 26 out. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cqe8rekpg9lxo. Acesso em: 27 out. 2026


  2. LISSARDY, Gerardo. O mapa que mostra como a direita expandiu seu poder na América Latina — e o que explica essa tendência. BBC News Brasil, 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0ejp13edzvo. Acesso em: 26 out. 2026.


  3. CARVALHO, José Murilo de. Jovita Alves Feitosa: voluntária da pátria, voluntária da morte. São Paulo: Chão Editora, 2019; MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda Restaurada: guerra e açúcar no Nordeste, 1630-1654. São Paulo: Editora 34, 2007; PEREIRA, Manoel Passos. O processo da Independência do Brasil no Recôncavo Baiano: política, guerra e cultura – 1820 a 1823. 2. ed. Salvador: EDUFBA, 2021.


  1. VASCONCELOS, Eduardo Henrique Barbosa de. O Brasil não torce pelo seu próprio "azarão". Além dos Muros, 2 ago. 2026. Disponível em: https://www.alemdosmuros.org/single-post/o-brasil-n%C3%A3o-torce-pelo-seu-pr%C3%B3prio-azar%C3%A3o. Acesso em: 26 out. 2026.


  1. FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS (FGV). Nordeste cresce acima da média nacional e se destaca no cenário econômico. FGV Notícias, 19 mar. 2025. Disponível em: https://portal.fgv.br/noticias/nordeste-cresce-acima-da-media-nacional-e-se-destaca-no-cenario-economico. Acesso em: 26 out. 2026.


  1. Não por acaso, a ideia de que um outro mundo é possível foi amplamente elaborada e divulgada pelo geógrafo baiano Milton Santos. Ver: SANTOS, Milton. Por Uma Outra Globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro/ São Paulo: Editora Record, 2000.


  1. Para uma história focada na Ciência e Tecnologia, ver: VASCONCELOS, Eduardo Henrique Barbosa de. A Ciência peculiar de Joaquim Antonio Alves Ribeiro: Ceará - Harvard - Ceará. Teresina - PI: Editora Cancioneiro, 2024.



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